Doença Hemorrágica Epizoótica regressa à região e deixa criadores alarmados por nem sequer terem sido ressarcidos pelos animais mortos no ano passado

A Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária anunciou que, provisoriamente, poderá ser utilizada a vacina Hepizovac, suspensão injectável para bovinos, que protege contra a doença mas, nesta altura, com animais já infectados, de pouco ou nada poderá servir

Adicione como fonte preferencial no Google Adicione como fonte preferencial no Google

10 set. 2024, 09:52

Este artigo tem mais de um ano

A doença hemorrágica epizoótica regressou ao Nordeste Transmontano e está, de novo, a deixar os criadores da região num ataque de nervos. A doença de etiologia viral, que afecta os ruminantes, em especial os bovinos, tem como principais sintomas a febre e falta de apetite, as lesões na mucosa da boca, produção excessiva de saliva e dificuldade em engolir, coxeira, devido à inflamação das coroas dos cascos e úbere (órgão mamário) avermelhado. A doença pode provocar a morte do animal. Caso não a provoque, a recuperação dos ruminantes acontece em cerca de duas semanas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

LEIA A NOTÍCIA COMPLETA NA EDIÇÃO IMPRESSA DESTA SEMANA OU SUBSCREVA A EDIÇÃO DIGITAL, ATRAVÉS DO EMAIL geral.jornalnordeste@gmail.com

O primeiro caso na região foi detectado no ano passado. 70 explorações foram infectadas em Miranda do Douro e em Mogadouro. Este ano, segundo os últimos dados divulgados pela Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), a 5 de Setembro, mais de 120 explorações dos concelhos de Bragança, Miranda do Douro e Vinhais foram afectadas pela doença, o que se traduz em 288 bovinos afectados e 17 mortos. “Neste momento, os últimos dados apurados, ao dia de ontem, reportavam a nível nacional 171 notificações. Os casos têm sido massivamente reportados aqui na região Norte e não é tão evidente ao longo do resto do continente. As ilhas ainda nunca reportaram a doença”, referiu a directora da DGAV, Susana Pombo, à margem da Feira do Naso, em Miranda do Douro. O número de casos dispara no final do Verão início de Outubro, devido à temperatura. Segundo o técnico e veterinário da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa, Valter Raposo, este ano está a predominar, sobretudo, na zona de Bragança e Vinhais, com mais casos que em Miranda do Douro, apesar de no Planalto Mirandês também haver “bastante casos”. “Este ano, voltou a atacar, sobretudo, na época de Verão, quando há vectores, com mosquitos em abundância e em força. O estado dos animais degrada-se, deixam de comer, começam a coxear, apresentam úlceras a nível da boca e das mucosas. A maioria recupera, mas uma recuperação muito difícil, ou então, degrada o estado de saúde do animal, mas muitos têm morrido”, clarificou. Os primeiros casos do retorno da doença foram detectados em Julho e António Granjo, criador do concelho de Miranda do Douro, está de novo a ver os animais passar pelo mesmo. Segundo assumiu, com cerca de 300 animais adultos, no ano passado teve grande parte deles infectados, sendo que 17 morreram, mas desta vez há menos casos a registar, pelo menos para já. “Em relação ao ano passado, não conseguimos avaliar o número de animais que foram afectados mas, no meu caso, cerca de 70 ou 80% dos animais passaram pela doença. Este ano há menos infectados, mas já notei sinais em muitos, como ficarem-se para trás, em relação ao resto da manada, assim como dificuldade em andar. Aquilo que noto, e conversei até com os vizinhos espanhóis, é que isto é um pouco como a covid, os animais que apanharam ficaram imunizados. Por isso, este ano é natural que a doença não tenha tanta intensidade”, esclareceu o criador, que disse que, ainda assim, está alarmado pois teme que muitos mais passem pela doença. Refira-se que, apesar de os animais alguns animais estarem imunizados, há outros que estão a apanhar a doença pela segunda vez, provavelmente há uma estirpe diferente deste vírus hemorrágico.

