“Ir trabalhar para o Pavilhão do Conhecimento é um sonho tornado realidade”
Ivone Fachada, a directora executiva do Centro Ciência Viva de Bragança, foi escolhida para integrar a direcção da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, com sede em Lisboa. Começou as funções esta segunda-feira. Com 45 anos, Ivone Fachada integrava o centro brig
Ivone Fachada, a directora executiva do Centro Ciência Viva de Bragança, foi escolhida para integrar a direcção da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, com sede em Lisboa. Começou as funções esta segunda-feira.
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Com 45 anos, Ivone Fachada integrava o centro brigantino desde os seus 28, ou seja, desde que o espaço abriu, em 2007. Depois, em 2016, tornou-se directora.
Nascida em Mirandela, tendo rumado a Chaves aos sete anos e, depois, a Bragança, onde vivia desde os 18, Ivone Fachada é formada em Engenharia Florestal, tem mestrado em Gestão e Conservação da Natureza e, neste momento, é doutoranda na Universidade de Salamanca, na Formación en la Sociedad del Conocimiento.
Ivone Fachada, que deixa o centro com um sentimento de missão cumprida e com a firme certeza de que fica em boas mãos, disse, ao Jornal Nordeste, que o que está a viver é a realização de um sonho. Assume que se sente feliz pela mudança, tanto para a própria como para o Centro, e que o continuará a acompanhar de perto. Por cá deixa muito trabalho feito e por lá espera fazer tanto ou mais. É uma vida ao serviço da ciência.
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O Centro Ciência Viva de Bragança já existe na sua vida há 17 anos. Como é que surgiu a oportunidade de lá trabalhar e, depois, de se tornar a directora?
Quando o centro abriu foram feitas uma série de entrevistas e eu concorri. Fui seleccionada para ser a coordenadora do centro. As minhas funções prendiam-se muito com coordenar as equipas, assim como delinear um plano de actividades, juntamente com a direcção, para ser implementado. Estive nessa função durante nove anos, de 2007 a 2016. Nesse ano, devido à saída do director anterior, João Paulo Matias, fui convidada para ser directora.
Como foi, tanto a nível profissional como pessoal, todo este período?
Eu entrei lá uma jovem de 28 anos. Não tinha ainda muita experiência profissional, tendo trabalhado apenas como engenheira florestal, que é muito diferente, pois passa por andar no campo, fazer inventários florestais, trabalhar com sistemas de informação geográfica. Depois, passei para um mundo que eu também gostava muito, que é a comunicação e esta ideia de transformar em conteúdos simples ciência que é complexa, poder contribuir para explicar às pessoas como se faz ciência, bem como contribuir para que toda a gente tivesse acesso ao que é a ciência, sobretudo na nossa região de Interior.
Houve, de facto, uma mudança muito grande em 2016 porque, passando a ter uma função executiva, consegui levar a cabo uma série de projectos que já tinha pensado que, claro, inicialmente não eram necessários porque o centro e todas as exposições eram novas. Mas, com o passar do tempo, estes softwares e hardwares vão-se desgastando e era preciso haver renovação, de paradigma e estratégia. Assim, em 2016 começamos a pensar de que forma poderíamos concorrer a projectos de financiamento nacional e europeu, para compensar a necessidade de ter um orçamento maior, para, depois, comprar e instalar novos conteúdos científicos, aumentar a equipa, ter pessoas com melhores qualificações a trabalhar connosco e ter capacidade de dar resposta a esta mudança que era precisa na parte expositiva e de estratégia, termos uma oferta mais diversificada, porque trabalhamos tanto em educação não formal, como em comunicação de ciência, como em projectos tecnológicos. Tudo isso foi uma grande aprendizagem.
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Os últimos oito anos foram fantásticos porque se conseguiu renovar um piso inteiro da Casa da Seda, instalar, em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança (IPB), vários projectos, sendo que todos eles são sempre em parceria com o instituto e a câmara de Bragança, bem como com a Agência Ciência Viva que, como tem esta rede de 20 centros, muitos deles são, várias vezes, incluídos em projectos nacionais.
Posso afirmar que, na rede de 20 centros, Bragança é um dos que está sempre na dianteira e isso é um grande orgulho para nós.
O que é que o centro oferece e está vocaccionado para que públicos?
É essencialmente inspirar para a ciência. As pessoas podem visitar as exposições temporárias, sendo que, neste momento, temos, por exemplo, na Casa da Seda, está uma exposição chamada “O Cancro aos Olhos dos Cientistas”. No edifício sede temos uma exposição que se chama “Mitos e Histórias – Conhecer para Desmistificar”. Esta oferta temporária de exposições pode cativar qualquer visitante a, regularmente, criar o hábito de ir ao centro porque há lá sempre temas novos disponíveis, de ciência actual, que nos podem acrescentar à nossa cultura científica e dar ferramentas para depois tomar decisões mais conscientes.
