Créditos: TerRa

“Não há jovem nenhum, no seu perfeito juízo, vendo aquilo que se passa hoje, que queira investir na agricultura.”

Mais de 50 organizações agrícolas de Trás-os-Montes e Alto Douro exigem ao Governo medidas urgentes para apoiar os agricultores, face ao aumento dos custos de produção, nomeadamente dos combustíveis, fertilizantes, matérias-primas e equipamentos. Em solidariedade com a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), reivindicam um pacote adicional de 140 milhões de euros em apoios, considerando-o essencial para recuperar a competitividade do setor e reduzir as dificuldades enfrentadas pelos produtores. Jorge Laranjinha, dirigente da ACOB - Associação de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Bragançana, um dos membros do manifesto, diz que é tempo de deixar de “brincar” à agricultura.

13 out. 2026, 07:30

Quais são as medidas mais urgentes que o governo deve implementar?

Para já, atacar na questão mais premente, que é o aumento constante dos combustíveis. O aumento está a obrigar à subida dos preços, como sendo matérias-primas, fertilizantes, as próprias ferragens relacionadas com os equipamentos e com as máquinas agrícolas.

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Para produzir a mesma quantidade num hectare, por exemplo, está a gastar-se o dobro. O que é que isso implica? Que os produtos tenham de ser vendidos mais caros, mas o produtor não consegue vender mais caro, continua a vender ao mesmo preço, está a perder dinheiro.

É preciso atacar já nessa base e, depois, tudo o resto que está associado, preços dos fertilizantes e dos adubos, tratamentos dos animais, tudo isso também tem aumentado constantemente e não pode continuar. Desta forma, forma os agricultores e os produtores pecuários e florestais vão desistir da atividade. Eles não podem andar a perder dinheiro todos os dias porque têm uma família para sustentar, têm as empresas para sustentar, para manter, e se não tiverem um lucro, por mínimo que seja, vão ter de desistir.

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Defende-se um pacote de apoio de 140 milhões de euros. Como é que este apoio deve ser distribuído? Que agricultores e que regiões devem ser prioridade?

Devemos defender, sempre, a agricultura a nível nacional, mas a nossa zona sempre foi, e continua a ser, discriminada. Vivemos numa zona de montanha, em que as produções por hectare, relativamente à zona sul, por exemplo, são muito inferiores, mas temos os mesmos custos. Custa-nos mais produzir a nós um hectare de cereal do que custa no Alentejo. Mesmo assim, o panorama, as dificuldades são gerais.

Portanto, é preciso barrar os aumentos dos combustíveis, é preciso baixar os custos de produção e é necessário apoiar os agricultores diretamente, ou seja, através de projetos de investimento. Fala-se tanto da pastorícia... quando os políticos vêm para praça pública, sobretudo o Ministro da Agricultura, dá a ideia de que há um uma quantidade enorme de apoios que estão a ser atribuídos, mas isso não é verdade.

Quando se quer que a agricultura e a pastorícia, sobretudo na nossa zona, se mantenham, então tem de haver apoios diretos, apoios de acordo com as necessidades das explorações, porque, se assim não for, as pessoas vão desistir.

A idade dos nossos produtores já é avançada e os jovens não veem incentivos suficientes para avançar na atividade. Alguma coisa tem de ser feita e têm de atacar o problema de base. Têm de consultar as associações, têm de consultar as confederações. E têm de olhar para a agricultura com olhos de ver.

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Os agricultores e os criadores estão a ficar com uma idade avançada e os mais novos não se interessam. Com o cenário que temos, não é, por isso, para ficarmos admirados com a falta de renovação geracional?

Não. Qual é o jovem que vai iniciar uma atividade agrícola, pecuária ou florestal, se vê que aqueles que já cá estão perdem dinheiro e não conseguem fazer vida disso?

O Ministério da Agricultura tem de intervir, mudar radicalmente a política. A agricultura, a pecuária e a floresta, o setor primário, não pode continuar a ser visto como parente pobre da economia, quando, na verdade, é base da economia nacional de qualquer país.

Não há jovem nenhum, no seu perfeito juízo, vendo aquilo que se passa hoje, que queira investir na agricultura.

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Trás-os-Montes tem características muito próprias, explorações de pequena dimensão, terrenos de montanha e agricultura de sequeiro. Porque é que os apoios atuais não têm em conta essas especificidades?

O nosso país é pequeno, mas tem uma imensidão de territórios diferentes. O nosso é diferente de qualquer outro e eles não conseguem perceber que têm de adaptar as políticas, os investimentos e os apoios à realidade de cada região. Não conseguem fazê-lo porque não perguntam nada a quem está no território, que somos nós, as associações, as organizações produtoras. Portanto, tomam medidas gerais e depois o dinheiro não chega onde tem de chegar, como aconteceu com a instalação de novos pastores, sendo que aqui para a nossa zona eu não me lembro que ninguém se tenha instalado. O dinheiro chegou, esgotou em 8 minutos. Ou seja, as medidas têm de ser criadas de acordo com as especificidades de cada região, de cada atividade. Se assim não for, andamos a brincar à agricultura e já não é tempo de o fazer. É tempo de arregaçar as mangas.

Enquanto dirigente da ACOB, como é que esta situação está a afetar os criadores de ovinos da região? Sente-se que só não largam a atividade porque lhes custa desfazerem-se dos animais?

Sim. Continuam pela parte afetiva e pela parte familiar, porque muitos já herdaram isto dos pais. E muitos ainda conseguiram seguir os passos dos pais, mas os filhos e os netos já não vão seguir, salvo raras exceções.

Além disso, continuam porque têm muitos deles já não têm idade para fazer outra coisa, mas a verdade é que perdem dinheiro todos os dias. E isso é que não pode ser, porque eles têm necessidades como tem qualquer pessoa. Portanto, todos os dias têm aumentos, mas eles vendem ao mesmo preço. Não é sustentável.

E a média de idades dos nossos criadores está a aumentar. Se não tivermos uma avalanche de gente nova para repor as saídas, vamos, dentro de pouco tempo, deixar de ter criadores. Se não temos criadores, não temos animais, se não temos animais, não há carne. Isto é tudo uma bola de neve.

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Quantos associados perdeu a associação nos últimos tempos?

No nosso caso, ainda não se verificou um decréscimo dos animais nem dos criadores. O que se está a verificar é um aumento da média de idades.

O panorama, na nossa associação, ainda não é muito grave, mas vai sê-lo dentro de poucos anos, porque noutras associações já está a acontecer isso.

Considera que algumas raças autóctones poderão, a curto/médio prazo, desaparecer?

Sim. O número de animais está a decrescer anualmente, o número de produtores também. Portanto, vai-se chegar a uma altura em que algumas desaparecem mesmo.

Que pode acontecer após este protesto de mais de 150 dirigentes associativos agroflorestais de todo o país, junto ao Parlamento, para exigir ao Governo medidas urgentes?

O que seria bom era que o Governo ouvisse, acatasse e aplicasse as nossas reivindicações e os nossos pedidos, mas, honestamente, e falo por mim, não tenho grandes expectativas relativamente a isso. E, da nossa parte, já o comunicámos à CAP, estamos disponíveis para endurecer o discurso e, se for necessário, participar, na rua, em manifestações.

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