Entrevista

Segundo Álvaro Barreira “a floresta e a caça estão ameaçadas por falta de vigilância”

Entrevistámos Álvaro Barreira, um homem que teve um importante papel na gestão florestal no distrito de Bragança e no mundo da caça. Quisemos perceber as diferenças ente o tempo em que era administrador florestal e o que acontece agora.

10 out. 2018, 09:07

Este artigo tem mais de um ano

Entrevistámos Álvaro Barreira, um homem que teve um importante papel na gestão florestal no distrito de Bragança e no mundo da caça. Quisemos perceber as diferenças ente o tempo em que era administrador florestal e o que acontece agora.

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Maria João Canadas

Explique-nos como era o sistema de vigilância de incêndios, comparado com o que existe hoje?

Existe um vazio agora. Naquela altura havia postos de vigia que cobriam todas as áreas. Havia três postos de vigia, ligados permanentemente e ligados às Casas dos Guardas, e no Verão havia um reforço no posto de vigia da Serra da Nogueira que cobria tudo e estava permanentemente em vigilância. Além disso, montei uma brigada contra incêndios, constituída por 22 homens e um guarda, equipados com uma viatura própria que dormiam num quartel na Cova da Lua, com ligação telefónica à própria administração florestal. Portanto, sempre que havia um incêndio havia controlo das horas do início do foco, onde foi localizado e como foi feito o combate e o seu resultado. Essa brigada tinha um controlo muito rigoroso e tinha sempre um administrativo na sede. Recorria-se a pessoas invisuais ou deficientes, dando sempre oportunidade a estas pessoas. Um destes vigias que trabalhou comigo muito tempo foi o Nequinha, alfaiate que já faleceu entretanto. Os serviços florestais eram um serviço muito importante naquela altura. Nós tínhamos que fazer pagamentos três vezes por quinzena, para que as pessoas não ficassem muito tempo à espera do dinheiro. Nós chegámos a juntar cerca 180 pessoas a trabalhar no Rio Baceiro. Havia um viveiro na Cerdeira, onde se produziam milhares de plantas, a entrega ao trabalho era tão grande, que vinha gente de Carção e de Argozelo, dormir domingo à noite e só voltavam no sábado.

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O que falha agora na vigilância dos incêndios?

Falha a vigilância que é feita. A administração tinha dois camiões, dois caterpillar, um cilindro e um tractor. Tínhamos a Serra da Coroa com 6 casas florestais, Montesinho com 5, Deilão com 10 e a Serra da Nogueira com 8 e tudo ligado em rede. Eram meios próprios muito importantes e havia o factor mais importante: pessoas.

Na sua opinião, o público está mais atento aos problemas florestais e ao ordenamento do território?

A vida das pessoas agora é muito diferente. Mas sinceramente, não. Evidentemente que a população antigamente dependia mais da floresta, mas agora assiste-se a um esvaziamento de população e abandono das aldeias. E não vejo meios que cativem a população para vir viver para as aldeias. Está tudo muito abandonado, não sei onde isto vai parar. Por exemplo, na minha aldeia existe muita produção de castanha e as pessoas não conseguem sequer apanhar a castanha que se produz e têm que recorrer a “meias”, uns dias vão para uns, noutros para outros.

A caça também foi sempre uma paixão sua...

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Sim, a caça sempre foi uma paixão que tive. A caça é um elo inquebrável que juntou amizades para toda a vida.

Quais são os problemas que a caça enfrenta hoje?

A caça vinga com duas acções, uma de fomento e outra de fiscalização e nem uma coisa nem outra neste momento existem. Havia um controlo muito rigoroso, na minha altura. Imagine uma brigada que saísse tinha que fazer um plano prévio, com o detalhe para onde ia, a que horas saía e no final tinha que fazer uma menção do que foi vistoriado, assim como o relatório do que foi fiscalizado. Cada equipa levava um rádio e a qualquer altura podiam ser contactados. Havia produção de perdizes, captura de coelhos. Neste momento, não existe nada…

A certa altura a caça foi reorganizada…

A caça foi dividida em zonas de caça nacionais, exploradas pelo Estado, as associativas, municipais, e turísticas ou sociais. Mas eu acho que as pessoas que já se convenceram que a caça e a pesca têm de ser fomentadas, porque estas duas áreas naturalmente já não vão lá.

A caça, em Trás-os-Montes chegou a ser um motor de desenvolvimento turístico...

Ai foi! Sim e eu criei uma das zonas de caça turística, através da Turicorço. Quando constitui a empresa, apareceu-me o presidente da câmara do Porto, Paulo Vallada a pedir participação na empresa. Todos os meses eu tinha caçadores do Porto, de Lisboa, de Aveiro, dos mais diversos pontos do país, para fazer esperas aos javalis e aos corços. Que agora já não existe porque recebemos um parecer negativo do Parque Natural do Montesinho. No entanto, considero que Trás-os-Montes deveria fomentar este modelo que é muito lucrativo. Esta zona de caça tinha 2400 hectares com dois guardas. Esta paixão mobiliza muitas pessoas e é um motor de desenvolvimento económico. Tenho um lema de curso que diz o seguinte: luta, derruba, vence, essa é a tua lei. E mais posso-lhe dizer que quando me reformei, isto não é por vaidade mas fui homenageado num jantar onde estiveram 720 pessoas, foi um marco na minha vida, numa festa de despedida, onde esteve o Ministro da Agricultura de Portugal e de Espanha.

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