Mais procura do que oferta

Bragança continua a atrair quem procura qualidade de vida, mas o mercado imobiliário enfrenta um problema cada vez mais evidente, há mais pessoas à procura de casa do que imóveis disponíveis. Jovens, famílias, estudantes e investidores disputam uma oferta limitada, num cenário em que comprar e arrendar ficou significativamente mais caro

27 ago. 2026, 07:40

Em Bragança “há mais procura do que oferta” no que toca à habitação. A frase é de Alexandra Santos, de uma imobiliária de Bragança, e resume em poucas palavras o momento que atravessa o mercado habitacional da cidade e aquilo que está à vista de todos.

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Assim, com mais compradores do que casas disponíveis, a consequência é previsível, os preços sobem. E têm subido bastante nos últimos anos. Contudo, as imobiliárias só não vendem mais casas porque “não as há”.

O diagnóstico local encaixa numa realidade nacional mais ampla. Portugal acumulou, entre 2021 e 2025, um défice de oferta de habitação equivalente a cerca de 300 mil casas, segundo uma análise do Financial Times baseada num estudo do Banco de Espanha. O valor corresponde a 6,6% dos agregados familiares existentes no país em 2025. Na zona euro, o défice calculado através da mesma metodologia foi de apenas 0,5%.

O número não significa literalmente que existam 300 mil casas que deveriam estar construídas e não estão. Mede antes o desfasamento entre a formação de novos agregados familiares e a resposta da construção, tendo em conta o tempo necessário para que os projetos licenciados cheguem efetivamente ao mercado. É precisamente esta diferença entre uma procura que cresce e uma oferta que demora a responder que ajuda a explicar a pressão sobre a habitação.

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Bragança mantém capacidade para atrair quem procura casa por causa da qualidade de vida

Bragança continua a atrair novos moradores

Apesar das dificuldades, segundo Alexandra Santos, Bragança mantém capacidade para atrair quem procura casa. A principal razão é a “qualidade de vida”. Ou seja, Bragança é uma cidade “mais pequena”, mas oferece praticamente o mesmo que as outras. Além disso, a facilidade de deslocação e a existência de ensino superior tornam Bragança uma alternativa para quem procura um ritmo de vida diferente sem abdicar de determinadas valências. “Acho que já temos muita coisa boa em Bragança que pode atrair as pessoas”, rematou, destacando que a procura não está concentrada num único ponto da cidade. “O centro tem registado uma dinâmica significativa, com imóveis antigos a serem recuperados e compradores interessados em viver dentro da cidade, mas também há procura nas zonas periféricas e nas aldeias próximas”, esclareceu ainda a profissional do setor.

Refira-se que, “na periferia da cidade os preços são mais acessíveis” e, por isso, neste momento, há “muita gente” a querer aí apostar. “Casas pequeninas nas aldeias para recuperar, neste momento também há bastante procura”, destacou ainda.

 

Jovens estão cada vez mais presentes entre os compradores

Uma das mudanças mais visíveis no mercado é o peso crescente dos jovens que procuram comprar a primeira habitação.

Alexandra Santos tem acompanhado “muitos” processos, nos últimos meses, por parte de gente mais nova, que é “impulsionada” pelas medidas públicas de apoio à compra.

O aumento da procura por parte deste grupo não significa, segundo Alexandra Santos, que todos consigam comprar aquilo que procuram. Assim, fundamental, antes de qualquer outra coisa, é preciso saber quanto se pode gastar., conforme esclareceu ainda a profissional do setor. “Tendo ideia daquilo que se pode comprar, só já se vai procurar efetivamente aquilo, o produto onde está enquadrado”, referiu.

Comprar? Esperar?

Comprar agora ou esperar é uma das perguntas mais difíceis para quem está a pensar comprar. Ainda assim, conforme vincou Alexandra Santos, este mercado “oscila muito”, portanto não se sabe se os preços vão descer e, se isso acontecer, quando se verificará.

Contudo, a tendência, segundo o que se vai perspetivando, é que, pelo menos nos próximos tempos, continuem a subir. Os dados nacionais mostram a dimensão da pressão, sendo que no primeiro trimestre de 2026, os preços da habitação em Portugal cresceram 17,8% em termos homólogos, segundo o Eurostat.

Em Bragança, a leitura feita no terreno é semelhante. Enquanto houver mais pessoas à procura do que casas disponíveis, a pressão sobre os preços permanece.

 

Arrendar também ficou muito mais caro

Se comprar se tornou difícil, arrendar também deixou de ser uma alternativa barata, sendo que em Bragança, há já alguns anos, se verifica uma subida muito expressiva das rendas.

A diferença é particularmente evidente quando se comparam os valores atuais com os que eram praticados “há quatro ou cinco anos”, em que um t3 custaria cerca de 350 euros. Hoje “está nos 900”.

Face ao cenário, Alexandra Santos admite que o melhor conselho que pode deixar é “comprar”.  Contudo, só será uma boa opção se o agregado tiver rendimentos estáveis e capacidade para suportar todos os custos associados à habitação.

 

Alojamento estudantil: uma procura que não abranda

Bragança tem ainda um segundo problema habitacional, o alojamento para estudantes. A presença da Universidade Politécnica de Bragança gera uma procura significativa por quartos e apartamentos. “Recebemos chamadas todos os dias de pessoas à procura de quartos”, destacou Alexandra Santos que, mais uma vez, apontou a oferta como o grande problema.  “Eu sei de pais que colocam filhos em hotéis enquanto não encontram nada”, rematou.

Refira-se que, segundo Alexandra Santos, em 2021 um quarto podia custar cerca de 120 a 130 euros, mas, “neste momento, praticamente nenhum está abaixo de 180 a 200 euros.”

 

Investir para arrendar já não é uma conta tão simples

Também os investidores estão a sentir a pressão dos preços. Há procura por imóveis destinados ao arrendamento, mas o custo de aquisição subiu de forma significativa. “Não é fácil o investidor, neste momento, conseguir um imóvel que lhe vá dar uma boa rentabilidade”, assinalou Alexandra Santos, esclarecendo que “há 4 ou 5 anos” este tipo de imóveis custava 120/130 mil euros, com uma “rentabilidade de 600, 700, 800 euros”. Hoje em dia, “tem de investir muito mais... e o retorno... a rentabilidade pode continuar a existir, mas a margem tornou-se mais apertada”.