Temos ainda exposições permanentes, que foram, recentemente, renovadas, principalmente de realidade virtual, com duas experiências imersivas muito interessantes. Na Casa da Seda temos uma viagem pelo Rio Douro e no edifício sede temos a “VR Spot”, uma viagem por quatro países, com quatro vídeos diferentes.
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Além das exposições, que são o selo do centro, no nosso caso, e na maioria dos centros, há também um plano de actividades associado. Para crianças temos oficinas todos os sábados, para alunos de doutoramento e mais para a comunidade do IPB temos os PubhD, em que os alunos vão a um bar explicar a sua tese de doutoramento, temos os cafés de ciência, para público dos 8 aos 88, temos actividades mais voltadas para a educação ambiental, como saídas de campo para identificação de cogumelos e de répteis e anfíbios, no Verão temos um programa todo dedicado à ciência no exterior, com várias actividades, ligadas à astronomia, geologia.
É completamente transversal toda a actividade que o centro faz e é para toda a comunidade. Qualquer pessoa pode ir lá porque há sempre coisas novas.
Quais são os grandes projectos que destaca deste tempo todo?
Tenho vários. Quero destacar dois que foram financiados pela Fundação La Caixa, um deles foi o Natureza Virtual, que aconteceu entre 2018 e 2022, que nos permitiu construir de raiz quatro novos módulos expositivos, dedicados à sustentabilidade. Foi um projecto muito importante porque é financiamento privado, o que significa que tivemos capacidade de o procurar, além dos nossos financiadores habituais, os nossos associados. Depois, temos o projecto Bio-Ilhas, ganho em 2023, para regiões transfronteiriças, sendo que vamos instalar no Rio Fervença, daqui a 15 dias, duas ilhas flutuantes, com plantas aquáticas, que vão ajudar na reabilitação dos ecossistemas. Vão ser instaladas outras duas no Rio Côa.
Tivemos também já quatro projectos Erasmus, três deles de educação de adultos, em que a nossa equipa, entre 2015 e 2019, fez uma série de formações, no estrangeiro, que nos permitiu crescer e ter uma bagagem mais interessante, em termos de museologia e actividades de envolvimento do público. Tivemos ainda outro projecto de realidade virtual, neste caso mais na linha de parcerias internacionais. Nós, com mais sete parceiros europeus desenvolvemos uma série de conteúdos, um deles um módulo VR, que está no centro, na sede. Foi um projecto de 400 mil euros.
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Quero ainda destacar outros projectos que afirmaram a condição de relevância do centro. Um dos projectos, em parceria com a Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes, teve a ver com o combate ao insucesso escolar, sendo que, nos nove concelhos que a abrangem e nos 11 agrupamentos de escolas, fizemos actividades desde o 1º ao 9º ano. Exigiu muito da nossa equipa. Os professores identificavam as necessidades e nós literalmente inventávamos experiências para ir dar aquela matéria de uma forma diferente.
Outro projecto que está a continuar é a Escola Ciência Viva, que acontece desde 2018/2019. Cada escola tem um programa específico. Tem ainda associado um programa de Escola Ciência Viva para professores. Além de todos os alunos de 4º ano poderem frequentar o centro, uma semana, todos os professores que vem com eles podem fazer formação. É um projecto que vai crescer porque vamos começar a incluir turmas de 3º ano. É transformador porque colocamos as crianças no centro de aprendizagem. Não é aquela forma típica de ensinar, em que o professor é o centro do conhecimento. Há aqui uma troca. As crianças trazem conhecimento para a escola e dizem o que querem investigar.
Para finalizar, um projecto bastante interessante para a região e até a nível nacional. Existem mais de 900 clubes Ciência Viva no país e o centro de Bragança monitoriza a trabalha com 20. Fazemos encontros regionais, trabalhamos em proximidade com os professores, ajudamos no que precisarem.
E agora, como é deixar o centro? Há um sentimento de missão cumprida ou há coisas que ficaram por fazer?
Vou bastante tranquila. Sei que a minha equipa está muito capacitada para dar continuidade aos projectos que estão a decorrer. Vou, sem dúvida, com o sentimento de missão cumprida.
Esta direcção cessante, composta ainda pelo Dr. Hernâni Dias e a professora Ana Isabel Pereira, conseguiu imprimir uma dinâmica muito interessante na cidade e região. Essencialmente há esse sentimento porque temos todas as parcerias estabelecidas. Tornar o centro como uma entidade muito colaborativa, com escolas e outras instituições, foi a nossa grande vitória. Sem dúvida temos de agradecer ao IPB, já que todo o conhecimento está lá, e à câmara de Bragança, que suporta financeiramente o centro, embora saibamos que é preciso aumentar este investimento, porque o custo de vida também subiu. Já subimos as condições salariais da equipa e agora é preciso que o município acompanhe, como sempre o fez.
