Quercus pede estudos antes de se puxar o gatilho contra o javali

No distrito de Bragança, onde os agricultores convivem, há muito tempo, com os prejuízos provocados pelos javalis e os criadores de gado têm enfrentado vários ataques de lobos, a gestão da fauna selvagem apresenta-se como um desafio particularmente complexo. Para a Quercus, pagar pelo abate de animais pode tratar o sintoma, mas não resolve as causas. Inês Pereira, Coordenadora de Projetos de Conservação da Natureza da associação, defende mais ciência, prevenção, compensações aos produtores e uma estratégia articulada entre Portugal e Espanha.

13 out. 2026, 07:00

A decisão do Governo de incentivar financeiramente o abate de javalis, através de pagamentos de 50 euros por macho e 70 euros por fêmea, é recebida com cautela pela Quercus. A associação não ignora os prejuízos provocados pela espécie, nem os problemas de segurança associados aos acidentes rodoviários, mas questiona se aumentar a pressão cinegética será suficiente para alterar a realidade no terreno.

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Saber exatamente onde está o problema e qual é a sua dimensão é, desde logo, uma questão que a Quercus considera essencial.

Três prioridades

Se pudesse definir as primeiras medidas a implementar pelo Governo, Inês Pereira, Coordenadora de Projetos de Conservação da Natureza da associação da Quercus, começaria pela informação científica. “Era necessário um estudo mais sistemático”, destacou.

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A primeira prioridade seria, assim, “identificar as áreas mais afetadas pelos prejuízos agrícolas”, perceber quais as culturas “mais procuradas” pelos javalis e “determinar onde a densidade populacional representa efetivamente um problema”. A segunda medida passaria pelo apoio aos agricultores, nomeadamente através de medidas de prevenção. E a terceira teria uma dimensão de segurança rodoviária. Estudar a relação entre as montarias e o aumento da movimentação dos animais, podendo equacionar restrições à caça em áreas próximas de grandes vias rodoviárias.

A proposta traduz a ideia de que “não basta saber quantos javalis são abatidos”, é necessário saber se, depois disso, há menos prejuízos, menos acidentes e menor pressão sobre as populações.

Saber onde estão os problemas

Para Inês Pereira, não existem ainda dados suficientemente sistematizados que permitam perceber, com rigor, onde os prejuízos agrícolas provocados pelos javalis são maiores e quais as culturas mais afetadas. A responsável esclareceu ao Jornal Nordeste que o censo nacional do javali, realizado em 2019-2020, revelou precisamente lacunas nesta matéria. Se relativamente aos acidentes rodoviários existe informação que permite identificar zonas de maior incidência, o mesmo não acontece com os prejuízos na agricultura. “Há uma grande falta de dados, ou, pelo menos, de uma sistematização dos dados de prejuízos causados pelos javalis”, destacou.

Inês Pereira considera que, sem conhecer as zonas mais afetadas, as culturas mais vulneráveis e os períodos em que os danos são maiores, torna-se difícil avaliar se uma medida nacional de abate está realmente a responder ao problema certo.

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E Bragança entra diretamente nesta equação. Na perspetiva da Quercus, a existência de relatos e prejuízos no território não substitui uma avaliação científica e sistemática que permita perceber onde a intervenção é mais urgente.

Mais acidentes durante as montarias levantam dúvidas sobre a eficácia da caça

Ao Jornal Nordeste, Inês Pereira chamou ainda a atenção para um dado particularmente relevante para a discussão sobre a caça. Segundo esclareceu, o censo nacional identificou uma concentração de acidentes rodoviários precisamente durante a época das montarias. “Foi precisamente nessas alturas onde o número de acidentes aumentou, muito a ver com o aumento da movimentação dos javalis”, destacou, vincando que a associação considera, por isso, que a caça não pode ser avaliada apenas pelo número de animais abatidos. Ou seja, é necessário perceber também o que acontece ao comportamento dos animais e aos impactos que resultam da sua deslocação.

Assim, uma das propostas é estudar a possibilidade de restringir montarias em zonas próximas de estradas nacionais ou autoestradas, sobretudo em locais identificados como particularmente problemáticos.

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Prevenção pode ser mais importante do que o abate

Antes de aumentar o número de animais abatidos, a Quercus quer que o Estado aposte em mecanismos de prevenção dos prejuízos agrícolas. Um dos exemplos apontados por Inês Pereira são as vedações elétricas, incluindo soluções desenhadas especificamente para impedir a passagem dos javalis pela parte inferior das cercas. “Noutros países são implementadas, por exemplo, as vedações elétricas. Isso têm mostrado resultados bastante positivos”, sublinhou.

E conforme avançou ainda, o problema é que Portugal não sabe ainda em que medida estas soluções estão efetivamente a ser utilizadas pelos agricultores, nem qual tem sido o apoio público à sua implementação.

Considerou, por isso, que a prioridade deveria assim passar por conhecer as medidas que já existem, avaliar a sua eficácia e apoiar financeiramente os produtores na sua aplicação.

E os agricultores que sofrem prejuízos?

