Município de Vinhais aposta na preservação e reconhecimento da castanha e castanheiro Longal

Os ouriços “estão bonitos”, mas a campanha está cerca de duas semanas atrasada. Entre a vespa, as alterações climáticas e a necessidade de água, Vinhais quer ao mesmo tempo proteger os soutos e descobrir qual é, afinal, a verdadeira Castanha Longal. É neste contexto que acontece a XXI Rural Castanea, entre 23 e 25 de outubro.

06 out. 2026, 08:00

A castanha ainda não deu todas as respostas. Em Vinhais, onde a campanha já deveria estar mais avançada, os produtores continuam à espera das variedades tardias e de uma evolução meteorológica que permita perceber o que será, afinal, este ano agrícola. “Os ouriços estão bonitos e não se notam, para já, problemas sanitários”, explicou, na sexta-feira da semana passada, na apresentação da XXI edição da Rural Castanea, Abel Pereira, presidente da Arborea – Associação Agro-Florestal e Ambiental da Terra Fria Transmontana. “Se a produção vai ser boa ou má, temos que aguardar”, sublinhou ainda, adiantando que, num ano precoce, no começo de outubro já se estariam a iniciar as variedades tardias e, no arranque do mês, ainda só se tinha começado a Aveleira. “Estamos com duas semanas de atraso”, esclareceu.

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É com esta incerteza que Vinhais se prepara para receber, de 23 a 25 de outubro, a XXI Rural Castanea – Festa da Castanha Longal.

Previsões também as evita fazer o presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Luís Fernandes. “É sempre um risco”, admitiu, esperando que a campanha “corra, realmente, bem” e porque “um bom ano de castanha é um bom ano para a economia do concelho e para as suas gentes”.

A dimensão económica ajuda a explicar a importância da campanha. Segundo os números apresentados pelo autarca, Vinhais tem atualmente 10 mil hectares de castanheiro, contra os cerca de sete mil hectares de há três ou quatro anos. Num ano de boa produção, “a castanha pode representar entre 15 e 20 milhões de euros para a economia do concelho”.

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A fileira continua, portanto, a crescer, apesar das dificuldades. “Continua a aumentar apesar das alterações climáticas que provocam também cada vez mais dificuldades”, afirmou o presidente.

Vespa recuou, mas voltou a ganhar terreno

Se a produção ainda é uma incógnita, há ameaças que os produtores conhecem bem. A vespa-das-galhas-do-castanheiro continua presente em determinadas zonas do concelho, embora Abel Pereira destaque outro problema como a maior preocupação atual dos produtores: o fungo associado à podridão da castanha. “Uma castanha que chega podre ao mercado não tem qualquer utilidade”, destacou.

A vespa, contudo, não desapareceu. E o seu controlo obriga a um equilíbrio permanente entre a praga e o organismo utilizado no combate biológico.

Segundo Abel Pereira, há zonas do concelho onde a pressão é maior, nomeadamente na Lomba e em Tuizelo. Ainda assim, o responsável da Arborea considera que as condições vegetativas ajudaram as árvores a responder. “Como o ano foi bom em termos vegetativos e em termos de humidade, o castanheiro respondeu”, explicou.

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Água, a batalha que chega com as alterações climáticas

A preocupação com o clima vai muito além das pragas. Luís Fernandes defende que a adaptação dos soutos às novas condições climáticas passa necessariamente pela água.

Conforme disse, o município tem defendido a criação de apoios para pequenas estruturas de armazenamento, como charcas e outros pontos de retenção de água, acessíveis a municípios e juntas de freguesia. “Não estamos sequer a falar de milhões”, sustentou o autarca, afirmando que com “pequenos investimentos”, a que o município e as juntas de freguesia, se pudessem candidatar, “era possível fazer esse armazenamento de água”.

Autarca de Vinhais admite que é preciso criar charcas e outros pontos de retenção de água

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Descobrir a verdadeira Longal

No centro da estratégia de valorização está a Castanha Longal, variedade que o município quer afirmar como elemento distintivo da identidade de Vinhais. Ainda assim, é necessário, antes de mais, perceber, cientificamente, qual é, efetivamente, a Longal tradicional do concelho. É esse o objetivo de um trabalho desenvolvido pela Arborea em parceria com o município. O processo começou com a recolha de material vegetativo de castanheiros de diferentes freguesias onde existia Castanha Longal. “Retirámos parte vegetativa da castanha e foram feitas enxertias em viveiro e disso temos 70 plantas enxertadas”, explicou Abel Pereira.

O procedimento permite colocar diferentes materiais vegetais num mesmo porta-enxerto e acompanhar o seu comportamento em condições comparáveis. Depois virá a análise molecular. “O terceiro passo, mais complexo, em termos de biologia molecular, é tentar tirar o genótipo e ver qual é a verdadeira castanha Longal de Vinhais”, explicou ainda.

E a intenção não é apenas identificar. É multiplicar. “Tendo em nossa posse a castanha Longal e as características que ela tem, vamos tentar multiplicar a castanha e ter uma castanha típica de Vinhais”, acrescentou ainda Abel Pereira.

