Entrevista

Júlio Meirinhos, grão mestre da maçonaria regular: “Há um quarto de século que estou na maçonaria activamente, todos os dias”

A Maçonaria continua a ser alvo de especulação na sociedade que vive fora dela. O secretismo ou discrição são muitas vezes questionados e associados a poderes ocultos. Com a intenção de desmistificar aos jovens o papel desta sociedade, Júlio Meirinhos, transmontano e Grão-Mestre da Grande Loja Lega

22 nov. 2017, 11:08

Este artigo tem mais de um ano

A Maçonaria continua a ser alvo de especulação na sociedade que vive fora dela. O secretismo ou discrição são muitas vezes questionados e associados a poderes ocultos. Com a intenção de desmistificar aos jovens o papel desta sociedade, Júlio Meirinhos, transmontano e Grão-Mestre da Grande Loja Legal Portuguesa esteve no Liceu de Bragança para falar sobre esta instituição que integra há 25 anos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O Jornal Nordeste conversou, com um dos homens mais influentes da região, ex-presidente da câmara de Miranda do Douro, antigo Governador Civil, ex-deputado pelo distrito de Bragança e o responsável pelo reconhecimento da língua mirandesa como segundo idioma oficial de Portugal.

Débora Lopes

O que é a maçonaria?

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

É uma instituição de valores e é um sítio que faz com que os candidatos se tornem homens de bem, de ética, de cultura, professem e lutem por princípios de liberdade, de tolerância, de fraternidade, da serenidade. Homens que contribuam para que a sociedade aplane as suas dificuldades, para que sejam activos, para que lutem contra a ignomínia e o obscurantismo, para que estejam ao lado dos humildes e dos que mais necessitam.

Como e quando é que surgiu?

A maçonaria tem as suas primeiras expressões escritas a partir de 925 d.C. e fez um período fundamental através da maçonaria operativa. São pedreiros livres, são uma classe que transmite verdadeiramente conhecimentos, talvez um sindicato com princípios, com regras, uma instituição que velava pelas viúvas, pelos mais necessitados e que construíram as catedrais da idade média, até que em 1717, há 300 anos, o templo deixou de ser a catedral para ser o ser humano, o homem e, trabalhar a partir dele, os princípios tão conhecidos como os princípios da revolução francesa, liberdade, igualdade, fraternidade e fazer nesse longo percurso um papel de tentar fazer o homem melhor. É esse o grande percurso da maçonaria.

Alguém disse aqui que não é uma sociedade secreta, mas ainda existe muito essa crença de que há um secretismo no que ali se faz…

A maçonaria é uma instituição aberta, escrutinada, paga impostos, não depende do Estado, sabe-se onde estão as suas sedes, todos os seus sítios de reunião. Não é secreta, portanto, nem sequer chega a ser discreta. Desde sempre me assumi há 25 anos e só se assume quem quer. É compreensível que no regime de meio século de ditadura, que proibiu a maçonaria porque colidia com o regime político, como colide com as ditaduras, que os obreiros tivessem medo das perseguições, da sua vida, das famílias e por isso eram discretos porque senão podiam arriscar a morte e o prejuízo da sua família. Hoje não se justifica, nos países civilizados e evoluídos, em que a maçonaria deu passos importantes em toda a humanidade, na ciência, nas artes, na cultura, é um orgulho ser-se maçon e a instituição continuar ao serviço da humanidade.

PUBLICIDADE

Que obediências há em Portugal?

Em Portugal, como em todo o mundo, há duas correntes fundamentais: a maçonaria regular, que corresponde hoje em dia a 82% da maçonaria do mundo, a começar pela Inglaterra, Brasil, França, Índia e nós e a maçonaria irregular, que admite agnósticos e ateus. A nossa crença é no grande arquitecto do universo, em Deus, Deus não revelado, livre. Mas existem, portanto, outras obediências que são chamadas irregulares, que estão e que convivem connosco, mas que acolhem agnósticos e ateus, o que não é possível na nossa e também são bons maçons e também trabalham pelo bem do povo e pela liberdade e, portanto, é possível conviver dessa maneira.

A maçonaria serve para controlar a justiça, a política e mesmo os negócios?

Gostava que ajudasse a controlar os decisores, todos aqueles que têm de tomar decisões e trabalhar ao serviço do povo, porque o que nós queremos é que os nossos princípios toquem o dirigente em todo e qualquer sítio. Na mais pequena empresa, numa câmara, no parlamento, no governo, num café… para que sejam homens de ética, de valor, de bem. Que sejam diferentes, que se notem diferentes, que em casa sejam exemplos para a família. Agora a maçonaria não domina, não controla, rejeita, não permite discussões políticas nem religiosas no seio das suas lojas. É um sítio onde se juntam, onde se aceitam todas as religiões pacificamente, tal e qual como vem já defendendo o Papa Francisco e que para manter a harmonia das lojas, não são admitidas discussões políticas ou religiosas. Tratamos temas políticos, mas o tema político, desde o ambiente, ao interior, aos fogos, àquilo que seja, é sempre em prol do Estado português e do cidadão.

