Bragança foi o único território que respondeu ao apelo da Cáritas para ajudar população em caso de calamidade

Cáritas Portuguesa lançou o desafio de constituição de grupos de emergência e catástrofe mas só a Diocese de Bragança-Miranda pôs o projecto de pé: cerca de 70 voluntários estão prontos a ajudar pessoas que sejam evacuadas de casa, conseguindo criar uma Zona de Concentração de Apoio à População

30 jul. 2024, 09:27

Este artigo tem mais de um ano

Portugal abriu os olhos para uma realidade iminente, depois do incêndio de 2017, em Pedrogão Grande: prestar o melhor apoio possível em caso de calamidade. A viver mais uma época de incêndios, o país treme, e a região, está claro, também, pois não está livre de voltar a passar por uma catástrofe desta escala ou maior, até porque, devido às alterações climáticas, hoje em dia, os incêndios são cada vez mais imprevisíveis. É para evitar que prejuízos maiores aconteçam que, em 2019, a Cáritas Portuguesa decidiu lançar, às dioceses, o desafio de criação de um Grupo das Emergências e Catástrofes (GEC). Bragança respondeu à chamada. E foi o único território a fazê-lo.

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O GEC da Cáritas Diocesana de Bragança-Miranda tem como missão socorrer e assistir pessoas em perigo. Os incêndios são, de facto, a primeira “catástrofe” que nos vem à ideia contudo há várias e é por isso que o grupo está capacitado para intervir nas mais diversas situações, como sismos ou cheias. O GEC actua no antes, no durante e no após, nas áreas de psicologia, assistência social, evacuação e resgate, logística e instalação de Zonas de Concentração de Apoio à População (ZCAP), uma valência que oferece às pessoas um local seguro para permanecerem, com as condições básicas e com apoio a vários níveis, estando assegurada a alimentação, dormida, agasalhos, medicamentos, apoio psicológico, entre outros.

Igreja percebeu que tinha de ajudar

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Hélder Pires é o grande responsável pela existência do GEC de Bragança. Segundo o técnico superior de Educação Social, da Casa de Trabalho Dr. Oliveira Salazar – Patronato de Santo António, notou-se, em 2017, que houve “ausência da Igreja”, no que toca ao apoio às pessoas evacuadas. Nesse sentido, a Cáritas Portuguesa sentiu necessidade de “perceber o que tinha de fazer” e lançou este desafio. Na região compreendeu-se que, numa situação de evacuação, não havia resposta, ou seja, ZCAP’s. “Nenhuma entidade conseguiria fazer a instalação de uma ZCAP rapidamente”, esclareceu Hélder Pires. Estas zonas são da responsabilidade da Segurança Social e da Protecção Civil Municipal, mas são instaladas, geridas e mantidas pelo GEC.

“Estamos preparados”

O Grupo das Emergências e Catástrofes, que se constituiu logo após o desafio da Cáritas Portuguesa, em 2019, ainda não foi para o terreno, em termos reais, apenas em simulacros e exercícios, bem como formações, mas está “tudo pronto”. “Dentro do âmbito da nossa acção, estamos preparados para instalar uma ZCAP e para fazer uma evacuação”, vincou Hélder Pires, coordenador diocesano do grupo, constituído por cerca de 70 pessoas. Desses há 30 assalariados da Cáritas. Os restantes são “totalmente voluntários”, constituindo uma equipa “multidisciplinar”, desde psicólogos, a assistentes e educadores sociais, a professores, bem como a enfermeiros.

Formação específica

Os voluntários do GEC têm formação na área das ZCAP, de forma a perceber o que podem fazer, quais as exigências e como dar a “resposta mais certa”. “A nossa equipa está preparada”, rematou Hélder Pires, que esclareceu ainda que o grupo tem uma “parceria” com o INEM, sendo que os voluntários psicólogos estão a fazer formação no Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise. “Todos estão preparados para agir numa situação destas, quer para apoio à população, quer para apoio aos operacionais”, explicou. Sendo o exercício “fundamental”, já que “treino duro, combate fácil”, a formação do grupo tem sido diversa. Ou seja, além desta formação dos psicólogos, já houve e há formações de suporte básico de vida e suporte avançado, bem como em três ramos das ZCAP’s, no que toca à instalação, à coordenação e às necessidades específicas. O GEC também já participou na Operação Fénix 2021, em Alfândega da Fé, num simulacro transfronteiriço, na Moimenta, em Vinhais, e num outro em Rebordainhos, no concelho de Bragança. O grupo também promove vários exercícios, todos eles ligados à questão de evacuação e acompanhamento de pessoas.

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Equipamento e financiamento ainda em falta

O grupo tem vindo a notar que a preparação “está lá” e o material “existe”, algum, mas falta outro tanto. “Fizemos uma tentativa de angariação em todos os concelhos do distrito de Bragança. Seis apoiaram-nos. Em 2020 fizemos um orçamento global e percebemos que precisaríamos de cerca de 15 mil euros para equipamento inicial, para rádios, em termos de comunicação, para burros de mato (camas), placas sinaléticas e coletes identificativos”, explicou o coordenador, dizendo que se alguma catástrofe surgir num território que não tenha contribuído, obviamente, há apoio por parte do GEC. Neste momento, ao grupo faltam voluntários, “faltam sempre”, mas faltam também burros de mato, uma vez que só têm 30 e precisavam de, pelo menos, o dobro. Falta ainda um posto de comando móvel. Numa situação real só têm lugar na tenda dos oficiais de ligação.

