O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, considera que Portugal deve olhar para as experiências de outros países europeus e apostar mais na poupança de longo prazo para complementar as pensões públicas. Em Bragança, onde esteve para assinalar o regresso do atendimento do Banco de Portugal à cidade, defendeu que a discussão sobre o futuro das reformas deve ultrapassar as fronteiras ideológicas e aprender com aquilo que está a resultar noutros países.
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Questionado sobre as conclusões do grupo de trabalho para a reforma da Segurança Social e, em particular, sobre os mecanismos de poupança complementar propostos, Álvaro Santos Pereira não quis pronunciar-se diretamente sobre o relatório, mas deixou clara a sua visão sobre o caminho que considera necessário. “É importante nós, às vezes, sairmos do nosso retângulozinho e vermos o que está a passar noutros lados do mundo e noutros lados da Europa também”, afirmou.
O governador do Banco de Portugal apontou os casos da Suécia e da Dinamarca, onde reformas dos sistemas de pensões implementadas nos anos 90 reforçaram os mecanismos de poupança individual como complemento ao sistema público. Na sua perspetiva, estes modelos permitem que cada pessoa possa, de acordo com o seu perfil de risco e as suas possibilidades, constituir poupança adicional para a reforma.
Álvaro Santos Pereira deu ainda o exemplo da Alemanha, onde, segundo explicou, está atualmente em discussão uma reforma da Segurança Social inspirada precisamente no sucesso que atribui aos modelos sueco e dinamarquês.
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E conforme apontou, a lógica não passa por substituir a Segurança Social pública, mas por criar mecanismos que permitam reforçar o rendimento das pessoas quando chegam à reforma. “Sabemos que estamos cada vez a viver mais, que é ótimo, mas também temos que financiar esse aumento da vida”, afirmou.
É neste contexto que o governador defende uma mudança de abordagem em Portugal. Para Álvaro Santos Pereira, a discussão deve deixar de estar excessivamente condicionada por posições ideológicas e concentrar-se nas soluções que demonstram resultados. “É importante, de uma vez por todas, deixarmo-nos de ideologias e vermos o que é que os outros países estão a fazer e aprendermos as boas práticas e as melhores práticas internacionais”, defendeu.
Banco de Portugal prepara relatório sobre poupança
O governador revelou também que o próprio Banco de Portugal está a preparar um relatório sobre formas de aumentar a poupança de longo prazo em Portugal. O documento deverá ser apresentado “em setembro ou outubro”. Segundo disse o governador, a preocupação não se limita às pensões, estando relacionada com a “capacidade” do país para financiar investimento e acumular capital. “Portugal precisa de poupar mais se quiser aumentar o investimento público e privado”, rematou, assumindo que se a ideia é ter um país que “investe mais” nos territórios, que “investe mais em novas tecnologias”, que “investe mais em si próprio”. “Nós precisamos de poupar mais”, afirmou.
A posição surge poucos dias depois de ter sido apresentado o relatório do grupo de trabalho para a reforma da Segurança Social, que propõe precisamente o reforço da poupança complementar para a reforma. Entre as medidas estão planos de pensões profissionais com adesão automática, contas poupança para crianças e jovens, novos instrumentos de dívida pública e mecanismos que procuram transformar hábitos de consumo em poupança.
O grupo de trabalho propõe, por exemplo, que os trabalhadores possam ser inscritos automaticamente em planos de pensões profissionais, mantendo a possibilidade de renunciar à participação. O modelo apontado prevê uma contribuição que poderia situar-se entre 8% e 10%, introduzida de forma gradual.
Uma discussão particularmente relevante para Bragança
A questão ganha uma dimensão especial no distrito. Dados divulgados em dezembro de 2025 colocavam Bragança no topo da lista dos distritos com pensões médias de velhice mais baixas, com valores a rondar os 450 euros mensais, ao lado de Vila Real e Castelo Branco. A pensão média de velhice nacional situava-se então nos 645 euros, enquanto metade dos pensionistas recebia menos de 462 euros por mês.




