“Estamos cientes que o calor, mais cedo ou mais tarde, vai chegar mas o dispositivo já está ‘montado’ a pensar no pior”

Nos últimos tempos, poucos têm sido os incêndios de grandes dimensões no concelho de Bragança. Ainda assim, as alterações climáticas têm trazido grandes desafios aos bombeiros, que enfrentam, desde 2017, os incêndios de sexta geração, mais explosivos e catastróficos. O Verão tem tido dias de grande

16 jul. 2024, 09:37

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Estamos em pleno Verão, este ano um pouco atípico, já que temos tido dias de calor mas também dias mais frios, pouco comuns nesta altura. Este Verão inspira que cuidados?

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Claro que sim. Estamos cientes que o calor, mais cedo ou mais tarde vai chegar mas o dispositivo já está ‘montado’ a pensar no pior. Tivemos um ano chuvoso, até ao início do Verão, que fez com que houvesse desenvolvimento de combustível fino, muita erva, que agora está seca e completamente disponível para arder, caso haja ignição. Esse combustível fino causa-nos incêndios com uma velocidade e propagação muito rápida. Para além de os incêndios serem mais rápidos desenvolvem mais energia. Desde 2017 que se fala nos incêndios de sexta geração. Estes incêndios, identificados na América e na Austrália, desenvolvem-se derivado às alterações climáticas. Criam um clima próprio, desenvolvem- -se com uma energia tal que se cria uma nuvem no próprio incêndio, que se desenvolve até atingir uma determinada altura e, após arrefecer, pode provocar tempestades e ventos fortes. Além de se desenvolverem mais rapidamente, os incêndios ficam fora da nossa capacidade de extensão e projecta partículas incandescentes para muita longe do que é o foco principal, provocando novos incêndios.

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São incêndios que nunca se tinham visto…

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Sim. E o que é que acontece? Temos que assumir uma estratégia defensiva e prever qual a direcção que o incêndio toma e defender tudo o que está no caminho. Por norma, em vez de actuar em cima do incêndio vamos tentar criar tentar barreiras físicas à sua frente, é aqui que entram as máquinas de rasto e acções de fogo controlado, contrafogo e fogo de supressão. São barreiras para que o incêndio ao chegar a um determinado local não tenha mais combustível e se extinga.

Como é que eles se preparam para isto? Uma das vossas estratégias é enviar desde logo o máximo de elementos que podem para o incêndio?

O que mudou, e para evitar que tomem grandes proporções, é preciosamente isso: no ataque inicial são despachados vários meios de várias corporações. Se houver um incêndio no concelho em Bragança são despachados, de imediato, meios de Bragança e de outras duas corporações, assim como um ou dois meios aéreos, dependendo do local e do risco de incêndio para aquele dia. Tentamos evitar que o incêndio assuma uma proporção considerável. Se o conseguirmos extinguir nos primeiros 90 minutos temos a garantia que não vai desenvolver grande energia. As máquinas de rasto normalmente não entram nesse ataque inicial mas têm sido uma acção deste distrito. Já mais de 30 anos que as usamos e com sucesso. No nosso caso, durante a época critica, temos disponíveis, do município, duas, 24/dia.

Chegam?

Para aquilo que tem acontecido, chegam. No concelho de Bragança não tem havido incêndios grandes e os que houve, com mais de 100 hectares de área ardida, não foram, curiosamente, no período crítico.

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As queimas e queimadas continuam a ser as principais causas dos incêndios em Portugal. Na região também podemos dizer que esse é o grande problema?

Curiosamente, a maior parte dos incêndios não têm origem criminosa e ainda bem. Normalmente, têm origem na negligência. As regras para as queimas e queimadas estão estabelecidas. É preciso pedir autorização ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, há um parecer do município e tem que se localizar o sítio. A autorização só é permitida consoante o risco de incêndio para aquele dia. Mas há pessoas que arriscam porque pensam que as queimas, nem que seja no meio de uma lavrada, estão controladas. Mas isso não é verdade. Há partículas incandescente que saem a voar pelo ar e podem pegar fogo noutro local, até a centenas de metros. Outra das causas é, depois da queima, as pessoas abandonarem o local, sem a apagarem bem. Depois, durante a noite, essas tais partículas podem voar e podem gerar um incêndio. O que aconselhamos é que, quando não haja confiança ou haja dúvidas, peçam ajuda aos presidentes de junta ao à câmara.

Estamos num território de fronteira. Os bombeiros de Bragança trabalham várias vezes em parceria com os espanhóis. Isso tem aumentado nos últimos tempos, tanto Bragança prestar ajuda como o contrário?

A ajuda é recorrente há alguns anos e temo-la aproveitado mais agora porque temos notado mais disponibilidade dos nossos vizinhos. Acho que temos muito mais para receber do que para dar. Os espanhóis, a zona de Castela e Leão e da Galiza, têm mais meios que nós. Além disso, eles preocupam-se porque os ventos predominantes são de oeste e, por isso, qualquer foco de incêndio que possa haver do nosso lado, mais tarde ou mais cedo, vai entrar no lado deles. Assim, eles agora são mais breves a ajudar-nos, porque evitam que o incêndio entre no espaço deles. Com pena minha, não temos tanto para oferecer, porque eles têm mais meios, e nós acabamos por beneficiar com o protocolo nacional que há, em que nós podemos entrar até 30 quilómetros do lado deles e ao contrário igual. Eles têm mais meios aéreos, máquinas de rasto e mais meios de combate do que nós. Quase me arrisco a dizer que Castela, Leão e Galiza têm mais meios aéreos que Portugal inteiro.

