Fotografar o mundo para aprender a voltar a casa
António Sá é de Espinho e vive em Bragança. A fotografia levou-o a conhecer o mundo e, desde 1995, já percorreu alguns dos lugares mais remotos do planeta. Da Mongólia à Islândia, passando pelo Bornéu e pelas comunidades do sudoeste da China, o fotógrafo encontrou na viagem uma forma de compreender outras culturas, questionar a relação do ser humano com a natureza e, sobretudo, aprender a olhar de novo para casa
Durante mais de três décadas, António Sá, que escolheu Bragança para viver, fez da fotografia uma forma de conhecer o mundo. Das paisagens da Serra da Freita, onde segurou pela primeira vez uma máquina fotográfica, aos 11 anos, às estepes da Mongólia, às florestas do Bornéu, ao gelo da Islândia ou às comunidades do sudoeste da China, o fotógrafo freelancer construiu um percurso marcado pela curiosidade, adaptação e respeito pelas pessoas e lugares que encontrou.
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
A história começou em 1979. Num acampamento com amigos, na Serra da Freita, António Sá, natural de Espinho, deparou-se pela primeira vez com uma paisagem de montanha que contrastava com o ambiente costeiro onde crescera. Levava consigo uma máquina fotográfica simples, que tinha pertencido à mãe e fotografou. Mais tarde, quando recebeu do laboratório as fotografias reveladas, ficou impressionado com o resultado e, a partir desse momento, nunca mais parou. “A fotografia numa fase inicial da minha vida como amador foi sobretudo a vontade de registar aquilo que eu via”, rematou.
Durante anos, fotografou como amador, utilizando sobretudo máquinas que tinham pertencido ao pai. A passagem para o profissionalismo “aconteceu em 1995”.
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
Um fotógrafo “canivete suíço”
Quando começou a trabalhar profissionalmente com revistas de viagens, António Sá percebeu que teria de ser versátil. Paisagens, animais selvagens, pessoas, mercados ou comunidades remotas podiam fazer parte da mesma reportagem. A metáfora que encontrou para descrever esse percurso é nada mais que um “canivete suíço”, já que tinha de ter “muitas funções”. Era preciso ter várias ferramentas e saber utilizá-las em diferentes situações.
Essa versatilidade acabou também por levá-lo a acumular outra função, a de jornalista. Uma das primeiras reportagens que vendeu foi sobre o Bornéu, para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. A intenção inicial “era vender apenas as fotografias”, mas surgiu um problema, “não havia quem escrevesse o texto sobre aquela região”.
António Sá aceitou o desafio e, a partir daí, passou também a escrever as reportagens que produzia.
Cinco meses entre a Mongólia e a China
Entre as viagens que mais o marcaram está uma longa expedição realizada em 1999. Foram cinco meses entre a Mongólia e a China. A Mongólia surpreendeu-o pela “dimensão” e pela “baixa densidade populacional”.
António Sá viajou acompanhado pela mulher e chegou a permanecer com famílias nómadas nas suas próprias tendas. Conheceu uma sociedade que se deslocava em função das pastagens e aprendeu a viver com recursos muito limitados.
A experiência acabou por alterar também a sua relação com aquilo que considera essencial. Em lugares onde a água é escassa, um litro pode servir para cozinhar, para a higiene e para outras necessidades básicas. Regressar depois à Europa e abrir uma torneira tornou-se um contraste difícil de ignorar. “Quando voltamos a casa e ligamos a torneira e tomamos um duche de água quente, nós achamos que é realmente quase obsceno a quantidade de água que gastamos”, lembrou.
Primeiro as paisagens
Quando chega a um destino desconhecido, António Sá fotografa “primeiro as paisagens”. Não porque considere as pessoas menos importantes, mas porque um bom retrato exige tempo.
A fotografia de pessoas implica confiança. Não basta apontar a máquina e disparar. “É muito importante que o fotógrafo, acima de tudo, respeite o indivíduo”, disse.
