Língua Mirandesa celebra 28 anos com primeiro manual escolar e tradução da Constituição

celebrações do Dia da Língua Mirandesa ficaram marcadas pelo lançamento do manual e a tradução da Constituição da República Portuguesa

18 set. 2026, 09:36

As celebrações do Dia da Língua Mirandesa ficaram marcadas, ontem, com o lançamento do primeiro manual deste idioma e a tradução da Constituição da República Portuguesa.

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O manual destina-se aos alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico e foi criado por professores de língua mirandesa e especialistas da Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa (EMPLM) e da Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa (ALCM).

Alfredo Cameirão, presidente da associação, destaca a importância da criação deste manual.

"O manual é uma ferramenta essencial. Todas as disciplinas que são ministradas nas escolas portuguesas, ou a esmagadora maioria delas, têm manual. O Mirandês é lecionado há 40 anos, nunca teve um manual, aquilo que do ponto de vista clássico entendemos como um manual. Portanto, até agora todos os materiais didáticos, todas as ferramentas educativas são construídas pelos próprios professores e, portanto, este primeiro manual para o primeiro ano do primeiro ciclo, é o primeiro daquilo que queremos que seja uma coleção de um manual didático, como têm as outras disciplinas, nomeadamente as outras línguas."

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O secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, marcou presença nas celebrações e disse que acredita na possibilidade deste manual chegar a outras escolas do país. "Vai ser possível também que possa ser ensinado noutras escolas. O plano certamente apontará algumas pistas para esse objetivo, sendo certo que não é uma coisa que se possa impor. Tem que haver aqui alguma vontade de outras escolas em conhecer e ensinar também esta língua", disse.

Duarte Martins, que criou o manual, explicou que este ainda não está 100% concluído. "Queremos introduzir áudio no manual porque há alunos que não têm contacto diretamente com o mirandês em casa, ou seja, o contacto que têm é através do manual e das palavras, mas era importante eles ouvirem também. E eu queria introduzir em algumas narrativas, em alguma poesia, vídeo… e essa parte ainda não está concluída. Espero que neste ano civil que já esteja cá fora."

Através deste livro, o alunos vão aprender o básico desde as letras, o A e O, as vogais, as consoantes, as sílabas, a divisão silábica e palavras novas. "O livro começa do simples até ao mais complexo, até às histórias, até ao dia-a-dia deles. O livro pretende também ser um misto entre aquilo que é tradicional, que era a linguagem dos avós e dos pais, mas aquilo também que é a linguagem deles atualmente. Portanto, esta fusão do que é mais antigo e do que é atual", explicou o professor, destacando que um dos motivos pelo qual foi criado o manual de Mirandês é porque o próprio não estudou o idioma na escola. "Eu aprendi mirandês em casa com os meus pais. E se não fosse esta primeira escola feita em casa, que ainda algumas pessoas falam, possivelmente não falaria mirandês, porque atualmente a disciplina de mirandês são 45 minutos semanais, o que é muito pouco para a aprendizagem de alguma língua. Convém que haja algum reforço em casa, no meio familiar, para que a aprendizagem seja muito mais consolidada", rematou.

No Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro, os mais novos provam que sabem falar a língua e que sentem orgulho no idioma. Martim Alves, de 11 anos, contou que aprendeu mirandês com a família e gosta "porque é uma língua diferente. E é só desta região, é especial." Para Gonçalo Quitério "é um orgulho" porque é uma língua da terra. Maria Clara, de 12 anos, disse que a língua não é difícil de aprender, "mas são poucas aulas, porque é só uma por semana", partilhou. Já Lourenço Igreja garantiu que "no início custa um pouco, mas depois que se habituam é fácil", porque "é uma diferença muito grande entre o mirandês e o português. O mirandês é mais parecido com o espanhol".

Um dos desafios do idioma passa pela formação de novos docentes. "Acho que vai ser muito importante porque para se poder ensinar é preciso dominar basicamente a matéria que se ensina e um ensino sistematizado profissional dos docentes que vão depois ensinar e que vão estabilizar a língua também, regulá-la o melhor que puderem e depois ensiná-la é muito importante. E portanto é mais um avanço que estamos a dar neste que é o primeiro ano da celebração do Dia da Língua Mirandesa e da Cultura Mirandesa, neste caso da língua em particular, depois de ter sido criada a estrutura de missão. Ou seja, estamos a ver passos concretos do trabalho que a estrutura está a apresentar", afirmou o secretário de Estado da Cultura.

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Desse modo, foi também apresentado o Centro de Formação de Professores José Leite de Vasconcelos e será lançada a pós-graduação para professores de mirandês, ministrada pela Universidade Politécnica de Bragança, em parceria com a Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa.

No mesmo dia, a EMPLM apresentou um plano estratégico. "Trata-se de um documento estratégico que tenta sinalizar os caminhos a seguir para promover e preservar a língua mirandesa. Em traços gerais pode-se dizer que o plano estratégico tenta enquadrar a língua mirandesa em todos os setores da vida socioeconómica do território e da da projeção nacional e internacional que a língua pode ter", apontou Alfredo Cameirão.

A autarca Helena Barril salienta o envolvimento dos mais pequenos, durante o dia de aniversário da Língua Mirandesa. "Hoje estarmos aqui associados a esta comemoração no agrupamento de escolas também é muito simbólico porque demonstra o quão a comunidade escolar está envolvida e a partir da comunidade escolar há o envolvimento da comunidade em geral em torno deste património maior que é a língua mirandesa que nos diz tanto."

Neste ano letivo, o Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro tem 565 alunos que estudam mirandês, dos quais 165 estão no 1.º Ciclo e 33 no primeiro ano deste nível de ensino, matriculados na língua mirandesa, uma disciplina de opção.

Este ano, assinalam-se os 28 anos da lei que reconheceu os direitos linguísticos do mirandês.

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Jovens são a esperança do mirandês

Pelas aldeias de Miranda do Douro já não muitas as pessoas que falam a língua. Felisbela Fernandes aprendeu logo desde muito cedo. “Era a fala que aqui tínhamos, E ainda sei falar muito bem, não se desaprende”, contou.

A habitante de Vale de Águia, uma aldeia a cerca de seis quilómetros do centro da cidade, partilhou que foi com os pais com quem aprendeu a língua. “Naquela altura aqui era a língua que se usava era o mirandês. Agora já não. Agora nós ainda falamos uns para os outros, mas agora para a minha neta, filhas e assim, já não falamos mirandês.”

Acredita que os jovens têm orgulho no idioma, mas também não sabem falar.

Felisbela recordou ainda que, antigamente, em Miranda falava-se sempre português e nas aldeias o mirandês. “Quando ia a Miranda falava o português e não o mirandês, porque as pessoas achavam que éramos uns atrasados”.

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