Entrevista

“A saúde em Torre de Moncorvo não está a funcionar no interesse das populações

Maria de Lurdes Pontes é a candidata do PS ao município de Torre de Moncorvo, vila de onde é natural. É professora e já foi presidente da junta de freguesia de Moncorvo. Aos 55 anos apresenta-se, pela primeira vez, na corrida à liderança da câmara. Uma candidatura “com responsabilidade para consegui

30 ago. 2017, 18:26

Este artigo tem mais de um ano

Maria de Lurdes Pontes é a candidata do PS ao município de Torre de Moncorvo, vila de onde é natural. É professora e já foi presidente da junta de freguesia de Moncorvo. Aos 55 anos apresenta-se, pela primeira vez, na corrida à liderança da câmara. Uma candidatura “com responsabilidade para conseguir pôr Torre de Moncorvo novamente em cima.”

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Débora Lopes / Teófilo Vaz

O que é que motivou esta candidatura?

Não é uma resposta simples, porque a motivação tem a ver com a minha história de vida. Desde muito nova que me interessei pela política, acho que a política é uma causa nobre, principalmente a política local, é uma causa em que nós dispomos parte da nossa vida e do nosso conhecimento para tentarmos que os nossos e as pessoas que vivem no nosso concelho tenham uma vida melhor. Ao ver que algumas coisas não estariam do meu agrado porque tenho uma forma de vida bastante democrática, achei que era altura de me candidatar ao concelho de Torre de Moncorvo, porque há coisas que se podem fazer de forma diferente e na minha candidatura não sou só eu, existe um grupo de pessoas, é uma candidatura que não é por vaidade. Por isso a nossa frase é “juntos somos mais fortes.”

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Considera-se uma herdeira de Aires Ferreira, responsável durante quase trinta anos, pelo concelho de Moncorvo?

Uma herdeira não digo. Claro que eu estive com o Aires Ferreira, o meu pai esteve nas suas primeira e segunda candidaturas, era o candidato vitorioso a presidente da mesa da assembleia e eu acompanhei todo o percurso. Sou uma candidata herdeira dos valores democráticos de Aires Ferreira.

Mas, entretanto, Moncorvo perdeu alguma centralidade. Isso terá resultado dos mandatos de Aires Ferreira?

Penso que não. O Aires Ferreira foi sempre um homem que se debateu, independentemente do governo que estivesse no poder, para pôr o concelho de Torre de Moncorvo à frente. A apatia destes últimos quatro anos, em que houve um governo PSD, actualmente está um governo do PS e o actual executivo nunca se moveu em relação à saúde, nem ao ensino. Nunca vimos fazer nada para que nós continuássemos a ser centrais.

Faz uma avaliação negativa do que foram os quatro anos de mandato do PSD no concelho de Torre de Moncorvo?

PUBLICIDADE

Eu não sou uma pessoa que fale muito pelo negativo. Esta é uma candidatura pela positiva e pelas pessoas. Eu tenho uma forma diferente de ver a governação, a pessoa que for eleita, é só o representante e tem nas suas mãos resolver os problemas, defender as nossas gentes e projectar, não para o presente, não para o imediato, mas projectar o concelho para o futuro.

Falou em projectar o concelho para o futuro. Quais são as suas prioridades, caso seja eleita?

Antes das áreas prioritárias é preciso fazer um real diagnóstico do concelho de Torre de Moncorvo. Tivemos um grupo a trabalhar no assunto e ficou óbvio que o maior problema é a desertificação humana. Além de ninguém vir de novo, temos os nossos jovens todos a sair. Há uma desertificação, temos cada vez menos gente, temos jovens que são quadros superiores e que não têm onde trabalhar. O único trabalho que durante algum tempo tiveram foi o trabalho precário , aqueles estágios de um aninho, nove meses… mas a seguir não há trabalho, não há procura nas empresas, no município, nas associações. Logo, o principal é a fixação de pessoas, haver medidas para fixar as pessoas. Fixar os jovens casais, porque temos uma taxa de natalidade baixa e temos cada vez menos jovens, o que temos mais é a terceira idade.

E que propostas concretas é que, se chegar à câmara de Moncorvo, tem para apresentar no sentido de proporcionar a fixação de gente nova?

Nós precisamos de olhar para as empresas e haver uma isenção fiscal de certas empresas. Procurar quem possa investir na nossa região e para isso tem que haver confiança no próprio município. A câmara tem zonas industriais em que pode perfeitamente vender o metro quadrado a um euro para que as pessoas se instalem, para que criem trabalho, para que haja emprego. Por exemplo, se empregarem quadros superiores dos nossos, pode pôr-se isenção na derrama. Temos que criar é condições para que haja empresários que olhem para a nossa zona como uma zona de desenvolvimento.

