Preço do pão pode subir em outubro
A escalada do preço do trigo nos mercados internacionais e a dependência de Portugal face às importações deverão voltar a pressionar o preço do pão a partir de outubro. Em Trás-os-Montes, agricultores e investigadores defendem há anos o reforço da produção cerealífera nacional, enquanto projetos desenvolvidos em Bragança procuram recuperar variedades tradicionais de trigo e outros cereais
O pão poderá ficar mais caro já no próximo mês de outubro, num novo reflexo da pressão que se faz sentir sobre o mercado dos cereais. A subida da cotação internacional do trigo, conjugada com a instabilidade geopolítica no Mar Negro, períodos de seca na Europa e o aumento dos custos de produção, está a colocar novamente a fileira da panificação sob pressão.
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
A Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP) admite aumentos no preço do pão, numa altura em que as empresas do setor enfrentam custos mais elevados não apenas nas matérias-primas, mas também na energia, nos transportes e na mão de obra.
A farinha, contudo, representa apenas uma parte do custo de produção de um pão. É precisamente por isso que os operadores do setor têm procurado absorver os aumentos durante algum tempo. A persistência da subida das matérias-primas acaba, porém, por limitar essa capacidade e poderá levar à transferência de uma parcela maior dos custos para o consumidor.
O problema ganha maior dimensão quando se olha para a dependência de Portugal face ao exterior. O país produz apenas uma pequena parte dos cereais de que necessita, recorrendo às importações para assegurar a maioria do abastecimento. No caso do trigo, a produção nacional cobre apenas cerca de 5% das necessidades.
Trás-os-Montes já reclamava maior aposta nos cereais
Recorde-se que há quatro ano os agricultores da região já defendiam o regresso dos cereais aos campos e a recuperação do peso que Trás-os-Montes já teve nesta produção a nível nacional. Na altura, os produtores apontavam a necessidade de reforçar os apoios no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC), considerando que a recuperação da cultura dos cereais dependeria de condições capazes de tornar a atividade novamente economicamente viável.
Entretanto, na Escola Superior Agrária de Bragança (ESA), segundo o projeto que foi apresentado no passado, a resposta passa também pela valorização da produção local e das variedades tradicionais. Em dezembro de 2025, foi apresentado em Varge o projeto CERTRA, dedicado à recuperação e valorização de cereais tradicionais destinados à alimentação.
A iniciativa, coordenada pelo investigador Luís Dias, junta investigadores, produtores, moageiros e comerciantes e pretende transformar variedades que perderam expressão agrícola em produtos com maior valor acrescentado e potencial comercial.
Entre as culturas abrangidas estão o trigo barbela e a espelta, além de variedades tradicionais de milho, como o verdeal e o pigarro, e o centeio. Uma das vertentes do projeto passa pela certificação destes cereais e pela organização de lotes homogéneos de sementes, criando melhores condições para a sua utilização pelos produtores.
O objetivo passa por recuperar culturas que foram abandonadas ou cuja área de cultivo diminuiu drasticamente, mas também por criar novas oportunidades económicas associadas a produtos diferenciados e ligados ao território.
PUBLICIDADE