Essa relação tornou-se particularmente evidente numa aldeia de montanha no sudoeste da China. Sem água canalizada, eletricidade ou estrada de acesso, a aldeia recebeu o fotógrafo e a mulher com enorme curiosidade. Durante os primeiros dias, uma multidão acompanhava-os pelas ruas. Depois, a novidade desapareceu. As crianças regressaram às brincadeiras e os adultos aos campos. Foi então que começou verdadeiramente o trabalho fotográfico.
Entre as pessoas que António Sá recorda está uma mulher com cerca de 80 anos, matriarca da família que os acolheu. O fotógrafo retratou-a “segurando um antigo documento escrito em Dongba”, uma escrita pictográfica já extinta naquela região.
O documento tinha sido encontrado pelo neto entre jornais antigos. A fotografia acabou por juntar duas histórias, a de uma mulher que vivera praticamente o mesmo número de anos que aquela escrita deixara de ser utilizada e a de uma cultura que o fotógrafo procurava compreender.
Luz, composição, perspetiva e momento
Luz, composição, perspetiva e momento são essenciais. A luz é “o ponto de partida”. Depois surgem a forma como os elementos são organizados no enquadramento, o ângulo escolhido e, finalmente, o instante em que o fotógrafo decide carregar no botão. E há imagens que acontecem sem serem planeadas.
Uma das fotografias de que mais gosta foi feita quando ainda tinha 18 anos, no Baixo Vouga Lagunar. Era madrugada, “tinha chovido durante a noite e o sol começava a nascer”. Na época, “fotografava com película e cada rolo tinha apenas 36 exposições”, o que obrigava a pensar cuidadosamente antes de disparar. “Entre o pensar, o ver uma imagem que pode dar uma boa fotografia e concretizá-la é muito rápido”, explicou.
Fez uma única fotografia. Hoje, essa imagem continua pendurada na parede do seu escritório. As cores suaves e o ligeiro desfoque fazem com que muitos a confundam com uma pintura.
Da natureza selvagem ao património português
O percurso profissional levou António Sá a lugares como o Alasca, Namíbia, Cabo Verde, Bornéu, Mongólia, China e Islândia, mas também o colocou perante o desafio de fotografar o próprio país.
No projeto do National Geographic Channel dedicado aos locais portugueses classificados pela UNESCO como Património Mundial, percorreu grande parte do território nacional. O desafio era diferente. Não havia o fator surpresa ou exotismo que existe perante uma paisagem completamente desconhecida. Fotografar Portugal exigia, por isso, procurar novas formas de olhar para lugares familiares.
O trabalho resultou num documentário e numa exposição fotográfica no Mosteiro dos Jerónimos. António Sá acumulava ainda uma terceira função, além de fotógrafo, era protagonista do documentário.
A Islândia e a sensação de pequenez
Entre todos os destinos, a Islândia ocupa um lugar especial. Ali, António Sá sentiu de forma particularmente intensa a dimensão da natureza e a pequenez humana. Vulcões, glaciares e grandes extensões praticamente desabitadas criam a sensação de estar perante um planeta ainda em formação.
Para o fotógrafo, a Islândia lembra-nos que a natureza não depende da humanidade para existir. Pelo contrário, a civilização pode desaparecer, mas o planeta continuará a transformar-se. É precisamente essa “sensação” que o faz querer regressar.
Voltar a casa
Depois de uma vida marcada pela itinerância, António Sá nunca deixou de precisar de uma base.
Nasceu em Espinho e viveu grande parte da vida na região do Grande Porto. Hoje, a sua “base” está em Lagomar, no concelho de Bragança. É ali que regressa depois das viagens. O lugar que descreve como a sua “casota” e o seu “porto seguro”. E é também ali que continua a fotografar.
Ao longo das estações, percorre Bragança e os territórios próximos, incluindo zonas do outro lado da fronteira. Fotografar o que está perto tornou-se uma forma “diferente” de descobrir o mundo. Porque, para António Sá, uma boa fotografia exige “presença”. “É preciso estar no lugar”, esperar pela luz “certa”, aceitar que a meteorologia pode mudar e voltar, se for necessário.
Depois de fotografar continentes inteiros, a objetiva aponta agora muitas vezes para casa.
Se pudesse regressar uma última vez a um dos destinos que conheceu, “escolheria a Islândia”. “Põe-nos no sítio, realmente domestica-nos um bocado”, terminou.




