Boa campanha de amêndoa à vista mas produtores cautelosos quanto ao preço

Produtores apontam para um aumento de 30%

19 ago. 2026, 08:00

Com a campanha da amêndoa à porta, os produtores começam a fazer contas. Este ano, a quantidade de fruto nas árvores deixa boas perspetivas e aponta para uma boa campanha, com a produção a poder aumentar cerca de 30%. Acácio Cordeiro, dirigente da Cooperativa dos Lavradores dos Frutos Secos do Centro e Norte, com sede em Mogadouro, confirma as expectativas positivas, mas alerta para a necessidade de chuva nas próximas semanas para garantir a qualidade do grão.

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“Perspetiva-se uma boa campanha com um aumento de 30% na produção. Agora vamos ver este tempo que falta devido ao stress hídrico se se vai refletir na qualidade do grão ou não”, explicou.

Apesar da campanha ainda não ter começado oficialmente, já há amendoeiras onde a casca começou a abrir, sinal de que o fruto se aproxima da maturação.

A principal preocupação neste momento está, contudo, nas condições meteorológicas. O prolongamento do período seco e o consequente stress hídrico podem afetar o desenvolvimento do fruto e retirar-lhe valor comercial.

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“Quando entra em stress hídrico, a planta vai começar a tirar energia ao fruto e aí o fruto pode perder valor comercial”, alertou.

Para o dirigente da cooperativa, a chuva seria, por isso, particularmente importante nesta fase. “A chuva era o ideal”, afirmou, lembrando que o comportamento do tempo durante o próximo mês e meio será determinante para perceber o impacto da falta de água na campanha.

Os amendoais de regadio estão, por isso, numa posição mais favorável, já que conseguem minimizar os efeitos da falta de precipitação. Acácio Cordeiro considera mesmo que é fundamental reforçar o regadio para o futuro da agricultura no Planalto Mirandês.

“Na minha opinião pessoal, aqui acho que o regadio era muito bom para o Planalto, para qualquer cultura, não só para o amendoal, olival. Isso era ouro sobre azul”, defendeu.

O responsável sublinhou que vários produtores têm investido na instalação de regadio, mas considera que este esforço representa um encargo elevado para os agricultores e defende um maior investimento nesta área.

Apesar dos constrangimentos provocados pela falta de água, as perspetivas para a campanha mantêm-se positivas, nomeadamente, nos números da cooperativa. Com cerca de 600 associados, a Cooperativa dos Lavradores dos Frutos Secos do Centro e Norte recebe, em média, cerca de um milhão de quilos de amêndoa por campanha. Este ano, perante as perspetivas de aumento da produção, a cooperativa espera comercializar mais de 1,3 milhões de quilos.

 

Grande quantidade é fruto das condições favoráveis dos últimos anos

Por Moncorvo a colheita já começou. José Rachado é produtor de amêndoa biológica e alguma convencional. Contou que já começou a colher o fruto e mostrou-se bastante otimista quanto à produção deste ano.

Vai haver aumento significativo da produção este ano, sim. Eu já estou a apanhar e estou com um aumento entre 50 e 60%, em relação ao ano passado.”

O aumento da produção é também explicado pelo acumular de condições favoráveis nos últimos anos e por uma campanha anterior menos produtiva. No entanto, a atual falta de chuva está a deixar os produtores em alerta, uma vez que o défice hídrico poderá comprometer a próxima campanha.

“Há 3 anos em que os invernos foram bons de chuvas, ou seja, as plantas conseguiram acumular reservas e garantir boas florações. Mas este verão está a ser demasiado extenso. Nós estamos a ter um período sem chuvas muito longo, o que não é bom para as plantas. Isto também pode antever que no próximo ano a produção poderá ser baixa, porque as plantas estão com um déficit hídrico muito grande nesta fase. E pelos vistos vai-se prolongar até outubro. Ou seja, o bom ano que estamos a ter neste é resultado de um acumular de bons anos de precipitação e má produção o ano passado, em que as plantas conseguiram acumular reservas, também graças às fertilizações que são feitas”, explicou.

Quanto à qualidade, essa não muda e isso deve-se, principalmente, ao clima transmontano.

