Cidões encheu-se de visitantes para a Festa da Cabra e do Canhoto

Entre fogo, rituais, gastronomia e muita gente, a Festa da Cabra e do Canhoto abriu o ciclo das Festas de Inverno do concelho.

02 nov. 2026, 12:12

Cidões voltou a ganhar vida na noite de 31 de outubro. A pequena aldeia do concelho de Vinhais, que conta atualmente com apenas 23 habitantes, recebeu centenas de visitantes para mais uma edição da Festa da Cabra e do Canhoto, uma celebração que mantém uma forte ligação às tradições comunitárias e ao imaginário das festas de inverno transmontanas.

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O acendimento da fogueira, a queima do canhoto e a chegada do diabo foram alguns dos momentos centrais de uma noite marcada pelo fogo, pelos esconjuros, pela dança e pela gastronomia.

Para José Taveira, presidente da Associação Raízes de Cidões, a origem da festa perde-se no tempo. A tradição terá começado com a reunião dos habitantes em torno de uma fogueira, onde partilhavam pão, carne e vinho. “As pessoas aqui, no dia 31 de outubro, juntavam-se à volta da fogueira a comer pão e carne e a beber vinho, e isso acontecia sempre”, explicou.

José Taveira, presidente da Associação Raízes de Cidões.

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A associação recuperou e estruturou a celebração a partir de estudos que relacionaram a tradição com antigas práticas associadas à passagem da época clara para a época escura, numa possível ligação à cultura celta e aos povos que habitaram a região. “Foi a partir de 2009, mais ou menos, ano em que foi constituída a associação, que passámos a comemorar a Festa da Cabra e do Canhoto com esta roupagem que ela tem agora”, explicou José Taveira.

A noite contou com vários momentos de destaque, mas, para o responsável, há três que assumem particular importância: o acendimento da fogueira, a queima do canhoto e a chegada do diabo.

Uma noite que devolve vida à aldeia

A chegada de centenas de pessoas transforma por algumas horas uma aldeia que, durante grande parte do ano, vive num cenário muito diferente.

Maria do Carmo, uma das residentes de Cidões, aproveita a festa também para confecionar e vender produtos caseiros, entre os quais cuscos, folar, bola de carne, pão, doces e marmelada. “É uma coisa boa, é uma tradição que junta aqui muita gente, dá um bocado de vida a isto e alegra um pouco”, afirmou.

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Maria do Carmo e Alexandre Freitas

Ao lado estava o neto, Alexandre Freitas, de 18 anos, a ajudar no atendimento aos visitantes. Para o jovem, a dimensão da festa é particularmente evidente quando comparada com a realidade quotidiana da aldeia. “É uma das melhores tradições que há em Trás-os-Montes, que traz gente de todas as partes de Portugal praticamente”, considerou.

Visitantes chegam de vários pontos do país

Entre os visitantes encontravam-se pessoas vindas de diferentes pontos do país, atraídas pela singularidade da tradição.

Carla Pimenta, de Felgueiras, regressou a Cidões pela segunda vez. Depois de ter gostado da primeira experiência, decidiu voltar este ano, também por razões pessoais.

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A queima do canhoto continua a ser o momento de que mais gosta. “Gostei da primeira vez”, contou, garantindo que pretende voltar no próximo ano.

Também Filipe Moreira, de Valongo, esteve pela primeira vez nesta festa. Conheceu a celebração através de um amigo e decidiu deslocar-se até Cidões. “Mais que cinco estrelas”, avaliou quando questionado sobre a experiência.

O fogo foi um dos elementos que mais o impressionou, sobretudo numa noite de temperaturas baixas. “Estávamos cheios de frio, aquecemo-nos”, contou, destacando ainda a gastronomia. Apesar de não ter provado a cabra, revelou que os amigos que a experimentaram elogiaram o prato.

De Vila Franca de Xira, mas natural do Brasil, Rodolfo Ferreira também descobriu a festa através de pesquisas sobre tradições portuguesas. O nome da celebração despertou-lhe a curiosidade e levou-o a conhecer Cidões pela primeira vez. “As festas do Norte são muito acolhedoras, muito diferentes do que estamos acostumados”, afirmou.

Rodolfo Ferreira descobriu a festa através de pesquisas sobre tradições portuguesas

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Inês Dinis, do Porto, também se estreou na festa. A família costuma passar férias na região de Bragança e decidiu aproveitar a oportunidade para conhecer a celebração. “Está muito, muito bom”, afirmou, destacando a autenticidade da iniciativa. “É interessante, tem muita gente, é genuíno, portanto é divertido.”

Festa da Cabra e do Canhoto abre ciclo de Festas de Inverno e projeto RITUS

A celebração de Cidões marcou o arranque de um ciclo de oito Festas de Inverno do concelho de Vinhais que serão documentadas no âmbito do projeto RITUS – Salvaguarda dos Rituais de Máscaras em Vinhais. O objetivo passa por preparar a inscrição destas manifestações no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI).

A Festa da Cabra e do Canhoto foi a primeira das manifestações a ser documentada no âmbito deste processo. O Município de Vinhais está a desenvolver o trabalho em conjunto com as comunidades locais, através de um investimento total de 70.500 euros, cofinanciado pelo NORTE2030 ao abrigo do aviso “Salvaguarda e Valorização de Património Cultural Imaterial”.

O ciclo prolonga-se até 10 de fevereiro e inclui oito localidades do concelho. Depois de Cidões, seguem-se, a 25 e 26 de dezembro, a Festa dos Rapazes, em Ousilhão, e a Festa das Varas, em Rebordelo. A 27 de dezembro realiza-se a Festa de Santo Estêvão, em Travanca, e, no último dia do ano, a Encamisada, em Vale das Fontes.

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O calendário prossegue já no Carnaval, com o Carnaval Tradicional de Vila Boa de Ousilhão, a 9 de fevereiro, e termina no dia seguinte, em Vinhais e Edrosa, com a Quarta-feira de Cinzas – A Morte e os Diabos.

Para José Taveira, o processo de documentação representa um momento importante para as comunidades que mantêm estas tradições. “É muito importante para nós e para o reconhecimento das Festas de Inverno”, afirmou.

O presidente da Associação Raízes de Cidões considera que um eventual reconhecimento poderá aumentar a visibilidade das celebrações e gerar também efeitos positivos na atividade turística e económica. “O que se espera é, para já, uma visibilidade ainda maior das Festas de Inverno. Visibilidade desde logo da cultura das gentes que promovem estas festas, mas também uma componente turística e económica.”

O presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Luís Fernandes, sublinha igualmente a importância do processo para preservar e valorizar as manifestações culturais do concelho. “O objetivo é mesmo esse, valorizar cada vez mais as Festas de Inverno do nosso concelho, que são cada vez mais importantes a nível cultural.”

O processo de documentação servirá de base à candidatura de inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, procurando assegurar que o conhecimento sobre estes rituais seja registado e preservado em articulação com as próprias comunidades que lhes dão continuidade.

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