Com 42 e 45 anos, Rute Moura e João Vasco Henriques deixaram para trás a Costa da Caparica, na grande Lisboa, e vieram em busca de outra vida, por terras mais pacatas. Em Agosto do ano passado, o casal cumpriu o êxodo precisamente no sentido contrário.
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Rute, educadora de infância há 20 anos, “estava a entrar num processo de ruptura”, daí que deixar a vida que levava foi um “processo mais ou menos natural”. Mas o interior não foi escolhido ao acaso. O casal já nutria admiração por estas terras e pensar que “estava desertificado” e que “precisava de pessoas novas e de outros projectos” ajudou a trazê-los para cá. Desengane-se quem acredita que o impulso partiu de Rute pois João Vasco afirma convictamente que, como escritor e actor, sempre o fascinaram as partes mais “recônditas” do património que nos calhou em sorte e... já que anda sempre com as malas às costas, porque não? Afirmando-se um “cidadão do mundo”, “primo” de um senhor de Martim, ali ao lado de Carrazedo, que diz ser o “Zé do Mundo”, com quem, num fascínio intelectual, muito aprende, pensou: “Andamos a dizer que o interior está desertificado? Vamos para lá, vamos ver!”.
Mãos ao trabalho
Além das armas e bagagens trouxeram várias ideias e projectos para desenvolver e, assim, já lançaram mãos ao trabalho. Por agora têm em “andamento” a Peña Mourisca, uma associação ecológica e cultural, criada em Outubro passado, que “pretende trabalhar na área cultural, como teatro e poesia e, na parte mais ecológica e ambiental, através de, por exemplo, caminhadas e yoga na floresta”. Na aldeia vizinha, Alimonde, vão construir um abrigo para burros porque um dos desígnios da associação é preservar a biodiversidade e querem proteger a raça asinina de Miranda. A campanha de crowdfunding (https://ppl.pt/abrigoburro), para vedar e constituir o abrigo, que vai nascer num terreno baldio, cedido pela junta de freguesia a que pertencem, já arrancou. É neste espaço, no abrigo para os burros, que também querem ver erguer-se “uma espécie de laboratório de permacultura”.
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Ao nosso território moveu-os, sobretudo, a ideia de promover actividades culturais e de educação ecológica, as gentes, as histórias, as cantigas, rituais, tradições, o mundo que se esconde atrás dos montes. Nesse sentido também projectaram, garante João Vasco, mesmo à frente da casa, abrir portas a um forno comunitário para “interagir” com os locais e recuperar saberes antigos.
Entre Carrazedo e Zoio, percorrendo o trilho que leva à Casa Florestal da Pombeira, cerca de vinte pessoas reuniram-se, no domingo, para recolher o lixo que se encontrava neste espaço florestal e celebrou-se a primeira iniciativa da Peña Mourisca. “Descobrimos que uma parte de um percurso marcado, estava cheia de lixo. Depois de termos contactado várias entidades e de não nos ter sido dada resposta a nível de apoio para a recolha, decidimos que o melhor era envolver a comunidade e sermos nós a apanhar esse lixo”, contou Rute.
Carrazedo porquê?
A aldeia, que agora serve de casa a Rute e João Vasco, pertence à união de freguesias de Carrazedo e Castrelos e conta com pouco mais de 30 pessoas. É verdade que por aqui, há um trilho que conta com mais de 50% das espécies de borboletas diurnas existentes no país, com a mancha florestal de carvalhos da Serra da Nogueira, considerada a mais extensa de Portugal, e com o antigo traçado da via XVII, feita pelo romanos, ligava Portugal e Espanha mas... porquê Carrazedo? É simples: “podíamos ter escolhido uma aldeia que já fosse muito explorada mas não era interessante. Queríamos uma aldeia com património e alma, esta tem”, concluíram, quase em coro.
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