A Quercus defende também que os produtores afetados devem ser compensados. A associação faz uma comparação com os mecanismos existentes para os ataques de lobo, embora considere que também esses sistemas precisam de ser melhorados. “Seria importante também implementar o mesmo tipo de sistema e também que seja um bocadinho mais funcional, portanto, que realmente os agricultores recebam estas compensações no caso de prejuízos pelos javalis”, referiu Inês Pereira.

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A questão ganha particular importância em territórios rurais como Bragança, onde a agricultura continua a desempenhar um papel económico e social relevante, apesar do envelhecimento da população e do abandono progressivo de algumas áreas agrícolas.

Para a Quercus, segundo Inês Pereira, proteger os agricultores não significa necessariamente aumentar apenas o abate de fauna selvagem. Significa também “reduzir o risco, compensar os danos e apoiar quem continua a produzir”.

Abandono rural está a mudar a relação entre pessoas e animais

Na perspetiva da associação, a expansão do javali não pode ser dissociada das profundas transformações sofridas pelo território. Ao Jornal Nordeste, Inês Pereira apontou dois fenómenos. Por um lado, a expansão das áreas urbanizadas sobre habitats naturais, por outro, a substituição de áreas naturais e sistemas agrícolas tradicionais por monoculturas, o que “vai também retirar recursos às espécies que estavam habituadas a utilizar aquelas áreas”.

A responsável da Quercus associou ainda este fenómeno à perda de uma agricultura de subsistência que, apesar de menos produtiva em termos intensivos, criava uma relação diferente entre atividade humana e território. “Havia uma agricultura de subsistência, que era mais amiga do ambiente, não estava relacionada com uma produção intensiva”, destacou.

A recuperação da atividade agrícola e a gestão da paisagem aparecem, assim, como parte da resposta de longo prazo. Na opinião de Inês Pereira, não apenas para controlar o javali, mas para recuperar uma maior capacidade de coexistência entre pessoas e espécies selvagens.

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Recuperar o lobo pode ajudar a controlar o javali

A Quercus considera que a recuperação do principal predador natural do javali, o lobo ibérico, pode contribuir para alterar a sua dinâmica populacional e comportamental. O efeito não se resumiria ao número de animais predados. “O lobo influencia a dinâmica e o comportamento dos javalis, o que vai restringir a sua atividade e isso irá também promover uma menor dispersão para as áreas onde há mais pessoas”, explicou.

A ideia é particularmente relevante num território como Bragança, onde a presença do lobo já gera, simultaneamente, benefícios ecológicos e conflitos com os produtores pecuários.

Como proteger o lobo sem ignorar os criadores?

A questão é especialmente sensível no Planalto Mirandês. Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso têm registado, nos últimos tempos, conflitos relacionados com ataques de lobo aos rebanhos, levando os criadores a exigir respostas. Para a Quercus, a solução passa por não colocar conservação da natureza e proteção dos produtores em lados opostos.

A associação defende, assim, medidas preventivas como “vedações antilobo e cães de proteção dos rebanhos”, procurando “reduzir” a probabilidade de ataques. “Há uma série de medidas conhecidas que têm alguma eficácia na prevenção destes ataques”, disse ainda Inês Pereira, destacando que a lógica é semelhante à defendida para o javali, prevenir antes de reagir.

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Portugal e Espanha deviam gerir o problema em conjunto

A fronteira não é uma fronteira para a fauna selvagem. E, no distrito de Bragança, essa realidade é particularmente evidente. Assim, a Quercus defende que a gestão do javali deveria também ser pensada numa escala ibérica. A existência de áreas protegidas transfronteiriças, como o Douro Internacional, torna essa coordenação ainda mais relevante. “Os animais não conhecem estas fronteiras que nós definimos”, vincou.

A questão ganha ainda outra dimensão perante a deteção de peste suína africana em Espanha, doença que, segundo a responsável da Quercus, ainda não foi detetada em Portugal. Para a associação, esta realidade reforça a necessidade de uma estratégia coordenada entre os dois países, quer por razões de conservação, quer por razões de saúde animal e de gestão das populações.

Problemas não são iguais em todo o país

A Quercus rejeita uma abordagem uniforme para todo o território. Enquanto existem dados que permitem identificar alguns dos distritos com maior concentração de acidentes rodoviários, entre eles Viseu, Évora, Santarém, Setúbal e Vila Real, a informação relativa aos prejuízos agrícolas permanece muito menos consolidada. E essa ausência de informação pode levar a que perceções locais sejam confundidas com aumentos efetivos das populações.

Inês Pereira dá o exemplo da Arrábida, onde o aumento da presença humana e da notoriedade do território pode ter contribuído para uma maior perceção da presença de javalis. “Era importante avaliar se se trata apenas de um aumento da perceção porque há mais pessoas ou se há efetivamente mais javalis”, vincou.

Caçadores têm de ser aliados, mas há práticas a rever

Inês Pereira clarificou ainda que a Quercus não coloca as associações de caçadores fora da solução. Pelo contrário, considera que estas devem ser envolvidas na gestão da espécie. Ou seja, “os caçadores e as reservas de caça têm de ser aliados na resolução deste problema”.

Ainda assim, há práticas que a associação considera necessário rever, nomeadamente a utilização de alimentadores. Segundo Inês Pereira, estas estruturas podem funcionar como pontos fixos de alimentação e levar à “concentração de javalis em determinados locais”.

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