PUBLICIDADE

A barragem do Baixo Sabor, que foi intensamente defendida por Aires Ferreira nos seus mandatos, tem tido efeitos positivos na economia de Moncorvo?

A barragem do Baixo Sabor teve alguns efeitos positivos aquando da sua construção. Terá alguns efeitos positivos para o cofre do município, porque já se deve estar a receber algumas mais valias da barragem do Baixo Sabor. Temos que deixar de ter o nosso quintalzinho, nós temos que trabalhar em conjunto com as câmara à nossa volta, temos de ter projectos comuns e só aí é que conseguimos dar a valência à barragem de Moncorvo, aos lagos e tudo o que podemos fazer daí para o turismo, assim como temos de nos virar também para os nossos amigos espanhóis, com quem temos muitas coisas em comum. Nós estamos perto da fronteira e para a parte turística e comercial, fará com que haja também a fixação de pessoas.

Admite que o troço do IP2 no concelho de Moncorvo pode permanecer sem solução?

Não. Tem que se arranjar uma solução, tem que se negociar, tem que se ouvir as pessoas e arranjar a melhor solução.

Relativamente à mobilidade dentro do concelho de Moncorvo, considera que as populações estão a usufruir dos direitos básicos de circulação interna de deslocação à vila e entre as diversas localidades do concelho. Os transportes servem a população?

PUBLICIDADE

Não, não servem na totalidade a população. Durante a fase lectiva existem vários transportes a várias horas do dia. Quando os meninos estão de férias, os transportes são muito fracos.

Então e que soluções pode perspectivar para essa situação?

Fazer um acordo diferente com a empresa que presta os serviços.

… e se a empresa não estiver interessada em ocupar as linhas?

Torre de Moncorvo também tem um autocarro e é uma questão de se pensar e ver como é que o assunto pode ser resolvido.

Pensa que é possível que a câmara possa desenvolver uma rede de transportes municipais?

PUBLICIDADE

Uma redezinha pode. A nível de vila, tivemos um transporte dentro da vila que ajudava as pessoas de mais idade a irem ao centro de saúde ou às suas compras. Estou a pensar em pôr novamente um transporte para os idosos se poderem deslocar dentro da vila.

O que é que não foi feito até agora em Torre de Moncorvo, que no seu entender, era essencial para o desenvolvimento do concelho?

Por exemplo o apoio aos jovens. Normalmente são lembrados de quatro em quatro anos. Os nossos jovens estão cada vez a sair mais de Torre de Moncorvo para procurarem o estrangeiro. Não lhes foram dadas perspectivas de futuro, não foi dado apoio à habitação jovem, não houve cursos profissionais de forma a que o jovem em Moncorvo pudesse tirar aqueles cursos, muitos jovens não vão para o ensino superior, querem ter logo a sua profissão e portanto, dar a possibilidade de tirar um curso de electricidade, de mecânica na vila e depois ajudá-los a fazer as suas pequenas empresas por conta própria. Embora os privados é que tenham que investir, mas o município tem que ajudar os mais novos a entrar no mercado de trabalho. Penso que em relação à juventude faltou tudo, a única coisa que houve foram aqueles empregos precários para ir entretendo e depois acabam e eles vão embora.

Também em relação à parte do turismo, fizeram-se muitos filmes, saímos em muito noticiário, mas o que é que se ofereceu ao turista em Moncorvo? Isso tem que ser muito bem pensado, porque o turista quando vai a um local como Torre de Moncorvo, que é uma vila muito bonita, temos monumentos muito bonitos e temos que ter as nossas características, porque um povo sem a sua cultura própria, é um povo sem alma. Ninguém vem de uma grande cidade para Moncorvo, para ir depois a um restaurante comer um bife com batatas fritas. Tem que haver todo um relacionamento entre o município, as associações de comerciantes, as associações da parte de hotelaria, não é só dizer que queremos turistas, temos que oferecer ao turista algo que ele não encontre no sítio de onde vem. Por exemplo, acabamos com o que é emblemático para Torre de Moncorvo, que foram as festas da amendoeira em flor. O nosso produto mesmo é a amêndoa. Temos a amêndoa coberta que agora é UGP a nível europeu e fazermos uma festa valorizando o que é nosso, isso é que chama o turismo, não é fazermos festas iguais às que há de Norte a Sul do país. O turismo tem de ser um turismo que tenha a nossa cultura, que tenha a nossa alma, isso é que é turismo.

