Em Trás-os-Montes, na Terra Fria, a quadra natalícia é vivida como em mais nenhum ponto do país através das festividades em honra de Santo Estêvão, também conhecidas como “Festa dos Rapazes”. Qualquer festa de Santo Estêvão é organizada por rapazes e, dependendo da aldeia onde se celebra, integra diversos rituais, com origens remotas. Estas festividades inserem-se no âmbito das celebrações do primeiro ciclo das festas de inverno e, segundo António Tiza, presidente da Academia Ibérica da Máscara, não podemos apenas cingir-nos ao Santo Estêvão, que se assinala hoje, mas sim a um ciclo de 12 dias, que começou ontem e se estende até ao dia de reis. "Acontecem vários rituais: há aldeias que têm a crítica social, um ritual formal, em que os caretos sobem a um determinado ponto elevado e proclamam acontecimentos, em verso, ridicularizando e apontando o nome das pessoas que os protagonizaram; todas elas têm as visitas formais a todas as casas da aldeia; a corrida à rosca, dois a dois correm da meta até um ponto e regressam à meta e recebem como prémio uma rosca de pão; a galhofa, uma luta também entre dois rapazes; e, em Vinhais, há a encamisada, uma ronda nocturna com música e mascarados".
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
António Tiza confirma que todos os rituais que acontecem nestas manifestações provam o que os homens devem ter e ser na vida adulta: destreza e resistência, secretismo e gentileza. "São rituais de iniciação ou de passagem. Têm que mostrar isto tudo".
As festividades têm, em várias aldeias, a presença de mascarados mas não é obrigatório. Contudo, António Tiza está convicto que nem sempre assim foi e que noutros tempos os caretos integrariam todas as celebrações onde quer que acontecessem. "Não se vislumbra grande diferença entre a baixa lombada e a alta lombada. Guadramil teve uma festa com máscaras, se Guadramil teve, se teve Rio de Onor tem, Varge tem, Baçal e Aveleda também têm, não se percebe porque Babe, São Julião e Deilão não tivessem tido".
As celebrações do primeiro ciclo das festas de inverno têm vindo a ser recuperadas em vários pontos da Terra Fria. Pinela, em Bragança, foi uma das localidades que quis devolver a festa ao povo. A celebração foi recuperada há meia dúzia de anos e tem como essência um charolo de roscas, que também existe em Parada e Outeiro. Ainda assim, com ou sem o rosto a nu, a Terra Fria vive, por estes dias, celebrações, cuja origem se perde na memória do tempo, que são como que um cartão de identidade destas nossas terras.
PUBLICIDADE
Escrito por Brigantia
Foto: António Tiza
PUBLICIDADE