Vacina já existe mas nesta altura de pouco serve

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

No início de Agosto, a DGAV anunciou, no site oficial, que iria disponibilizar uma vacina, designada HEPIZOVAC. A directora da DGAV adiantou que já está no mercado. “Foi autorizada pela DGAV, com autorização de utilização temporária por um ano a partir da data de comercialização”, explicou Susana Pombo, acrescentando que a vacina é de aplicação “voluntária” e, embora o primeiro lote ainda tenha rótulo espanhol, está acessível nos distribuidores nacionais e pode ser administrada por veterinários. A prescrição deve ser feita de acordo com “as condições sanitárias que apresentam”. A DGAV pede que seja feita desinfestação dos animais e que os produtores que estejam atentos aos sintomas para que a doença seja tratada a tempo de evitar a morte do animal. “Volto a dizer que o veículo é um vector, por isso os animais têm que ser desinsectizados. Tal como diz a legislação, devem ser vistos todos os dias, porque esta doença tem tratamento, mas quanto mais cedo se detectar um animal doente, maior sucesso terá a aplicação do tratamento”, frisou. Susana Pombo realçou ainda que Doença Hemorrágica Epizoótica não afecta as pessoas, apenas os animais. Para o técnico e veterinário da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa, Valter Raposo, a vacinação dos bovinos, que tem carácter voluntário e poderá ser aplicada nas áreas afectadas, “nesta altura não surte grande efeito”. “Talvez seja pior que estar a vacinar animais que supostamente já estão doentes, embora não o manifestem. Não é propriamente o mais indicado”, esclareceu.

Zero apoios

No ano passado, os primeiros casos da doença, que no Planalto Mirandês dizimou centenas de animais, foram registados em Junho. António Granjo, que perdeu 17 bovinos, estimando que cada um valha mais de mil euros, não regista apenas estes prejuízos. Os animais que sobreviveram, muitos deles, não regressaram à sua normalidade. Muitas vacas abortaram e, desde aí, “têm muita dificuldade em se cobrir”. Perante o cenário, admite o criador que deveria ter existido apoio, mas, até agora nada se viu. “Os nossos colegas espanhóis foram compensados pelos prejuízos e nós não tivemos nenhuma compensação. Não sei porquê não fomos mas a verdade é que ninguém nos apoiou”, rematou, lamentando que 2023 tenha “muito difícil”, devido à “fraca colheita” e ao preço “caro” do gasóleo e alimentos. A doença, está claro, veio deixar ainda mais negro aquele ano. “A única coisa que sei dizer é que os espanhóis receberam apoios, mas os portugueses não. Das conversas que tivemos com as associações, nomeadamente com a Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa, soubemos que esse apoio foi pedido, mas não sei mais que isto”, sublinhou o criador. José Pires também reclama da falta de apoios por parte do Governo. O criador, natural de Vinhais, perante a crise que há, frisa que “não há ajudas nenhumas”. “O Estado não nos está a ajudar. Já tive animais infectados e tem que ser tudo suportado pelos criadores, se não querem ver morrer os animais”, frisou José Pires. “Os animais que chegam a morrer, morrem pela febre. Ficam com muita febre e a febre causa-lhe hemorragias”, assinalou ainda o criador, dizendo que no ano passado em Vinhais poucos casos houve, ao contrário do que se passou em Mogadouro e em Miranda do Douro, mas não é isso que se está a verificar este ano. “Este ano, eles poucos casos estão a ter e nós temos tido muitos, em Vinhais”, esclareceu, assumindo que, perante este cenário, bem como outras doenças que os criadores vão enfrentando, pouco compensa ter gado. “Eles dão uma ajuda mas não compensa muito. Deviam ajudar-nos muito mais. Eu, agora, tenho 50 cabeças mas, se calhar, daqui a dois ou três anos, tenho de reduzir”, terminou.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR