Tempo incerto propício ao fungo da podridão da castanha pode voltar a fazer estragos significativos

No concelho de Vinhais, produtores chegaram a ter 80% das castanhas com podridão. Fungo já está a provocar estragos com a castanha ainda na árvore

16 jul. 2024, 09:40

Este artigo tem mais de um ano

As oscilações da temperatura e a chuva que têm vindo a contrariar a estação de Verão são propícias ao aparecimento do fungo que origina a podridão da castanha. A última campanha foi uma lástima para os produtores da região. As temperaturas elevadas antes do previsto e a chuva tardia criaram a condição ideal para a propagação de um fungo que está a provocar quebras significativas na produção de castanha. No concelho de Vinhais as quebras chegaram atingir os 80% e em Bragança os 40%.

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Castanha já podre ainda na árvore

Este fungo começou a ser estudado pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2019, enquanto os investigadores estudavam a podridão da castanha, no geral, ao nível da indústria, nas empresas que recolhem, transformam e comercializam a castanha, uma vez que vários fungos afectam a castanha no pós-colheita, durante o período de armazenamento. Nas castanhas que estavam analisar detectaram “uma grande incidência” do fungo e já havia uma taxa de podridão “considerável”, isto é, cerca de 10% das castanhas estavam afectadas por este fungo. No entanto, uma vez que as castanhas analisadas estavam na indústria, ou seja, já tinha sido previamente seleccionada, estes valores não reflectem a realidade, podendo a taxa de incidência ter sido muito superior. Foi aí que o IPB decidiu fazer uma investigação mais profunda do fundo que origina a podridão da castanha. O ano passado, a situação já mostrou ser preocupante. “Na campanha anterior vimos que havia zonas em Trás-os-Montes onde já detectávamos 80% de podridão na castanha. Houve regiões com menos, 10 ou 15%, mas o máximo foi 80%, na zona de Vinhais. Fizemos uma recolha ainda no campo”, adiantou Paula Rodrigues investigadora no Centro de Montanha (CIMO) do Instituto Politécnico de Bragança. Até agora a podridão da castanha só era verificada quando o fruto estava já armazenado, no entanto, recentemente, os estudos têm concluído que a castanha está na árvore e já se verifica a presença do fungo ou até mesmo da podridão. “É um fungo que, até há poucos anos, era detectado em maior quantidade só após a colheita, já durante o armazenamento. Ou seja, era um fungo que enquanto a castanha estava na árvore, a árvore conseguia controlar com o seu sistema imunitário o desenvolvimento do fungo, mas assim que era colhida e durante o seu armazenamento tinha uma propagação muito rápido. O que nós estamos a verificar agora é que já no campo, ainda com a castanha, pré colheita, detectamos uma grande incidência do fungo e da podridão”, explicou Paula Rodrigues. As árvores não estão a conseguir proteger a castanha. Os investigadores consideram que pode ser resultado das “alterações do clima”, tendo concluído que o fungo está “bem adaptado às temperaturas mais elevadas”, desenvolvendo-se em temperaturas de “30 ou 35 graus”, o que não é muito comum num fungo de campo, segundo Paula Rodrigues. “O aumento da temperatura possivelmente reduz a capacidade da planta de responder ao ataque do fungo e por isso enquanto a castanha ainda está na árvore não há uma capacidade de resposta e de controlo do fungo como haveria em anos anteriores com temperaturas mais baixas e depois esta instabilidade de termos dias mais quentes, chuvadas e vento, proporciona uma maior disseminação do fungo entre os castanheiros”, referiu.

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Como acabar com o fungo?