“A região de Trás-os-Montes, felizmente, tem um clima único e como temos índices de produtividade muito baixos, temos sempre uma qualidade claramente acima de outras zonas do país, sobretudo quando são produções intensivas. Isto tem a ver com as nossas características climáticas”, disse acrescentando que mesmo assim as pessoas preferem comprar pelo mais barato e não tanto pela qualidade.

Preço da amêndoa biológica pode subir, mas produtores preferem não criar expectativas

Apesar das boas perspetivas em termos de produção e qualidade, o preço continua a ser uma das principais preocupações dos produtores. Por isso José Rachado prefere manter alguma cautela e admite que a evolução do mercado tem sido pouco favorável por isso diz preferir não criar expectativas.

“O preço, eu não sei, mas infelizmente, cada vez tem vindo a piorar. Apesar de ter melhorado um bocadinho em relação há dois anos. No ano passado foi um ano também de pouca produção. Eu o preço nem sequer tento perceber porque cada ano ficamos mais desiludidos com o preço da amêndoa”, frisou.

“Pagam a nossa amêndoa como pagam uma amêndoa do superintensivo. Infelizmente, o consumidor neste momento, e sobretudo após o Covid, procura o preço mais baixo, não procura qualidade. E por isso é que o preço da amêndoa caiu muito”, contou.

Já Acácio Cordeiro admite que, apesar de ainda não ter certezas, acredita que o preço da amêndoa biológica possa aumentar nesta campanha. O dirigente da Cooperativa dos Lavradores dos Frutos Secos do Centro e Norte aponta para valores que rondam atualmente os 7,10 a 7,20 euros por quilo de grão nas bolsas, considerando que “é muito bom”.

No que ao preço da amêndoa convencional diz respeito, o dirigente explicou que esse aumento ainda não se reflete. “Vamos aguardar que a campanha comece, enquanto começa a comercialização, para vermos como é que os mercados se comportam. Temos que aguardar ainda, mas as perspetivas são boas”, explicou Acácio Cordeiro, acrescentando que, neste momento, o preço da amêndoa convencional é paga a dois euros menos que a biológica.

Tendências de consumo podem ajudar na valorização

Do ponto de vista do produtor a amêndoa transmontana, para ser valorizada, precisa que surja uma tendência que crie novos hábitos de consumo para voltar a colocar a amêndoa em destaque, “como foi recentemente o caso do chocolate do Dubai”, exemplificou.

“Neste momento custa-me acreditar que o paradigma mude porque não vejo grandes alternativas. Isto tem a ver também com a forma como a amêndoa é colocada no mercado. No ano passado, o chocolate do Dubai ajudou a valorizar o pistacho, porque o fruto seco estava a cair também no mercado, e quando apareceu esse chocolate o fruto voltou a ser valorizado. Nós precisamos de uma campanha do género para a amêndoa, ou seja, juntar a amêndoa a qualquer coisa para podermos valorizar o produto. E nós, as cooperativas, ou até o Estado, não estamos a conseguir encontrar uma solução para conseguir dar esse impulso à amêndoa, que era o que nós precisávamos”, disse.

E nem mesmo alturas como a páscoa e o natal, em que as amêndoas são, grandes protagonistas dessas épocas festivas, aumentam a procura. “Quem nos compra amêndoa diz que há pouca procura. Se há pouca procura, eles oferecem um valor mais baixo.”

Muita amêndoa, mas pouca mão de obra para a colheita

O produtor moncorvense adiantou que a grande dificuldade continua a ser a falta de mão de obra. Diz que a sua sorte é ter tudo mecanizado caso contrário seria difícil.

“Eu não consigo arranjar uma equipa para me ajudar a apanhar. Felizmente tenho tudo mecanizado, vou apanhando gradualmente, por isso é que já comecei na semana passada a fazer a colheita”, explicou.

José Rachado considera que a dificuldade em encontrar trabalhadores é também uma questão cultural, apontando para uma menor valorização social do trabalho agrícola. O produtor defende, contudo, que a remuneração no setor pode ser superior à de outras áreas de atividade, mas que, ainda assim, continua a ser difícil atrair mão de obra.