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Tem firme certeza que o centro fica em boas mãos… como é que gostava de o ver daqui a algum tempo?
Gostava de o ver ainda mais internacional. Deixo o centro muito bem entregue. A minha colega Clotilde Nogueira é uma excelente profissional. Está perfeitamente familiarizada com todas as questões e está lá desde o primeiro dia. Tenho a certeza que fará um trabalho excelente. Além disso, vamos continuar a trabalhar à distância porque eu vou trabalhar na Agência Nacional Ciência Viva. Teremos muitas oportunidades de continuar a trocar ideias.
Tenho a certeza que o centro vai crescer mais e que daqui a um ano estará ainda mais cimentada a relação que temos com as escolas e a comunidade. Estou muito tranquila que vai correr tudo bem.
Como surge esta oportunidade para integrar a direcção da Agência Nacional Ciência Viva?
Surgiu bastante naturalmente. Nós já trabalhamos com a agência há 17 anos, conheço bem a direcção, temos muitos projectos em comum e encontramo-nos muitas vezes. Acho que foi o reconhecimento do trabalho que tenho vindo a desenvolver ao longo destes anos.
Eu aceitei porque, além deste sentimento de missão cumprida no centro, poderei acompanhar o Centro Ciência Viva de Bragança e os outros 19. Conheço bem a realidade de um centro instalado no Interior, numa zona despovoada e transfronteiriça e esta experiência pode aportar alguma diferença porque há muitos centros em condições parecidas e precisam de alguém que os compreenda.
Claro que a agência tem uma direcção fantástica e eu serei mais uma pessoa a contribuir para esta gestão muito bem feita, a trabalhar para um bem comum, que é divulgar ciência e tecnologia na sociedade.
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Deixar o centro parece não ser assim tão complicado por causa desse sentimento de missão cumprida. E deixar Bragança?
Ainda que o desafio profissional seja o que eu queria, já que ir trabalhar para o Pavilhão do Conhecimento é um sonho tornado realidade, obviamente que deixar Bragança vai ser o mais difícil. Eu adoro morar aqui, já cá vivo há 27 anos, e tenho aqui todos os meus amigos.
Aqui também é muito fácil estabelecer contactos entre os cientistas e a comunidade porque somos um meio pequeno e as pessoas são muito generosas. Tenho de fazer aqui uma vénia a todos os cientistas do IPB. Nunca, em 17 anos, houve um que me dissesse que não a qualquer proposta.
Claro que me vai custar, mas eu não sou uma pessoa muito saudosista e acho que para a frente é que é o caminho. Penso que vou ser muito feliz onde vou estar agora e voltarei muitas vezes para matar saudades.
Este novo trabalho dá para seguir de perto o centro de Bragança e os outros 19, mas incide no quê?
Vai ser uma gestão mais macro. Aqui eu trabalhava com uma equipa de 15 pessoas. Lá vou trabalhar com uma equipa de 120. É um centro muito mais desafiador, com mais exposições e muitos mais visitantes.
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O trabalho vai ser mais ao nível de políticas para implementar os projectos que a Agência Ciência Viva e toda a rede têm em mãos. Posso já adiantar que estamos a preparar uma candidatura, que vai ser submetida em Setembro, para uma actividade em 2026, que se vai chamar Science Comes to Town. Vai envolver 26 cidades portuguesas, 26 cidades europeias e 26 bairros de Lisboa. A ideia é ter um ano inteiro de actividades de ciência. Para Bragança já sabemos a data. Vai haver, dia 12 de Agosto de 2026, um eclipse solar total e Bragança vai celebrar o Science Comes to Town nessa altura, entre 2 e 13 de Agosto. Parece que ainda falta muito, mas estas candidaturas precisam de ser preparadas com muito tempo.
Isto é uma missão de vida. O trabalho que fazemos numa cidade pequena pode fazer-se numa cidade grande e a nível europeu e pode enriquecer-nos a todos.
Era um sonho, mas está preparada para o desafio?
Estou totalmente preparada, profissionalmente e a nível familiar, que também é importante. Estou feliz porque a minha família vive naquela zona, em Torres Vedras. Vou estar mais próxima e vou sentir-me mais apoiada.
Eu sentia que a mudança já era necessária. Mesmo para o Centro Ciência Viva de Bragança. É bom haver esta renovação. O presidente vai ser o Miguel Abrunhosa, vereador da câmara de Bragança, a vogal da direcção será a Dra. Maria Inês Dias, do Centro de Investigação de Montanha, além da engenheira Clotilde Nogueira ser a nova directora executiva. Esta equipa certamente vai imprimir novas dinâmicas. E haver esta renovação é fundamental para refrescar as ideias e para dar um novo impulso ao centro e eu vou dar um novo impulso à Agência Nacional Ciência Viva, espero.
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