Vaidade simpática

“Tenho orgulho por sermos um exemplo a nível nacional”, assumiu Hélder Pires sobre a existência deste grupo. A ‘vaidade’ também se prende muito com o facto do “reconhecimento” que a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil já faz do GEC noutros comandos. Não se considerando “mentor de nada”, o coordenador diz que vive com “muito sentimento este projecto” e que o GEC só é aquilo em que se transformou por causa de quem o compõe. “Quando nos telefonam, aconteceu isso recentemente com a Cáritas de Viana do Castelo, que nos pediu para irmos lá apresentar o grupo, de que forma demos os primeiros passos… isso enche-me de orgulho”, rematou ainda Hélder Pires.

“Dádiva pessoal”

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Flávia Lucas é psicóloga, na Casa de Trabalho, e integra o GEC desde que este se formou. “Achei que era uma mais valia fazer voluntariado e que dar o meu contributo, como profissional e pessoa, era um ótimo desafio”, rematou a psicóloga. Numa ZCAP tem de haver várias equipas e, sendo psicóloga, Flávia Lucas é a coordenadora da equipa de psicologia. Esta aventura já lhe rendeu muito, a todos os níveis. “Somos 12 psicólogos e cinco de nós foram fazer uma formação, com o INEM, em psicologia de emergência. Foram 40 horas em que os psicologos do INEM nos formaram para podermos corresponder de forma mais adequada. Fazer psicologia num gabinete e fazer no aqui, no agora, no incidente, é diferente”, esclareceu. A experiência, “muito enriquecedora”, já “superou as expectativas”. “Não esperávamos em tão pouco tempo crescer como crescemos. O grupo foi angariando mais voluntários que entram mais facilmente neste espírito da disponibilidade, iniciativa, e esse contributo tem sido muito gratificante”, assinalou ainda a psicóloga, que disse que, mesmo a nível pessoal, a experiência tem oferecido mais do que aquilo que imaginou. “Os exercícios não são situações reais, mas estão cheios de adrenalina porque fazemos como se fosse à séria e isso implica rigor e seriedade”, explicou ainda, deixando assente que o que mais a “preenche” é “prestar serviço à população”.

“Dar sem esperar nada em troca”

Cátia do Vale, de 29 anos, é a coordenadora de logística do grupo. Integra-o, tal com Flávia Lucas, desde o começo. A assistente social, da Casa de Trabalho, também recebeu o convite por parte de Hélder Pires e, no GEC, está vocacionada a ajudar nesse mesmo âmbito, a assistência social. “Por exemplo, se um casal ficar sem a habitação é necessário o apoio de um assistente social. Eu posso prestar esse apoio. E acho que é uma mais-valia”, rematou, dizendo que poder prestar “ajuda” a quem precisa “é um trabalho muito gratificante”. Apesar de o grupo ainda não ter ido para o terreno, em caso de catástrofe, a voluntária está consciente de que as situações que treinam podem ser “muito reais”. “Da forma como hoje as situações evoluem, caminhamos para isso, para calamidades”, vincou, assinalando que espera que nada de grave aconteça, mas que se acontecer e puder ajudar, em termos pessoais, se sentirá realizada, pois “ajudar é impagável”. “Dar sem esperar nada em troca”, completou. O GEC não foi para a rua por causa de uma catástrofe, ainda, mas já foi numa época bastante conturbada e incerta. Cátia do Vale foi uma das voluntárias que ajudou na jornada de vacinação contra a covid-19, em Bragança. “Estive sempre nas equipas, desde o começo ao final da vacinação”, esclareceu. Dizendo que a jornada tem sido “bonita”, a assistente social sente-se também orgulhosa porque, apesar de o trabalho não ser pago é “reconhecido” e isso “é o mais importante. “O grupo é falado a nível nacional, porque é o único. É um motivo de orgulho. Vimos o grupo nascer e crescer e agora somos reconhecidos, sendo nós um exemplo para que outras Cáritas também façam igual”, terminou.

“Um enriquecimento humanitário enorme”

Patrícia Líbano, de 41 anos, é professora no Instituto Politécnico de Bragança e, no grupo, é a coordenadora de ZCAP. “Basicamente, o coordenador da ZCAP tem de manter a zona em funcionamento, com tudo o que ela exige, com todas as áreas necessárias para ela funcionar, desde apoio psicossocial, alimentação, dormitório, zona de registo, onde as pessoas que ali chegam deixam os seus dados, passando, nós, a partir daí, a conhecer as necessidades de cada pessoa, para as conseguir satisfazer. Este coordenador é o elo de ligação entre as pessoas que foram evacuadas e o posto de comando”, esclareceu a voluntária, que integra o GEC desde 2019, data da sua criação. Tal como as restantes voluntárias, a docente também não podia estar mais agradada em integrar o GEC. “A principal motivação, de todos nós, é, sobretudo, o bem comum e dedicamo-nos a ele de corpo e alma. É um enriquecimento humanitário enorme. É o maior fruto que podemos ter”, explicou, dizendo que, numa situação real, há a certeza que, caso o grupo seja mobilizado, a ajuda chegará, porque estão “prontos”. Patrícia Líbano “sempre” integrou grupos de voluntariado, não propriamente nesta área, mas sim naquela em que se formou: música. Mas, no que toca ao GEC, segundo esclareceu, qualquer pessoa pode ser voluntária e juntar- -se ao grupo, desde que faça formação, tal como quem o integra já o fez.

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