Aethel Mining só veio “atrasar” o “importantíssimo projeto” das minas de Torre de Moncorvo

Foi anunciado e prometido o regresso da exploração de ferro em Torre de Moncorvo, com a Aethel Mining, mas, para uns, o que falhou foi a má gestão e, para outros, foi tudo uma questão de aproveitamento político

28 jan. 2025, 09:28

Este artigo tem mais de um ano

Após quase quarenta anos de abandono, a atividade mineira regressou a Torre de Moncorvo em março de 2020, através da Aethel Mining Limited, que previa investir cerca de 550 milhões de euros, ao longo de 60 anos. A empresa britânica, detida por Ricardo Santos Silva e pela norte-americana Aba Schubert, comprou, em fevereiro de 2020, a MTI – Ferro de Moncorvo, que era detentora da concessão da segunda maior jazida de ferro da Europa, desde 2016. Numa primeira etapa seriam criados mais de 200 postos de trabalho diretos e nas seguintes a estimativa era criar mais 250. De facto, a empresa ainda laborou durante algum tempo, mas nada do que estava previsto, pelo menos nos sonhos da população, que esperava ver economicamente o concelho Torre de Moncorvo revolucionado.

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Concluída a primeira fase de trabalhos, há quase um ano, o projeto de execução da fase definitiva de exploração foi chumbado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Considerou-se que o Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE) apresentado não permitia demonstrar o “cumprimento” das condições da Declaração de Impacte Ambiental (DIA), emitida em fase de estudo prévio, nem integrava “informação suficiente” que permitisse “avaliar” o projeto de execução e a “plena minimização dos impactes ambientais que lhe estão associados”. Quando se deu o arranque dos trabalhos, a Aethel Mining, segundo Ricardo Santos Silva, estava “muito entusiasmada com o reinício da operação mineira neste ativo histórico”, que levaria Portugal, “de volta, a uma posição de liderança na mineração europeia”. Os trabalhos duraram pouco tempo, no Cabeço da Mua, na União das Freguesias de Felgar e Souto da Velha, para desgosto de vários moncorvenses, que ainda esperaram ver o concelho cheio de gente, como nos tempos da “verdadeira exploração”, na altura da Ferrominas. O ativo histórico está, de novo, sem alguém que o explore e já poucos acreditam que alguém volte a pegar nele.

“Se avançarem com alguma coisa é só para comerem mais alguns milhões”

Segundo João Teixeira, do Carvalhal, aldeia que pertence à União das Freguesias de Felgar e Souto da Velha, “do nada”, os trabalhadores que se viam por ali “desapareceram”. “Nem pagaram a muita gente”, contou sobre o que se diz, na aldeia, acerca da empresa, assumindo que “os camiões chegaram a estar parados mais de duas semanas” e “não carregavam enquanto não viesse o dinheiro”. João Teixeira tem ainda bem presentes os tempos da Ferrominas, exploração terminarada em 1983. Quando foi anunciado que a exploração iria ser retomada, pela Aethel, ficou com grandes expetativas mas, hoje em dia, sente apenas revolta. “O presidente da câmara prometeu que as minas iam arrancar, até o António Costa, mas era tudo aldrabice”, frisou, alegando que “prometeram mundos e fundos” mas “nada de nada”. Conforme referiu ainda, o projeto deverá ser retomado. É o que consta na aldeia. João Teixeira não acredita que isso mesmo aconteça porque “se o minério fosse bom já há muito tempo que o tinham levado”. “Se avançarem com alguma coisa é só para comerem mais alguns milhões”, lamentou. Adriana Sanches também vive no Carvalhal. Também esperou muita coisa, inclusive que a localidade se enchesse de gente, mas “ficou tudo em águas de bacalhau”. “Não se concretizou nada do que falaram, do que prometeram. Esperámos que isto voltasse a ser como antes, eu lembro- -me bem desses tempos, e tinha sido bom que tudo se concretizasse. Pensamos mesmo que ia acontecer mas não aconteceu”, lamentou. Segundo a habitante do Carvalhal, que reside junto à estrada por onde, todos os dias, iam passando os camiões que ainda ali circularam algum tempo, levando o minério, “a única coisa que fizeram foi sujar”. “Não sei se tiraram dali muita ou pouca coisa nem porque é que foram embora. Não sei nada, só sei que vinham de lá de cima e só traziam lixeira. Pela estrada fora era uma coisa impressionante”, rematou, dizendo que “no verão nem se podia estender a roupa”. Adriana Sanches também já ouviu dizer que o projeto será reativado mas… espera que não aconteça. “Se for para destruir e para nos dizer que agora é que vai ser é melhor estarem quietos”, assinalou. Alípio Rodrigues trabalhou para a Ferrominas. Não se quis alongar em explicações porque, conhecendo os tempos áureos da exploração, soube, desde logo, que “nada volta a ser como antes”. “Tenho 86 anos e já não acredito nada. São tudo aldrabices”, indicou.