É, há dois anos, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Bragança. Como tem sido essa experiência? O que mudou?

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Na verdade, não mudou grande coisa. Sou elemento de comando há 20 anos, fui adjunto de comando três, segundo comandante 15 e comandante há dois. Enquanto segundo comandante tive a sorte de ter um comandante que punha em pratica as minhas ideias e que me deixava fazer, com regras, aquilo que eu propunha. Por isso, quando passei a ser comandante não senti grande diferença. As pessoas eram e são as mesmas, já era eu que delineava as estratégias e. no fundo, acaba por ditar as regras. No fundo, é o seguimento do trabalho que fizemos até àquela data e na minha opinião tem sido um bom trabalho.

Quais são os principais problemas que a corporação enfrenta neste momento?

Quando tomou posse disse que os bombeiros gastavam mais 10 mil euros por mês em combustível. Em 2022 gastavam-se cerca de 28 mil euros em combustível e em 2021 o valor era 18 mil. Já o preço pago o transporte de doentes mantinha-se inalterado há 10 anos, situando-se nos 51 cêntimos por quilómetro. Como está toda esta situação? Há dois anos atravessávamos aquela crise do preço dos combustíveis e isso agora está equilibrado. Além disso, houve um ajuste no pagamento do transporte de doentes. Há colegas que vão achar isto estranho mas, o transporte de doentes, em Bragança, sustenta a corporação. A maior fatia de lucros vem daí. Claro que, depois, os lucros são investidos, novamente, no transporte. É nisso que temos vindo a investir nos últimos anos. Temos 33 ambulâncias e 23 motoristas. É uma estrutura pesada para a associação. São 23 ordenados e 33 carros que precisam de manutenção, que andam todos os dias na estrada, mas temo-nos mantido, trabalhando para a Unidade Local de Saúde do Nordeste, para os hospitais de Vila Real, Coimbra e Porto.

Quanto é a facturação mensal?

O ano passado, a média de facturação mensal era de 104 mil euros.

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E tem vindo a crescer?

Sim, mas crescer significa que vai havendo menos valências em Bragança. Cada vez que há menos valências há mais pessoas a terem que ser transportadas.

E a subida do preço do quilómetro?

Subiu de 51 para 60 cêntimos. Ainda não está naquilo que queremos. A liga faz, quase todos os dias, pressão no Ministério da Saúde, para chegar a outros valores, mas a liga tem tentado chegar aos preços que acha que serão vantajosos e, ao longo destes anos, tem conseguido.

Os bombeiros estão em constante processo de formação. É muito diferente ser bombeiro nos dias de hoje?

É muito diferente. Quando comecei aprendíamos com os mais velhos e com a prática. Víamos uns slides numa noite ou duas. Hoje um estagiário tem uma formação de nove meses e durante esse tempo não pode ir para a rua, fazer serviço operacional. Ao fim desses nove meses é sujeito a um exame e só aí é que começa a absorver a experiência dos colegas. Se me pergunta se é melhor ou pior… acho que quando vão para a rua estão mais preparados que nós, naquela altura, mas o ponto negativo é que as pessoas quando vêm para aqui vêm como voluntárias e tê-las nove meses em formação, não as deixando ir para a rua, acaba por as desmotivar. Noutros tempos havia turmas que começavam com 20 elementos e chegavam 15 ao fim. Agora, se chegarem cinco ao fim já ficamos muito contentes. Além disso, as turmas são cada vez mais pequenas. Estamos a abrir turmas de 12 e temos que ter inscrições abertas por dois ou três meses. Temos aberto turmas quando as aulas começam e há muitas pessoas que vêm para o PIB mas, depois, quando acabam o curso vão-se embora. Os jovens da terra inscrevem-se, mas, depois, também nos deixam porque saem de Bragança para estudar ou trabalhar. Desta forma, temos que contratar mais pessoas mas voluntários há cada vez menos. Nós, há 10 anos, conseguimos fazer sete equipas de combate a incêndios, essencialmente de voluntários. Hoje em dia quase temos que pedir às pessoas para vir.

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Quantos profissionais tem a corporação de Bragança e quantos voluntários? Há falta de elementos? Como é que pode ser ultrapassado este problema?

Há 62 profissionais. Ao todo, entre profissionais e voluntários somos 117. O nosso maior problema tem sido mesmo o abandono por parte dos voluntários.

Além de voluntários, o que é que faz mais falta aos bombeiros de Bragança?

Normalmente, pedimos sempre mais meios mas, neste momento, Bragança tem um plano de reequipamento, que era para ser executado, durante este ano, e já está até feito. Até o transcendemos porque compramos um veículo a mais do que o que estava programado. Adquirimos um veículo de combate a incêndios urbanos e um veículo de comando. Temos em curso um projecto para modificação do telhado. Estamos à espera dos fundos do PRR. A nível de equipamento, temos que ir substituindo as ambulâncias que têm o seu desgaste natural. Mas estamos bem equipados para os próximos cinco ou 10 anos. Durante este ano vamos ainda modificar o fardamento dos bombeiros, que corresponde aos novos regulamentos. O que falta mesmo é que os jovens se atrevam, arrisquem e venham conhecer os bombeiros. Vão sair daqui com um sentimento agradável.

É essa a grande mensagem que quer deixar?

Sim. As pessoas podem vir, até aos 45 anos, inscrever-se. Depois, se não gostarem e quiserem desistir, ficamos amigos como antes. Mas tenho a certeza que vão ter uma surpresa.

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