Produtores de castanha preocupados com outono seco
Produtores apontam para uma campanha difícil, com castanha a cair mais cedo, problemas de qualidade e quebras de produção que podem chegar aos 60 ou 70 por cento.
A Festa da Montanha, que decorreu no passado fim de semana em Sambade, no concelho de Alfândega da Fé, voltou a colocar a castanha no centro das atenções, mas a edição deste ano ficou também marcada pelas preocupações dos produtores perante uma campanha particularmente difícil.
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À margem do XII Seminário da Castanha produtores e especialistas falaram das consequências de um outono marcado pela falta de precipitação e pelas temperaturas elevadas, apontando as alterações climáticas como um dos principais desafios para o futuro do souto.
Para Amando Morais, produtor de castanha, este é mesmo “um ano mau” para a cultura. A falta de chuva condicionou o desenvolvimento do fruto e fez com que a castanha apresentasse problemas de qualidade. “Falta de água, falta de chuva e a castanha de facto não se criou nas devidas condições”, explicou o produtor, acrescentando que a castanha “caiu mais cedo este ano” e que algumas acabam por secar dentro dos próprios ouriços.
A situação traduz-se numa quebra significativa da produção. Segundo Amando Morais, na freguesia de Sambade e nos limites da zona envolvente, a redução poderá atingir 60 a 70 por cento.
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A juntar à menor quantidade, está também a desvalorização do fruto. “Se o fruto não tem qualidade, o preço também não pode ser bom”, afirmou, explicando que, relativamente ao ano passado, a castanha está a ser comercializada a cerca de um euro menos por quilograma.
Também Maria Veríssimo, produtora de castanha, descreve uma campanha complicada. A castanha começou a cair “muito cedo”, há mais de duas semanas relativamente ao período habitual, e o tempo seco está a dificultar a retirada do fruto dos ouriços. “As chuvas ali de meados de setembro ajudaram, mas agora que está muito calor, o ouriço cai tão seco e é difícil tirar a castanha de dentro do ouriço”, explicou.
A produtora diz que os problemas são sentidos de forma generalizada entre os agricultores da região. “No geral, sim, toda a gente a queixar-se”, afirmou, destacando o facto de a castanha ter começado a cair cerca de três semanas antes do habitual.
Apesar de não conseguir quantificar a quebra na sua própria produção, Maria Veríssimo considera que as condições meteorológicas não deixam boas perspetivas para o resto da campanha.
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Alterações climáticas obrigam a modernizar o setor
As dificuldades sentidas pelos produtores são também confirmadas por Hugo Martins, engenheiro agrónomo, que considera que as alterações climáticas estão a ter um impacto cada vez maior na produção de castanha. “O castanheiro está a sofrer bastante porque ele não está a saber acompanhar, e os produtores não estão a conseguir acompanhar essa tendência de aumento de temperatura, diminuição da precipitação”, explicou.
Para o especialista, é necessário aumentar a capacidade de retenção de água no solo e melhorar o acompanhamento das plantas, nomeadamente através de uma análise mais rigorosa das pragas e doenças.
Hugo Martins defende ainda uma modernização do setor e do conhecimento dos produtores, alertando que não é possível continuar a encarar a cultura apenas com base nos métodos tradicionais. “É uma cultura ainda muito afetiva, ainda muito geracional, muito rústica. E a verdade é que isso já não acontece”, afirmou, defendendo uma maior ligação entre produtores, universidades, instituições e investigação.
O engenheiro agrónomo considera que a falta de investigação e de modernização acaba por alimentar um ciclo difícil de quebrar. “Há pouca investigação e em pouca investigação também há pouca modernização”.
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Festa quer valorizar produtores e produtos da região
Apesar das dificuldades na campanha da castanha, o balanço da Festa da Montanha é considerado positivo pela Câmara Municipal de Alfândega da Fé.
Eduardo Tavares, presidente da autarquia, destacou a forte afluência de visitantes desde sexta-feira e defendeu a continuidade do evento, que pretende valorizar os produtos e as tradições da região. “Esta Festa da Montanha veio para ficar”, afirmou, considerando que a iniciativa é uma celebração dos produtos do outono e inverno e, simultaneamente, uma homenagem aos agricultores e produtores de castanha.
A castanha assume, assim, o papel de “rainha” da festa, num território onde a atividade tem um peso económico e cultural importante.
O presidente da Câmara sublinhou ainda a importância do Seminário da Castanha, que este ano chegou à 12.ª edição. Trata-se, segundo Eduardo Tavares, do seminário com caráter regular mais antigo do concelho.
O objetivo passa por levar conhecimento aos produtores e discutir os principais problemas que afetam a cultura, desde as alterações climáticas às doenças e pragas.
“Só desta forma, com trazermos mais informação, mais conhecimento, fazer um trabalho coletivo, é que podemos efetivamente melhorar”, defendeu.
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