Mas ainda há muito essa ideia na sociedade de que a maçonaria é um órgão controlador…

PUBLICIDADE

Sim. Mas esses conceitos vêm de há décadas atrás e eu desfaço completamente essa situação. Tenho uma obediência de perto de três mil obreiros e como é uma elite intelectual também que aí se reúne, é normal que esteja em todo e qualquer sector da sociedade portuguesa. É mais que normal e é bom que o seja. E ao estar lá, eu quero que eles sejam diferentes, que sejam referências da sociedade, onde lhe são proibidas negociatas ou negócios, onde lhe é exigível que estejam ao lado dos mais necessitados e que ensinem, que lutem contra o obscurantismo, contra a ignomínia, contra a ignorância, porque os grandes maçons deram pulos importantes nas sociedades.

Quem é convidado para entrar na maçonaria?

São convidados apenas homens livre e de bons costumes, tanto rico como pobre, que seja licenciado ou não seja, porque a sua perfeição, que é simbolizada no altar numa passagem de uma pedra bruta, de um calhau, até à pedra polida, isso compete-nos a nós, ao ensinamento, ao estudo e fazer deles homens cultos e livres. Os requisitos, portanto, são só esses: homens livres e de bons costumes. Não por serem ricos, não por terem 100 milhões de euros. Têm de ser propostos por dois mestres, que conhecem, que têm o perfil para serem ainda homens melhores. Não procuramos homens perfeitos. A essa perfeição tentaremos ajudar que cheguem no seu caminho individual.

É preciso pagar para entrar na maçonaria?

Nós não temos subsídios de Estado, não herdamos nada e vivemos apenas das nossas contribuições, que é o equiparado a uma refeição por mês. Há um voluntariado muito grande, porque se sentem orgulhosos de estarem numa audiência dessas, têm uma grande alegria, dizem que as reuniões, que são mensais na província e duas vezes por mês nas cidades, que são poucas, porque sentem a necessidade de se sentirem junto dos seus irmãos, trabalharem e aprenderem. Eu há um quarto de século, 25 anos que estou na maçonaria activamente, todos os dias. Todos os dias vejo, circulo, estudo e considero-me um eterno aprendiz.

PUBLICIDADE

É verdade que entre essas ajudas que os irmãos dão uns aos outros, também está incluído, por exemplo, arranjar trabalho aos outros membros?

Todos os obreiros são iguais na sociedade, são meus irmãos. Portanto, em situação de igualdade eu velo pelos meus irmãos, por todos, e pelas viúvas e pelos filhos que possamos ajudar, mas em nada isso pode equiparar-se em ultrapassar a lei, o mérito de qualquer cidadão que seja maçon ou não maçon, de forma nenhuma. Isso é uma coisa que nós combatemos, essa ideia de que se vai ali para arranjar um emprego, um benefício, é algo que alguém tem de tirar da cabeça, porque não é o sítio para tratar desses assuntos.

Se a igualdade é um princípio pelo qual se regem, por que é que as mulheres não podem entrar na maçonaria?

As mulheres devem entrar na maçonaria, é bom que entrem na maçonaria, são fundamentais à humanidade e têm um papel nuclear. Aliás, todos os avanços do direito ao voto, do fim da pena de morte, da escravatura, à maçonaria se deve. A declaração universal dos direitos humanos é a maçonaria que a escreve. A criação de instituições como a AMI, a Cruz Vermelha, os Rotários, os Escuteiros, é à maçonaria que se devem e, portanto, a mulher tem um papel fundamental. O que nós dissemos é que nós trabalhamos melhor se formos só nós homens e a mulher trabalhar melhor se estiver numa obediência de mulheres e esse é um dos requisitos das regras fixadas em 1723 e que são irrevogáveis. Por isso é que somos reconhecidos por Inglaterra e neste caso concreto por 243 potências no mundo. São respeitadas, são ajudadas, eu tenho canalizado muitas mulheres para a grande loja feminina, que trabalha com muita seriedade e com grande rigor.

O que é que implica na vida de uma pessoa, a entrada na maçonaria?

Uma disponibilidade para dar mais do que receber, porque terá uma grande alegria quando se sentir realizado, quando sentir que é útil a outros e essa é uma riqueza fantástica. Se me disserem eu na maçonaria, a minha vida pública foi de eleição em eleição, ninguém me nomeou pela maçonaria, lutei pela maçonaria, dei tudo o que pude pela maçonaria, estou em regime de voluntariado permanente, podia ter prejudicado toda a minha vida familiar e profissional, mas tenho um orgulho muito grande de pertencer à maçonaria e o que a maçonaria me deu e me enriqueceu como homem, é algo inexorável. Eu sei que sou muito melhor agora, desde que estou na maçonaria. Sou mais sereno, sou seguramente mais informado, mais culto e tenho o privilégio de pertencer a uma rede de milhões de irmãos em todo o mundo, porque se eu for à Argentina ou ao Paraguai e encontrar um maçon, parece que já o conheço há 40 anos.

PUBLICIDADE

Qual é o significado dos símbolos da maçonaria?

São símbolos que nós usamos para nos identificar e todos os instrumentos são simbólicos, tal como é simbólico tudo o que está num templo. Não há nada a mais, desde o malhete, o cinzel, uma pedra bruta, uma pedra polida, oitenta e um nós, a abóbada celestial desenhada correctamente, a cor do templo, a doze colunas onde assenta o templo, o templo de Salomão, que podem ser doze meses do ano, podem ser doze apóstolos, pode ter muita simbologia, ou o sol, símbolo da força e do poder, a lua, símbolo da feminilidade, os volumes da lei sagrada, as mesas em triângulo, que a igual distância do centro, da liberdade, fraternidade e igualdade, tudo é simbólico, nada é ao acaso, como nada é feito numa loja sem regras, sem oficiais, da forma de circular, do usar da palavra, do silêncio, da aprendizagem, tudo é ritual, tudo é simbólico.

Quando alguém sai, pede para sair ou é expulso da maçonaria, não há o risco de o mais secreto da organização ser revelado?

Sim, não há nada a revelar, por que o secretismo da maçonaria é o percurso interior de cada um na sua formação, esse é o secretismo, de resto, está tudo nos manuais. Há mais de 100 mil livros nas bibliotecas. Em França continua-se a escrever e escrever, na net está tudo dito. Quem sai, sai porque às vezes fica desencantado porque não conseguiu os seus objectivos e há regras muito apertadas. Um dia, provavelmente, pode regressar. Há outros casos, porque a disciplina é apertada, podem ser expulsos.

E pode sair-se mediante que condições?

Pode sair-se livremente, desde que entenda querer sair é-lhe passado um atestado Quit, que a sua situação financeira não está em processo disciplinar e sai livremente, pode descansar e se um dia quiser voltar, tem regras próprias para regressar.

O que acontece no ritual de iniciação?

PUBLICIDADE

A iniciação é uma cerimónia marcante. É uma das únicas instituições em que se inicia um percurso interior, em segredo, e essa é a iniciação em que a cerimónia faz com que comece uma vida nova um candidato. Por isso ele pára primeira numa cama de reflexão, vai ao interior da terra, é uma caverna, é preta, tem a simbologia da morte, tem ali muita simbologia que o faz pensar, tem ali a manifestação dos seus últimos desejos num testamento como profano e depois vai para a cerimónia. Depois de ter sido aceite, porque os irmãos confiam naquilo que ele escreveu, nas perguntas, esse testamento é queimado e, portanto, acredita nele. Esse percurso iniciático é isso mesmo, inicia individualmente em segredo o seu caminho numa instituição tão secular que o vai fazer um outro homem renascido. Por isso é simbolizado nessa câmara como ali morre para a vida profana e inicia uma vida nova, uma vida de esoterismo, do conhecimento, da cultura e esse é um percurso que nós fazemos através de juramentos perante muitas coisas e sempre salvaguardando os princípios da crença em Deus, grande arquitecto do universo.

É verdade que a maçonaria e a igreja católica não têm uma boa relação?

Isso são histórias. Em períodos em que o iluminismo, por exemplo, foi assumido pela maçonaria, se calhar a igreja esteve do outro lado do absolutismo e, se calhar, houve excessos de parte a parte e essas imagens que se têm. A maçonaria não é uma religião, acolhe todas as religiões e convive. Nós temos no nosso seio, como sempre tivemos, desde papas, cardeais, bispos e temos padres católicos na nossa obediência. Estive agora em Londres e eram imensíssimos padres anglicanos que ali estavam, em França, que eu conheço, só é a finura do cristianismo se eles quiserem trabalhar nesse sentido e não há nenhuma colisão, não há nenhuma afronta com a igreja, bem pelo contrário, ajudamos a igreja católica e outras igrejas para que a humanidade trilhe pela paz e pela tolerância e todos ajudamos, não somos exclusivos nem ninguém é exclusivo.

PUBLICIDADE