É também por isso que o município prepara um viveiro. Segundo Luís Fernandes, o objetivo passa pelo “apuramento da castanha Longal, qual é aquela que é mais identificativa do concelho e aquela que é melhor também para as pessoas depois utilizarem e plantarem”.

No futuro, esse viveiro poderá permitir fornecer castanheiros para novas plantações. A localização ainda não está fechada, mas o Parque Biológico de Vinhais, segundo Luís Fernandes, é uma das hipóteses em estudo.

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Preservar as árvores centenárias

A valorização da Longal não se esgota no fruto. Há também uma corrida contra o tempo para preservar os castanheiros antigos que fazem parte da paisagem e da identidade do território.

Conforme Abel Pereira, em Vinhais há num universo de centenas de hectares de soutos antigos na área do parque e estima que, considerando a dimensão do território e as perdas, possam existir perto de 10 mil castanheiros centenários no concelho de Vinhais. É neste património que assenta outra das iniciativas em preparação, uma candidatura relacionada com os castanheiros centenários a património imaterial, abrangendo uma área mais alargada do território, incluindo Vinhais e Bragança. “Estamos a falar primeiro do fruto e depois vamos falar da árvore”, esclareceu Abel Pereira.

E Luís Fernandes confirmou que o município pretende avançar com uma candidatura para valorizar este património. O processo “ainda não foi formalmente submetido”. A intenção é apresentá-lo, através de uma candidatura em regime de cogestão, envolvendo várias entidades.

A expectativa é que o reconhecimento permita “uma valorização maior, uma projeção maior, um conhecimento maior” e leve o nome da castanha e dos castanheiros de Vinhais “mais longe”. A ideia é apresentar a candidatura “até ao fim do ano” ou “no inicio de 2027”.

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Centro Interpretativo começa a ganhar forma

A estratégia de valorização terá também uma casa própria. O futuro Centro Interpretativo da Castanha Longal deverá começar a ganhar forma durante a Rural Castanea. Luís Fernandes anunciou que o município pretende apresentar já durante a feira uma primeira intervenção no espaço exterior e, provavelmente, uma maquete do projeto.

O centro ficará junto à área onde estão instaladas estruturas e entidades ligadas à fileira da castanha, incluindo a Arborea.

Castanha fresca?

Na última Assembleia Municipal de Vinhais foi aprovada uma moção para alterar o estatuto da castanha. A ideia é que o fruto seco passe a fresco.

Abel Pereira lembrou que a castanha é hoje, em grande medida, um produto destinado à exportação e que as temperaturas mais elevadas tornam cada vez mais difícil garantir a conservação durante o período necessário. “Se nós temos um problema, temos que ter uma solução para isso”, afirmou. E, para o responsável da Arborea, uma das respostas passa necessariamente por estruturas de frio.

A discussão sobre uma eventual alteração do estatuto da castanha para a enquadrar como fruto fresco é, contudo, mais complexa. Abel Pereira considera que a valorização do produto é essencial, mas entende que alterar o estatuto pode não ser a via mais simples. “Alterar um estatuto implica sempre uma carga burocrática enorme”, afirmou. “Pode ser um caminho, mas de certeza que não é o mais fácil”, vincou ainda.

Para o responsável, uma resposta mais direta poderá passar por “criar ajudas que incentivem a conservação da castanha”.

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Refira-se que, em setembro, em Carrazedo de Montenegro, o secretário de Estado da Agricultura, durante o XVI Encontro Europeu da Castanha, disse que o Governo rejeita alterar a classificação da castanha de fruto de casca rija para fruto fresco. O governante acredita que a mudança poderia comprometer os apoios agrícolas.

Feira sai dos pavilhões

Quanto à feira que celebra a castanha, a XXI edição vai levar os visitantes para fora do recinto, com a inauguração do Trilho da Castanha Longal, uma rota pedestre com cerca de 17 quilómetros. Segundo Miguel Fernandes, diretor do Parque Biológico de Vinhais, o percurso parte do futuro Centro Interpretativo da Castanha Longal, passa por Sobreiró, Zido, Lagarelhos e Rio de Fornos, regressando a Vinhais. O objetivo é “dar a conhecer os soutos de Castanha Longal”.

Está também previsto um passeio de BTT pelos caminhos associados à castanha, recuperando uma iniciativa que já não se realizava há alguns anos.

Durante três dias, a castanha divide o protagonismo com mel, vinho, cogumelos, artesanato, gastronomia e outros produtos associados às colheitas de outono. O programa inclui as Jornadas Técnicas do Castanheiro, as novas Jornadas do Olival, iniciativas ligadas à apicultura, atividades no território e demonstrações gastronómicas. Há ainda o tradicional Maior Assador de Castanhas do Mundo, certificado pelo Guinness World Records desde 2007 e com capacidade para assar até uma tonelada de castanhas de uma só vez. Durante a feira, o assador volta a alimentar o magusto permanente que faz parte da identidade do certame.

O programa junta ainda música e animação, com destaque para o concerto dos Resistência.

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