O Instituto Politécnico de Bragança, juntamente com outras instituições, como a Universidade de Trás-os- -Montes e Alto Douro, está a estudar uma forma de disseminar o fungo. Estão a ser testados alguns agentes biológicos, bactérias ou fungos, que têm alguma actividade contra o fungo. Já foram testados em campo. “Uma bactéria que é usada para o controlo de outras doenças, que é o Bacillus Amyloliquefaciens. Está homologada para outras culturas, mas não para o castanheiro. Há já ensaios promissores”, disse Paula Rodrigues. No entanto, as aplicações em campo são muito dependentes das condições climáticas, da dimensão das árvores, da exposição dos soutos, portanto, é “necessário validar os resultados que são testados em determinada região para outra região diferente e a validação requer a repetição por, pelo menos, três anos”. O que significa, que não será para já que os agricultores terão uma solução cientificamente comprovada e homologada.

Campanha anterior foi uma “desgraça” e teme-se que se repita

Com a instabilidade meteorológica deste Verão, já se teme que o mesmo cenário se repita. Marcelino Rodrigues foi um dos agricultores que passou por esta “desgraça” o ano passado. Tem cerca de 20 hectares de soutos em Meixedo, no concelho de Bragança, e admite que terem sido “muito afectados” pelo fundo. “A castanha estava má, podres e mais podres”, contou. Alguma nem sequer a chegou apanhar, porque percebeu que não valia a pena. “Tinha soutos, ia lá e via tudo furado, tudo cheio de buracos e deixava-as. Já nem as apanhava, para quê? Para atirar com elas?”. O produtor disse ter sido “um ano para esquecer” e espera que este ano não volte a acontecer. Até porque, o facto de a castanha estar podre por dentro fez também baixar o preço, porque a qualidade era inferior ao esperado. Vendeu- -a entre 1 euro a 1,3 euros e houve até quem não lha quisesse comprar. “Ainda houve um senhor, que me costuma comprar nozes também, veio cá e esteve a ver as castanhas e disse que não lhe agradava”, contou. Para já ainda não fez nenhum tratamento e até reconhece que há falta de formação sobre o assunto. “Os agricultores não estão preparados para estas mudanças meteorológicas. Falta conhecimento. O dia está assim, devíamos saber o que fazer, se devíamos sulfatá-los”, frisou. Lindolfo Garcia foi outro dos produtores afectados. Tem 40 hectares de soutos espalhados pelas aldeias de Espinhosela, Carragosa, Oleiros, Terroso, Vilarinho, Parâmio, Mofreita, nos concelhos de Bragança e Vinhais. Num bom ano conseguiria colher 90 toneladas de castanha, mas na campanha anterior não chegou às 80, considerando ter sido uma quebra “muito grande”. “O ouriço estava no chão, aberto, e olhava- -se e viam-se castanhas maravilhosas, abriam-se e estavam todas podres”, explicou, dizendo que tinha “três reboques” cheios de castanha “estragada”, o que representa “15 toneladas”. Um prejuízo de milhares de euros, o que é “muito dinheiro”. “O impacto é muito, porque andamos a trabalhar sem ver rendimentos”, lamentou. O agricultor queixou-se ainda do baixo preço a que foi paga a castanha, devido a estar podre. “Houve muita quebra nos quilos e também no preço, porque fez baixar muito o preço. Vendi a castanha a 1,4 euros, o ideal seria a 2,5 euros, no mínimo, já que o no ano anterior a vendi a 2,7 euros”, disse. Segundo o presidente da Arborea- Associação Agro- -florestal da Terra Fria Transmontana, “houve variedades que o fungo afectou bastante e em variedades como a Judia, houve quebras bastante significativas”. Em variedades como na Judia, o impacto foi de “60 a 70%”, na longal de “20 a 30%”. Abel Pereira disse que alguns fornecedores chegar a “devolver” a castanha aos produtores, porque “não tinha qualidade para o mercado”. A baixa qualidade reflectiu-se no preço. “A castanha não tinha qualidade para o mercado. O preço andava a ronda 1,5 euros, quando devia rondar os 2 ou 2,3 euros”, disse.

Falta de financiamento

Os estudos que estão a ser desenvolvidos pelo politécnico de Bragança para o fungo da podridão da castanha não têm financiamento. Estão a ser feitos com fundos próprios do IPB, pois todas as candidaturas submetidas até agora para esta investigação não foram aprovadas.

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