IL prepara vigília pelo comboio roubado e quer que os transmontanos se façam ouvir em Lisboa

A Iniciativa Liberal tem a “Vigília ao Comboio Roubado” marcada para dia 14, em Bragança. Nuno Fernandes, coordenador distrital da IL, diz que a ideia é ultrapassar a dimensão partidária e mobilizar a região. A ligação ferroviária Porto–Bragança–Zamora é apresentada como um investimento estruturante para o distrito.

09 out. 2026, 08:00

A Iniciativa Liberal quer que a vigília marcada para 14 de outubro, em defesa do regresso do comboio a Trás-os-Montes, seja mais do que uma iniciativa partidária. Segundo Nuno Fernandes, coordenador distrital da IL, o objetivo é transformar o momento num “grito de revolta” da população transmontana. “Esta reivindicação é iniciada por nós, mas é uma reivindicação de todos”, esclareceu, apelando à participação de autarcas, instituições e população.

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A principal reivindicação da IL passa pela concretização de uma ligação ferroviária de alta velocidade entre Porto, Bragança e Zamora. Para Nuno Fernandes, não há razões para esperar mais, sendo que os estudos existentes apontam para uma procura elevada e para um potencial económico significativo. “Não há razão nenhuma para que esta linha não seja prioritária”, sustentou, considerando que a ligação poderá beneficiar não apenas Bragança, mas também outras localidades transmontanas e estabelecer uma ligação estratégica entre Portugal e Espanha.

Assim, o coordenador rejeita a ideia de que a ligação deva ficar para uma segunda fase. “Esta linha devia ser a espinha dorsal do país porque é o que dizem todos os estudos”, afirmou.

Conforme destacou ainda, uma ligação através do Porto permitiria ainda integrar fluxos provenientes de outras zonas do país e de Espanha, criando uma “procura mais diversificada” do que uma ligação direta entre Lisboa e Madrid.

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Comboio como símbolo do abandono

Para Nuno Fernandes, a retirada do serviço ferroviário “é o símbolo máximo do abandono do interior por parte do Estado central”, sendo que “as carruagens foram retiradas de Bragança, durante a noite, com a presença das autoridades”. O episódio, que “toda a gente devia conhecer”, continua a representar uma “ferida” na relação entre o território e o poder central.

A crítica estende-se a outras áreas. Para Nuno Fernandes, a exploração dos recursos da região sem correspondente retorno em investimento é também gritante no que toca ao esquecimento do Poder Central pelo Interior. As barragens e o que elas geram, para todo o país, conforme admitiu, são um grande exemplo. “Aqui produz-se a eletricidade para o resto do país, daqui sai a água para o resto do país, daqui saem minérios para o resto do país e nunca fica cá nada”, afirmou.

“Portugueses de segunda”

A crítica de Nuno Fernandes assume uma dimensão política quando questionado sobre as razões pelas quais Trás-os-Montes continua a não ser considerada uma prioridade. O coordenador considera que a região sofre de falta de peso político e acusa o poder central de não atribuir importância suficiente ao território. Assim, “está na altura de as pessoas se levantarem do sofá e começarem a dizer basta”. “Nós não podemos continuar a ser portugueses de segunda”, referiu ainda, afirmando que a discussão não deve ser reduzida apenas à população de Bragança. Ou seja, o impacto de uma nova ligação ferroviária teria de ser analisado à escala de todo o distrito. “Bragança não pode pensar em fazer com o resto do distrito aquilo que o Porto nos faz, aquilo que Lisboa nos faz. Nós temos de pensar no distrito como um todo”, defendeu ainda. 

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Menos população, maior urgência

A perda populacional é outro dos argumentos utilizados para justificar o investimento ferroviário. Reconhecendo que Bragança apresenta atualmente melhores condições de vida do que na altura em que o comboio daqui saiu, 1992, considerou que a questão deve ser analisada em termos relativos. “Não podemos dizer que agora vivemos pior ou que a cidade está pior, porque não é verdade. Está melhor. O problema está no gap que se criou face a outras cidades do interior, como Vila Real, Castelo Branco ou Covilhã”, descreveu, destacando que essas cidades conseguiram entretanto atrair mais empresas, população qualificada e serviços, enquanto o distrito de Bragança não acompanhou o mesmo ritmo. “O distrito precisa de desenvolvimento como pão para a boca”, afirmou.

Da reivindicação online para a rua

Nuno Fernandes considera, contudo, que a responsabilidade não pode ser atribuída apenas ao poder político. Também a população transmontana terá de assumir um papel mais ativo. “Nós temos todos a mania que somos muito valentes, mas a realidade é que eles vieram roubar os comboios e estiveram lá 30 pessoas”, afirmou, referindo-se ao momento em que o serviço ferroviário foi retirado.

Ainda assim, neste momento, admite que o sentimento de abandono possa ter contribuído para uma espécie de resignação da população. “As pessoas, por se sentirem abandonadas, se calhar também não estavam à espera de muito mais”, admitiu. É precisamente contra essa resignação que a IL pretende mobilizar a população na vigília de 14 de outubro. “É preciso firmar o pé no chão e dizer: não, nós temos tanto direito como os outros”, defendeu.

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