A tempestade Kirk, que na semana passada varreu o país, provocou grandes estragos, não só no que toca à queda de árvores e estruturas, mas também aos agricultores. Na região, a cultura da maçã, da azeitona e da castanha sofreu as consequências das fortes rajadas de vento, acompanhadas de chuva. A Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil registou, entre terça e quarta-feira, milhares de ocorrências devido ao mau tempo, a grande maioria relacionadas com a queda de árvores, que em muitos locais tombaram em cima de carros e de casas, bem como no meio de estradas, impedindo a passagem de pessoas e veículos. Apesar de não terem caído em cima de ninguém, no distrito de Bragança também tombaram várias árvores, para desgraça dos agricultores. Várias toneladas de maçã, azeitona e castanha também não escaparam à intempérie.
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Maçã Golden foi ao chão
José Reixelo é produtor de maçã há mais de 20 anos. Tem cerca de 40 hectares desta cultura em Carrazeda de Ansiães e, na semana passada, várias partes do terreno ficaram cobertas de maçãs. Quando a intempérie lhe varreu os pomares, José Reixelo andava a apanhar a maçã Golden, variedade mais tardia. A que não fora ainda apanhada caiu ao chão. “As árvores que ainda tinham maçã estavam carregadas. A maçã que caiu é aquela que estava nas árvores um bocadinho mais expostas. Também caiu num ponto mais alto que tenho na quinta. Em duas linhas de árvores caiu a maçã toda”, contou o agricultor, que assegurou que caiu 30 a 40% dessa variedade. O prejuízo, está claro, “é grande”. A maçã já não pode ser vendida para o fresco, o que significa que será comercializada a um preço menor. “A maçã que caiu já estava madura, pronta para apanhar, mas ficou danificada. Alguma tem pequenos toques mas nunca mais serve para ir para os mercados”, esclareceu, explicando que será despachada, agora, para sumo. “No meu caso também consigo utilizar alguma para cidra”, assinalou ainda. A fruta que conseguiu ficar nas árvores terá de ser apanhada o quanto antes já que a chuca acelera o processo de amadurecimento. Em termos de números, segundo disse o agricultor, o prejuízo ronda os 20 mil euros. E não foi só a fruta que sofreu, três centenas de árvores também não resistiram ao vento. “Apesar do prejuízo, as maçãs voltam a nascer, mas as árvores não, têm de ser replantadas naquele sítio. São muitas árvores”, explicou José Reixelo. O agricultor tem seguro, mas não cobre o que aconteceu e, por isso, terá de arcar sozinho com o prejuízo. “O seguro só cobre o granizo e a geada. As coberturas são-nos propostas e não sei se isto já vem do Governo, não sei, mas não há nada a fazer”, lamentou.
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Mais de metade da maçã que ainda estava na árvore caiu ao chão
Segundo o técnico da Associação dos Fruticultores, Viticultores e Olivicultores do Planalto de Ansiães (AFUVOPA), o mau tempo veio numa altura que decorre ainda a campanha e “30%” da maçã ainda estava por apanhar. Devido à chuva e ao vento “mais de 50%” da maçã caiu ao chão e algumas árvores também ficaram danificadas. “Maçãs que estavam perfeitas para ir para o mercado e agora estão no chão”, disse Duarte Borges. A maçã agora apanhada do chão está “desvalorizada” e já não pode ser vendida em fresco, acabando por ir para indústria, a um preço bem mais baixo. O mau tempo já na fase final da campanha veio assim provocar uma “quebra acentuada” para os agricultores, que se traduz em “prejuízos avultados”, ou seja, “perda de rendimento”. O técnico da AFUVOPA disse ainda que a intempérie trouxe também consequências para os produtores de azeite, embora com menor gravidade em relação à maçã. “No olival vemos alguma azeitona no chão, nalgumas zonas da encosta”, adiantou.
Azeitona “foi à vida”
No concelho de Carrazeda de Ansiães, no que à azeitona diz respeito, os prejuízos podem não ter sido assim tão grandes, mas por Macedo de Cavaleiros, pelo menos para Luís Reis, foram dramáticos. O agricultor tem cem hectares de olival em Talhas e Talhinhas e estima que o prejuízo seja de cerca de um milhão de euros. “Apesar de a oliveira ser bastante resistente, mesmo as intempéries, o prejuízo ronda os 30 a 40% de produção. Esperava-se um ano bom e isto desanima muito. O quilo da azeitona, no ano passado, rondou os 90 cêntimos a um euro. Vamos imaginar que se colham aqui quatro milhões de quilos, 20/30% desse valor é cerca de um milhão. O prejuízo ronda mais ou menos esse valor”, esclareceu o agricultor. Segundo Luís Reis, naquela zona “há bastante produção” porque “as pessoas trataram das árvores para estarem em condições para, realmente, terem bastante produção”, ou seja, o investimento foi todo por água abaixo. “Tratam-se as árvores para ter mais produção e este ano por acaso havia bastante mas, agora, cerca de 30% foi à vida”, lamentou. Quanto à azeitona que caiu, ao contrário da maçã, não há nada a fazer. Verde não serve para nada. “As árvores, há cerca de duas semanas, tinham a azeitona bastante seca e precisavam de chuva. A chuva veio e elas cresceram, mas quanto à que caiu, acabou. Nada a fazer”, esclareceu Luís Reis. O agricultor também tem vários seguros mas “os seguros, na parte da azeitona, não pagam o prejuízo que se tem”. “Vamos fazendo vários seguros, alguns até somos obrigados, quando há, por exemplo, projectos mas, depois, quando vamos reclamar nunca se ajuda o que deveria ajudar nestas questões”, disse, assinalando acreditar que “o Governo tem de alterar a situação dos seguros ao nível das produções agrícolas”.
