“O grande desafio será fazer com que o centro de arte contemporânea consiga chegar a toda a população”

António Meireles é o novo director do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança. O espaço esteve sem director durante dois anos. Numa entrevista ao Jornal Nordeste, António Meireles fala deste novo desafio, dos objectivos e do que gostava de mudar. O Centro de Arte Contemporânea Graça

23 jul. 2024, 09:34

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Porque decidiu abraçar este desafio?

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Foi um convite que foi feito pela Câmara Municipal de Bragança e também pelo Instituto Politécnico de Bragança e traz um desafio muito grande, do ponto de vista profissional, do ponto de vista pessoal e que abracei com muita honra, com muita felicidade e também com uma grande responsabilidade que ele acarreta.

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Fez parte do Laboratório de Artes na Montanha Graça Morais, do IPB. Esta experiência dá-lhe alguma bagagem?

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O laboratório é uma estrutura de investigação que é uma colaboração entre o IPB e a câmara. Centrámos as nossas actividades na investigação da obra da pintora Graça Morais, recolha e tratamento da sua obra, no sentido de se produzir um catálogo raisonné e de termos aquilo que é um levantamento integral da sua obra. Está a ser produzido, está a ser desenvolvido, felizmente esta pintora é muito activa, o que significa desde o início da sua carreira até à actualidade tem vindo a produzir trabalho e a dar-nos trabalho também.

Ter liderado a investigação e sendo agora curador das exposições da Graça Morais, já tem algum conhecimento…

O conhecimento sobre a pintora Graça Morais é muito importante e também é importante gostar da obra da pintora. Quando gostamos de algo, abraçamos os desafios de uma outra maneira que não apenas quando estamos a cumprir uma função. Este entendimento e o gosto são apenas uma parte naquilo que é um trabalho de coordenação de um centro de arte contemporânea, que celebra aquilo que é a vida e obra da pintora Graça Morais, neste ano que se comemora os 50 anos da sua carreira, e que agora com esta exposição que está patente visamos também comemorar. Mas é uma actividade mais ampla, mais vasta, porque se projecta também nas obras de outros artistas e também noutras acções que não se centram apenas no espaço físico do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais.

O que é mais desafiante?

Tudo é desafiante, mas o desafio maior talvez seja fazer com que o centro seja uma instituição de referência na continuidade daquilo que tem sido o trabalho desenvolvido desde o início pelo anterior director e pela equipa que o acompanhou e que ajudou a que esta instituição fosse uma referência, não apenas nacional, mas internacional. Mas sobretudo nestes tempos que vivemos de uma extrema precariedade, de uma volatilidade muito grande, fazer com que a arte possa ter valor e sentido, para todas as pessoas, não apenas para aquelas que têm a capacidade de se deslocar aqui ao centro, para usufruírem, para viverem as exposições, mas o grande desafio será fazer com que o centro de arte contemporânea consiga chegar a toda a população. Não somos uma instituição de nicho, a arte não é apenas para umas poucas pessoas, mas é para todas as pessoas e esse é um grande desafio, sentirem que este centro é seu.

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Há muitas pessoas que não visitam espaços culturais, nomeadamente museus ou centros de arte. Como pretende fazer essa aproximação ou cativar as pessoas a virem até ao Centro de Arte Contemporânea?

Temos várias estratégias, algumas delas já têm vindo a ser desenvolvidas. Felizmente no campo da educação temos vindo a desenvolver um trabalho muito consequente, muito bem estruturado, de formação de públicos e neste momento as crianças e jovens já fruíram espectáculos, exposições, muito mais do que os seus pais e avós. Mas importa que consigamos dar um passo importante para aquele público que não teve esta oportunidade e que não teve esta formação tão estruturada de ligação àquilo que é a arte contemporânea, porque arte contemporânea é construir mundos, não apenas estar a fornecê-los como algo que seja fechado, mas abrir horizontes para cada uma das pessoas no sentido de se poderem construir e é esse grande desafio que está à nossa frente, conseguir chegar a todas as pessoas ou maior número de pessoas que seja possível, no sentido de que cada uma possa construir-se com a maior abrangência, com esta capacidade que o centro de arte contemporânea tem de se ligar com todas as pessoas.

Através das escolas imagino que deva ser mais fácil trazer as crianças e jovens, mas com as pessoas mais velhas, como é que isso é possível?

Temos previsto um conjunto de iniciativas que vão levar o centro para fora de portas como também as pessoas para dentro de portas. A actividade que o centro de arte contemporânea desenvolve não se centra apenas dentro de portas, não estamos apenas de portas abertas, que permitem que as pessoas possam cá entrar. Nós somos as portas que permitem que as pessoas possam usufruir e construir- -se e nesse sentido há um conjunto de iniciativas que estão a ser programadas, e que agora ainda é prematuro avançar, mas que vão fazer com que consigamos ter esta ligação ao conjunto da população que está mais distante e não nos podemos esquecer que esta região tem características muito próprias, nós temos um núcleo urbano muito bem definido, no entanto, temos um conjunto rural que não pode deixar de ter contacto com a arte contemporânea e é uma necessidade e uma urgência conseguirmos chegar a todo este público.

E relativamente a convidarem artistas a exporem aqui?

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Temos já em mente outras exposições, temos um plano de actividades que está a ser delineado, tem sido relativamente fácil essa perspectiva de futuro. Temos um patamar de qualidade e exigência muito grande. É mais importante conseguirmos definir uma estratégia de acção e conseguirmos desenvolver um programa expositivo que seja coerente e que tenha esta ligação àquilo que pretendemos atingir. Estas exposições nunca são gratuitas no sentido de se apresentarem com o fim de si mesmas. Elas compreendem sempre uma acção mais alargada, mais ampla e na concretização dos objectivos definidos.

O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais esteve dois anos sem director. Já destacou o trabalho desenvolvido pelo anterior director. Quando assumiu as funções, como encontrou o centro?

Uma instituição sem uma coordenação, que tem alguns problemas, mas nada que não seja inultrapassável, são situações regulares e recorrentes. Aquilo que é mais importante será realçar este capital da vida que o centro de arte contemporânea tem. Cumprimos 16 anos de vida com estas actividades que temos vindo a desenvolver e importa conseguirmos concretizar, concluir, desenvolver e ampliar.

Que contributo o António Meireles pode dar ao centro?

Será um pequeno contributo, desde que seja na concretização destes aspectos, conseguirmos ampliar esta nossa ligação ao público, fazermos com que consigamos ser uma porta aberta para a construção de sentidos, para que cada pessoa possa, em contacto com uma obra de arte, uma exposição, sentir-se transformada. Este é um espaço de transformação, uma pessoa entra aqui dentro e sai diferente, saímos melhores, mas diferentes, porque reflectimos, vamo-nos construindo com as obras, não no sentido de uma reacção superficial com as obras, mas no sentido de uma transformação pessoal. E se eu tiver, em conjunto com as pessoas que constituem este centro, um pequeno papel nessa transformação, pois que seja.

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PERFIL

Nome: António Meireles

Idade: 50 anos

Formação: Licenciado em Artes Plásticas, Pintura, na escola de Belas Artes em Lisboa e Mestrado e Doutoramento em Desenho

Naturalidade: Braga, mas vive há duas décadas em Bragança

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