Este poder municipal só está lá há quatro anos. Durante as décadas anteriores não foi possível promover esse turismo de qualidade, com as características de que agora fala?

A festa da amendoeira em flor, que atraía muitas pessoas a Torre de Moncorvo, assim como nós tínhamos, durante a festa da amendoeira em flor, a feira de artesanato mais antiga do país, que também acabou, isso existiu durante décadas. Foi feito um corte e nós não devemos acabar com o que estava bem. O que está bem continuarei, não quer dizer que o que estava bem feito há 15 anos, eu hoje fizesse da mesma forma. Uma feira da amendoeira em flor hoje em dia, tem que ter um formato completamente diferente do que tinha antes, assim como uma feira de artesanato, porque vem muita gente e porque vem à amendoeira, tem que ser a nossa amêndoa coberta como centro, mas depois nós temos todos os outros produtos da região, que têm que ser mostrados e valorizados. Isso é que é o verdadeiro valor e o que pode impulsionar o comércio e mexer com o concelho de Torre de Moncorvo.

Considera vantajoso para Torre de Moncorvo, estar na CIM Douro em vez da CIM Terras de Trás-os-Montes?

PUBLICIDADE

Eu vou dizer uma coisa que não é politicamente correcta, mas penso que deveria haver uma única CIM, porque quanto mais nos dividimos menos força temos. Quanto a pertencer à CIM Douro, penso que foi uma boa escolha.

Relativamente ao sector do ensino, quais são as suas perspectivas para este sector em Torre de Moncorvo?

Nós temos o ensino básico em que uma parte tem a ver com o município. Temos as prés, temos a primária e depois temos o outro ensino que tem a ver com o nacional. No ensino em Moncorvo têm-se perdido cada vez mais crianças, cada vez mais jovens vão estudar para fora do concelho. Talvez devido a não haver áreas profissionais, pois existem várias escolas que já têm essas áreas e em Moncorvo não existem…

Relativamente à saúde, Moncorvo também teve, em tempos, uma estrutura naturalmente mais alargada do que aquilo que actualmente acontece. Considera que as coisas estão, de facto, a funcionar no interesse das populações?

Não, não estão a funcionar no interesse das populações, isso nem pensar. Nós em Moncorvo tivemos uma altura em que dois médicos estavam de baixa, em que tínhamos de escolher a hora para estar doentes. Havia um papel afixado em que nós podíamos esta doentes, imagine, das 10h às 14h e depois só das 16h às 17h. Mesmo hoje, o não haver as 24 horas, o não termos direito a termos uma hora e podermos ir ao médico, haver uma urgência, é mesmo muito mau, é mesmo degradante para as populações. Acho que das coisas mais importantes e que tem de se mexer e que tem que se negociar com o governo, nós temos condições para estar abertos as 24 horas, temos condições para ter mais valências de especialidades. Se temos essas condições só temos que ter mais médicos e tem que haver vontade política para que tal aconteça.

Uma outra questão Moncorvo é o concelho com maior número de incêndios e com mais intensidade e maior devastação, no distrito. Considera que a Protecção Civil municipal e as estruturas que existem, para o combate a estes incêndios, precisam de remodelação ou são suficientes?

PUBLICIDADE

Tivemos este ano o maior incêndio de sempre na Serra do Reboredo. Já ardeu por partes várias vezes, mas sempre se conseguiu parar o incêndio por faixas. Existe uma faixa de protecção da mata do Reboredo, de 50 metros em toda a volta e depois existem as faixas corta-fogos e tem-se conseguido… Desta vez ardeu desde a Açoreira até aos limites da Serra do Reboredo e parou no Carvalhal. Foi muito mau. Eu sou muito pela prevenção, o funcionamento depois, tem a ver com os meios disponíveis naquela hora. Se estão a arder mais quatro ou cinco concelhos à volta, é difícil que num ápice estejam todos em Moncorvo. Eu gostava que estivessem, quando vi aquilo a arder e fiquei em pânico. Acho que a prevenção ficou muito aquém.

… e o combate?

O combate, talvez com mais uns aviõezitos assim logo, aquilo fosse mais simples, mas eu penso que ninguém… as casas foram logo protegidas, mesmo aquelas que ficaram no meio do monte, não ardeu nada, foi tudo muito bem visto em relação a casas e a pessoas nas aldeias. Sobre isso não há que falar. A mata da forma que estava a arder só mesmo de avião e helicóptero. Era quase impossível.

PUBLICIDADE