Os ouriços não resistiram ao vento
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Também na castanha houve prejuízos. José Afonso, é da freguesia de Oleiros, tem cerca de 8 hectares de castanheiros e diz que o pior da tempestade foi o vento porque “caíram muitos ouriços e caíram muitos canos, que são os “rancos” das castanhas”. Por ano, diz que consegue colher cerca de 12 toneladas de castanhas e com a tempestade, estima que 10 a 15% da produção é capaz de “ter ido embora”. Ainda assim, mostra-se optimista e garante que “não foi tão grave como foi nos outros sítios”. “Isso, as previsões não se podem dizer, porque os anos são diferentes de uns para os outros. Não sabíamos a produção que íamos ter. Para já, a seca foi grande. Começou-se por ver que a colheita que não ia ser muita. Agora, com esta chuva, uma pessoa já ficou um bocado mais satisfeita, mas veio este temporal. Aqui os danos não foram assim por aí além, 10% da produção é capaz de ter ido embora. Mas não é assim uma coisa muito grave como foi nos outros sítios”, referiu. Quanto aos prejuízos diz que de raíz, partiram “duas/ três árvores”, que o pior são os galhos de 16 castanheiros e os ouriços que caíram, porque essa castanha “já não é recuperável”, pois “os ouriços que caíram já não abrem”. João de Deus Martins, de Terroso, tem cerca de dois hectares de soutos. Afirma que este temporal lhe causou “muitos estragos”, nomeadamente “castanheiros grandes partidos” e os ouriços ainda que verdes, muitos “caíram ao chão”. “Ora são cinco que estão partidos, espartiçados mesmo, canos grossos. Agora, para apanhar a castanha, tenho de tirar aqueles ouriços e aqueles canos grossos e voltar a limpar tudo por baixo do castanheiro”, explicou. Também Olímpio Fernandes teve muitos estragos, castanheiros partidos e ouriços no chão. Mas apesar do mau tempo prejudicar “bastante” a campanha deste ano, mantém-se optimista e afirmou mesmo que “ainda se aproveita alguma coisa”. Tanto João de Deus como Olímpio Fernandes afirmam que não há ajudas para os estragos causados e que o prejuízo maior agora, é ter de repetir um trabalho que já tinha sido feito. Tendo-se a campanha da castanha atrasado cerca de duas semanas, os estragos provocados pela tempestade Kirk, não vieram ajudar.
Vento teria sido uma ajuda se a castanha estivesse madura
Segundo Abel Pereira, presidente da ARBOREA – Associação Agro-Florestal da Terra Fria Transmontana, no concelho de Vinhais também há prejuízos a registar. “Há zonas onde houve algumas quebras provocadas pelo temporal. O vento e as chuvas intensas acabaram por deitar ouriços abaixo e, como a campanha está atrasada, a castanha que caiu não serve para nada”, contou, dizendo que “se a castanha estivesse madura até seria um bom processo para acelerar a colheita”, mas o facto é que “está atrasada e não tem maturação”. No concelho de Vinhais os maiores estragos registaram-se na zona de Lomba e, para já, em termos de quebras, não se sabe quanto é que pode representar o que a tempestade Kirk deitou abaixo.
CAP pede revisão do sistema de seguros
Na sequência dos estragos causados, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) já demonstrou solidariedade para com os agricultores afectados pela tempestade e, em comunicado, alerta para a necessidade da “rápida disponibilização dos apoios”. Segundo os dados recolhidos pela CAP junto das organizações suas associadas, sobretudo na região do Douro, com especial incidência em Carrazeda de Ansiães, Lamego e Armamar, a “violência” do vento e da chuva “provocou estragos que não só comprometem a produção da actual colheita”, nalguns casos “acima dos 40%”, impondo “prejuízos imediatos” e “avultada” perda de rendimentos aos produtores, como “também coloca em causa a capacidade produtiva futura e a viabilidade da sua actividade”, atendendo aos “extensos danos verificados em infraestruturas e sistemas produtivos”. Além de estar “totalmente solidária com os agricultores afectados”, a CAP alerta para a necessidade de o Governo “proceder à avaliação técnica e económica dos estragos em causa com máxima prioridade”, garantindo assim a “disponibilização célere dos devidos apoios aos agricultores”. E perante a maior frequência de fenómenos climáticos adversos e extremos que se tem verificado, a CAP reitera ainda a “necessidade de revisão do sistema de seguros para a actividade agrícola” para “contemplar e garantir” cobertura do capital produtivo em situações como esta.
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