Mais de 170 anos após ter sido considerado extinto em Portugal, o urso pardo voltou ao nosso país. O último exemplar terá sido morto, no Gerês, em 1843, segundo garante o livro “Urso Pardo em Portugal – Crónica de uma extinção”, de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta, de 2017.
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Este exemplar que agora apareceu em território luso, escolheu o Parque Natural de Montesinho, no concelho de Bragança, para o fazer e foi nas colmeias de um apicultor de Vilarinho que o animal quis jantar.
“Chegámos a um dos apiários, temos quatro na zona de fronteira, e o meu colega, que estava comigo, deu logo ali o alerta e disse-me que estava uma rede tombada. Eu pensei que tivesse sido uma corça ou um veado grande, que são animais que têm já poder físico”, começou por contar o apicultor sobre os estragos verificados após o ataque do urso aos apiários que tem à beira de Espanha. Mas foi só uns minutos depois que deu conta que, numa linha, lhe faltava uma colmeia, que devia ter uns 30 quilos de mel e o que o espantou foi a tampa estar no chão. “Andámos dois ou três minutos a procurar a colmeia e estava uns metros mais abaixo. Estava vazia, sem uma gota”, assegurou.
Decidiu chamar os técnicos do parque para perceber o que teria então acontecido e logo aí se confirmou que poderia mesmo ser um urso. Mas as certezas absolutas vieram depois porque o urso não quis ficar por aqui.
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Após o primeiro ataque, que Luís diz ter sido a 29 de Abril, voltou a visitar as abelhas. A última demanda em busca do mel foi a dois apiários, ao mesmo da primeira vez e a outro, sendo que voltou a comer outra colmeia inteira. E foi desta última vez que deixou rasto “seguro” já que na rede que tombou ficaram pelos que depois os técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) vieram a confirmar como sendo de um urso-pardo. “Ao todo podia ter comido entre 50 a 60 quilos de mel”, explicou o apicultor que se diz “agradavelmente surpreendido” e que o urso “é bem-vindo” ao parque. Com esperança num regresso acredita que “haverá espaço para todos”.
Despovoamento do Interior é favorável ao urso pardo
O presidente do ICNF, Rogério Rodrigues, admite que a presença do urso-pardo está a gerar “curiosidade” e um “conjunto de alertas para a sua presença”. Só que “as espécies selvagens não batem à porta ou tocam à campainha cada vez que percorrem um território”. Como “podem andar por cá sem darmos conta”, alerta que a situação nova “exige da população cuidado e respeito” e, sobretudo, que “não corra de imediato a tentar presenciar esta novidade”. Rogério Rodrigues diz que “nas próximas duas ou três semanas”, vão tentar ter “dados mais objetivos” sobre a presença do urso no norte de concelho de Bragança. Está em curso “um conjunto de diligências no território” para perceber “se é apenas um indivíduo dispersante, tal como parece”.
De acordo com Serviço Territorial de Meio Ambiente de Zamora, da Junta de Castela e Leão, Espanha, o animal foi avistado primeiro na região da Sanábria e depois entrou em Portugal.
Mas será que o país oferece condições para os ursos regressarem? Rogério Rodrigues acredita que sim. “O interior está a ficar despovoado, mais arborizado e com mais territórios disponíveis para a presença de espécies silvestres. O urso apenas está a aproveitar a oportunidade que a qualidade ambiental lhe dá”. Condições que têm sido igualmente aproveitadas por veados e javalis.
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Urso espanhol?
Sendo que em Espanha, na Cordilheira Cantábrica, há dois núcleos, um oriental, em León, Palência e Cantábria e outro, ocidental, que engloba Lugo, León e Astúrias, acredita-se que este urso possa ser oriundo de uma destas duas subpopulações. Estes exemplares de urso pardo cantábrico, do país vizinho, fazem parte de uma das subespécies de urso pardo mais pequenas do mundo. Segundo o ICNF, em Espanha, nas últimas duas décadas, foram registados movimentos de indivíduos desta espécie em áreas próximas do distrito de Bragança, por isso, o ressurgimento de urso pardo em Portugal, “está agora confirmado”.
Natural de Bragança, Susana Alves, médica veterinária, fez doutoramento na Universidade de León sob o tema “Estudo da Congelabilidade de Ejaculados de Urso-Pardo”. Em Espanha, já que a espécie está em vias de extinção, a fim de atenuar o problema, pôs-se em prática uma estratégia de conservação desta espécie, através de alguns projectos, no âmbito da criação de um banco de recursos genéticos. A população cantábrica dos dois núcleos, em estado selvagem, supera os 260 exemplares, garantiu Susana Alves, que conviveu com alguns exemplares desta espécie em regime de semi-liberdade, no Parque Natural de Cabarceno, na Cantábria, durante a fase prática da tese de doutoramento. “Estou convencida que fará parte desta subpopulação”, disse, explicando ainda que acredita ser um macho jovem em dispersão já que nos encontramos na época reprodutiva “podem percorrer muitos quilómetros enquanto que as fêmeas estão confinadas a um território mais limitado”. “Como são zonas próximas” poderá ser também uma “situação esporádica”. Complementa ainda que “está documentado que um urso adulto radiomarcado, no Parque Regional de Riaño, próximo de León, em quatro anos percorreu dois mil e tal quilómetros quadrados” o que prova que os animais se vão mexendo consoante a qualidade do habitat.
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