“Desistir nunca foi opção” para Ricardo Mendes
Ricardo Mendes superou todos obstáculos que a vida lhe deu dentro e fora da pista. Nem um aparatoso acidente de moto, que lhe tirou bastantes capacidades motoras, o impediu de fazer o que mais gosta
Ricardo Mendes superou todos obstáculos que a vida lhe deu dentro e fora da pista. Nem um aparatoso acidente de moto, que lhe tirou bastantes capacidades motoras, o impediu de fazer o que mais gosta. Depois de estar 15 dias em coma, passados três anos voltou a subir para cima de uma bicicleta. Num exemplo de resiliência e superação, mal pensava que, aos 46 anos, iria sagra-se campeão nacional e regional de Vila Real de BTT XCM, campeão nacional de XCO e vice-campeão de estrada em paraciclismo. Está também bem classificado para conseguir o título na Taça de Portugal de XCO.
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Ricardo Mendes é natural de Abreiro, no concelho de Mirandela, e é ciclista no Clube de Ciclismo de Vila Flor. Esteve emigrado em Andorra, durante 27 anos, onde praticava ciclismo regularmente, mas, em 2005, a vida do ciclista mudou para sempre, quando um grave acidente de moto o colocou 15 dias em coma, com graves lesões, incluindo várias fracturas. Uma na perna esquerda, onde perdeu cerca de 40% da capacidade. Outra no braço esquerdo, com uma musculatura muito inferior à que tinha, tendo já sido operado cinco vezes. Já os tendões apenas lhe permitem mexer dois dedos com movimentos bastantes limitados.
Esteve praticamente um ano acamado, mas desistir nunca foi opção para o transmontano. Quando já se sentiu com algumas forças, sempre com o apoio da família, começou a fazer reabilitação através de ginásio, natação e exercícios de carga leve.
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Três anos após o acidente, Ricardo Mendes conseguiu voltar a pedalar. Usa na bicicleta de BTT uma cremalheira ajustada, visto que ficou uma perna maior que a outra e tem também um distribuidor de travão, o que lhe permite fazer uma travagem em segurança usando apenas a mão direita. A esquerda “apenas serve para segurar o punho”.
Quando regressou a Portugal, continuou a praticar a modalidade e juntou-se ao Clube de Ciclismo de Vila Flor. No início, quando ainda não tinha conhecimento do paraciclismo, mesmo com as limitações que o acidente de moto lhe provocou, Ricardo competia normalmente para a classificação geral, conseguindo sempre resultados interessantes para a condição em que se encontrava.
Paulo Frederico, presidente do Clube Ciclismo de Vila Flor, sugeriu-lhe começar a competir na vertente de paraciclismo. Ricardo Mendes, após algum tempo, aceitou a sugestão e foi visto por um médico da Federação Portuguesa de Ciclismo, que lhe atribuiu a licença de Paraciclismo C4, que inclui atletas com falta ou baixa capacidade de coordenação motora num dos lados do corpo, na base do tronco e nas pernas, ou com ausência de membros.
“Começou como uma brincadeira, gosto muito de andar de bicicleta e o resultado foi várias conquistas no paraciclismo, tanto a nível regional como nacional. O mais importante para mim é mesmo poder pedalar e aproveitar a beleza deste desporto. Os títulos são um extra, que acabam por recompensar o meu esforço”, começou por referir Ricardo Mendes.
Com uma mentalidade positiva e com um sorriso no rosto o transmontano sente-se feliz por poder pedalar e usufruir da natureza. “É excelente poder estar a fazer algo que gosto muito e ao mesmo tempo aproveitar as lindas paisagens do nosso território. É realmente inspirador”, destacou.
Quanto à parte competitiva, Ricardo Mendes enfrenta adversários que levam as provas muito a sério. “A nível nacional, há ciclistas muito bem preparados, que têm equipa, treinador, nutricionista e todas as condições para conseguirem o melhor desempenho. Deixa-me orgulhoso saber que faço tudo pela minha cabeça e mesmo não tendo as regalias de grande parte dos meus adversários, treino apenas ocasionalmente, consigo competir e vencer. Fico feliz como é óbvio”, afirmou.
Ricardo Mendes recorda, com alegria, o momento em que recebeu a camisola de campeão nacional. “´Foi um sentimento inexplicável, nem acreditava que estava a receber a camisola com a bandeira de Portugal ao peito. Foi um momento único, a nível nacional a competição é mesmo muito grande e receber a camisola de campeão foi muito especial para mim”, referiu emocionado.
Ricardo Mendes treina com o filho Rúben Mendes, que tem apenas 15 anos, e também representa o Clube de Ciclismo de Vila Flor. “É um excelente companheiro de treinos, espero que um dia seja ciclista profissional. Tem muito potencial e eu espero poder ajudá-lo a evoluir, tanto no desporto como pessoa”, frisou.
Rúben Mendes salientou que as dicas do pai lhe dá têm sido uma mais-valia. “Tem sido uma época bastante dura, com muitos treinos. O meu pai ajuda-me muito, dá-me sempre boas dicas, que me tem feito progredir bastante. Acabámos por entreajudar-nos, estou satisfeito por o pedalar com o meu pai e foi ele que me fez despertar o gosto pelo ciclismo”, sublinhou.
Para melhorar o ciclismo da região, Ricardo Mendes considera que as associações locais “deviam unir-se mais” e criar “uma pista específica para treinos de XCO”, porque “há saltos que exigem muita técnica e necessário praticar”.
Nos últimos quinze anos, Ricardo Mendes tem uma média anual que ronda os “20 mil quilómetros” em cima de uma bicicleta. Para a próxima época, tem como objectivo revalidar as camisolas de campeão. A curto prazo, pretende conquistar a Taça de Portugal de BTT XCO, sendo lhe faltam apenas 3 pontos para garantir o troféu.
Ricardo Mendes conseguiu superar-se, nunca desistiu e hoje em dia anda com a camisola de campeão nacional de paraciclismo ao peito, sendo um ícone para o ciclismo da região.






