Patrícia Geraldes leva a Linguagem do Tempo e da Terra ao Museu do Abade de Baçal
Natural de Picote, a artista inaugurou, sábado, a exposição “Linguagem do Tempo e da Terra”, uma viagem pelas matérias, pelas memórias e pelos saberes de Trás-os-Montes. A lã, o linho, o barro e os materiais que a sociedade descarta ganham uma nova vida numa obra que convida a olhar para a natureza com tempo, respeito e sensibilidade.
Há materiais que quase ninguém vê. A lã que sobra depois da tosquia, o linho antes de se transformar em fio, as borras de café, as plantas que já cumpriram a sua função. Para Patrícia Geraldes nada disto é apenas resto. Há beleza no que se abandona, há histórias na matéria e há um tempo próprio em tudo aquilo que nasce da terra. É nesse território de descoberta, entre a natureza, a memória e a transformação, que se constrói “Linguagem do Tempo e da Terra”, a exposição que a artista inaugurou no Museu do Abade de Baçal, em Bragança.
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Natural de Picote, no concelho de Miranda do Douro, Patrícia Geraldes regressa simbolicamente às suas raízes através de uma exposição que tem muito de Trás-os-Montes, não apenas pelos materiais que utiliza, mas também pela relação com as pessoas, com os ofícios tradicionais e com uma paisagem que continua a alimentar a sua pesquisa artística. A exposição pode ser vista até 24 de janeiro de 2027.
“Interessa-me trabalhar com recursos e materiais que têm sido descartados ao longo do tempo”, explicou a artista, que procura dar uma nova existência àquilo que tantas vezes é considerado “sem utilidade”. O seu trabalho parte da “experimentação”, mas também de uma escolha consciente, “criar sem esgotar os recursos do planeta”, encontrando possibilidades onde outros veem o fim de um ciclo.
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A beleza escondida naquilo que sobra
A relação de Patrícia Geraldes com a arte “começou na infância”, através da “curiosidade pelos pigmentos naturais, pelo barro, pelas pedras e pela madeira”. Desde cedo, interessou-se pelas possibilidades de cada material, pela forma como podia ser explorado e transformado. Mais tarde, a formação em Belas-Artes, no Porto, abriu-lhe novos caminhos, que se alargaram com experiências internacionais na Tunísia e na Índia. Essas viagens trouxeram-lhe “outras formas de olhar para o mundo, para as comunidades e para os recursos disponíveis”. Na Índia, desenvolveu “projetos artísticos colaborativos, oficinas e intervenções de arte pública”, aprofundando uma prática que não se limita ao atelier e que procura envolver as pessoas no próprio processo criativo.
Hoje, essa experiência cruza-se com o regresso frequente a Picote, onde encontra matérias-primas e conhecimentos que alimentam a sua obra. Um dos encontros mais marcantes aconteceu quando visitou um pastor e se deparou com uma enorme quantidade de lã após a tosquia. “A imagem ficou-me na memória. Aquilo que, para muitos, representava um problema de escoamento e um material difícil de valorizar revelou-se uma possibilidade artística. Foi uma imagem encantadora. Vi logo o potencial que aquilo tinha para o meu trabalho”, recordou, dizendo que não pretende transformar a matéria até apagar a sua identidade. Pelo contrário, interessa-lhe aquilo que ela transporta desde a origem, a textura, a forma, a memória do lugar e a relação com quem a produziu.
O mesmo acontece com o linho, trabalhado antes de chegar à forma de fio. “A matéria permanece próxima do seu estado natural” e é a partir dessa condição que surgem as esculturas.
Dar tempo à natureza
Na exposição, a sustentabilidade não surge como um conceito abstrato ou uma palavra de ordem. Está presente nas escolhas concretas da artista, na origem dos materiais e na recusa de uma produção que consuma continuamente novos recursos.
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As borras de café e as plantas utilizadas em infusões, por exemplo, “poderiam seguir para o lixo ou para a compostagem”, mas Patrícia Geraldes escolhe outro caminho. Transforma-as em arte, prolongando a sua existência e questionando a fronteira entre aquilo que tem valor e aquilo que é descartado. “Não estou interessada em produzir peças que esgotem os recursos que o nosso planeta nos dá”, afirmou, destacando que lhe interessa “produzir peças com recursos que têm sido descartados ao longo do tempo.”
É uma posição artística que também contém uma dimensão ecológica, social e política. Ao recuperar materiais desvalorizados, a artista chama a atenção para os modos de produção e consumo contemporâneos e para a necessidade de respeitar os ritmos naturais.
E há, neste trabalho, uma ideia essencial, “a natureza não deve ser obrigada a acompanhar a velocidade humana”. “A lã cresce ao seu ritmo, o linho tem o seu tempo e cada matéria possui um percurso que merece ser compreendido antes de ser transformado”, disse ainda.
Essa relação com o tempo está no centro da exposição. Não se trata apenas de mostrar objetos feitos a partir de materiais naturais, mas de tornar visível aquilo que habitualmente permanece escondido, os processos, os ciclos, as mãos e os conhecimentos que ligam a matéria à vida.
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Arte feita de pessoas
A matéria não é a única protagonista do trabalho de Patrícia Geraldes. As pessoas e os seus conhecimentos ocupam igualmente um lugar importante no processo criativo. A artista procura envolver quem encontra, reconhecer capacidades e recuperar gestos que fazem parte da experiência quotidiana das comunidades. “Eu envolvo muito as pessoas no meu processo de trabalho”, explicou, acrescentando que gosta de partir dos talentos e dos saberes de quem a rodeia para desenvolver os seus projetos.
Essa dimensão colaborativa aproxima a arte dos ofícios tradicionais e das experiências de vida. Um pastor, alguém que conhece o trabalho do linho ou uma pessoa que domina determinada técnica “podem tornar-se participantes” de um processo que ultrapassa a criação individual. É também por isso que Picote e a região ocupam um “lugar tão relevante” nesta exposição. Mais do que uma referência geográfica, são espaços de contacto, aprendizagem e descoberta.
Continuar a descobrir o que não é evidente
Aos 46 anos, Patrícia Geraldes não apresenta o seu percurso como algo concluído. Pelo contrário, fala do futuro como uma continuação da pesquisa, da curiosidade e da vontade de descobrir possibilidades onde nem sempre é evidente que existam. “Vou continuar este caminho de descobrir coisas, olhar para o mundo sem ver aquilo que é o mais evidente”, terminou.
Até 24 de janeiro de 2027, quem visitar a exposição poderá descobrir uma linguagem feita de matéria, paciência e sensibilidade. Uma linguagem que não procura impor-se à terra, mas aprender com ela, e que lembra, em cada peça, que aquilo que julgamos ser o fim pode ser apenas o princípio de outra história.
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Trás-os-Montes como lugar de encontro
A inauguração no Museu do Abade de Baçal tem um significado particular. Apesar de desenvolver uma carreira com dimensão internacional, Patrícia Geraldes apresenta pela primeira vez o seu trabalho em Trás-os-Montes. O diretor do museu, Jorge da Costa, que destacou que “o facto de a artista ter raízes em Picote foi fundamental para a obra que construiu”, sublinhou que a exposição permite dar a conhecer uma alguém cuja carreira ultrapassa as fronteiras nacionais, mas cujo trabalho mantém uma relação próxima com o território transmontano.
Jorge da Costa acompanha o trabalho de Patrícia Geraldes “há vários anos” e considerou que este era o “momento certo” para a apresentar ao público da região. “Os museus também estão cá para isso”, afirmou, referindo-se à missão de dar visibilidade a artistas e talentos que nem sempre chegam ao conhecimento das comunidades locais.
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