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Aethel atrasou projeto “extremamente importante”

Carlos Guerra foi consultor da MTI, desde 2010, e da Aethel, a partir de 2020, mas abandonou o projeto muito antes de os trabalhos terminarem porque verificou que “não era gente credível”. “Não percebiam absolutamente nada daquilo que estavam ali a fazer. Depois percebeu- -se que eram gente de muito más contas. Esqueciam-se de pagar aos fornecedores, aos prestadores de serviços”, clarificou, dizendo que passou à empresa o que sabia, estando tudo “legal e licenciado”, à época da negociação com a MTI. O projeto, para Carlos Guerra, é “extremamente importante”, mas “há coisas que, às vezes, gravitam à volta de más administrações”. Para o ex-gestor uma coisa é certa, a administração, que “até se propôs comprar o Chelsea, comprava tudo”, veio apenas “atrasar um projeto de grande importância para Torre de Moncorvo, para o distrito e para a região”. A atividade mineira é, legalmente, a “mais escrutinada que existe”, até no que diz respeito a garantias bancárias, emitidas, por exemplo, para irregularidades que sejam cometidas. Assim sendo, espera que o Estado “acione” a garantia bancária, pois “é uma pena se este projeto, com imenso potencial, terminar por causa de uma má administração”. Em fevereiro do ano passado, segundo o Jornal de Negócios, a Aethel não venderá a concessão das minas. Mesmo que a empresa o queira fazer, isso mesmo só pode ser negociado com autorização do Estado, entidade que pode também retirar a concessão à Aethel. “Se eles não cumpriram, o Estado pode retirar- -lhes a concessão. Parar a mina assim, sem mais, é uma falha muito grave”, terminou.

Silêncio “lamentável” por parte da câmara e da Aethel

“Lamentável”. É a palavra que o socialista Adriano Menino, vereador da oposição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, escolhe para descrever o silêncio da Aethel e do executivo autárquico sobre o fim do projeto, que “foi apresentado como uma solução milagrosa, a nível financeiro, económico e social, para o concelho”. “Para um concelho como o nosso seria uma revolução, inclusive até para a própria região, seria o ‘El Dorado’”, começou por dizer. Assim sendo, não restam dúvidas, “houve aproveitamento político”. “2020 foi ano pré-eleitoral, em relação às autárquicas, onde tudo se prometia, inclusive empregos para toda a gente, com base nas minas. Em 2021 essas promessas subiram de tom. Infelizmente, nada se concretizou. Começou a correr mal e os políticos fecharam-se em si próprios e ninguém disse mais nada”, esclareceu, assinalando que “a população nada sabe sobre o assunto e ninguém de direito vem a terreiro informar o que é que está aqui a passar”. O vereador levou, por várias vezes, o assunto a reunião de câmara, “ao longo dos últimos três anos” e, “sobretudo, a partir do momento em que foi chumbado o RECAPE”. “Fui alertando para aquilo que se ia passando, para o que ia vendo e auscultando, entre a população, que os trabalhos tinham parado, que empresas que laboravam para a exploração tinham começado a abandonar o trabalho por falta de pagamentos… fui constantemente alertando para o não cumprimento das expetativas, mas nunca obtive respostas”, clarificou, assinalando que nem o ex-presidente, Nuno Gonçalves, atual deputado da Aliança Democrática por Bragança, que, “quando o projeto foi apresentado, sempre que uma pedra mexia no cabeço da Mua ia lá tirar uma fotografia”, nem o atual presidente, José Meneses, que “diz que tem uma visão diferente e está solidário com os trabalhadores que perderam os postos de trabalho”, lhe responderam. Conforme o vereador, as minas empregaram gente de fora da região e cerca de duas dezenas de moncorvenses mas, “neste momento, não trabalha lá ninguém”. Aliás, “os últimos que saíram já foi em 2024, com salários em atraso”. “Nessa altura, alertei o executivo de que era preciso, urgentemente, tentar perceber, com a Aethel, o que se estava a passar com os postos de trabalho porque as famílias precisam de ter os vencimentos em dia e isso começou a não acontecer”, explicou Adriano Menino, que disse que não tem conhecimento de que a câmara tenha agido no que a esta matéria diz respeito, tão pouco mostrou sequer “interesse”. Os trabalhos começaram a ser interrompidos no ano passado, sendo que “pararam mesmo no final de 2024”. Mas… “a partir de 2022 as coisas começaram a correr mal”, quando foram arrestados bens das minas, como máquinas e equipamentos, devido a uma alegada dívida, de cerca de 250 mil euros, à empresa Nordareias – Areias e Britas do Nordeste. Em causa estaria a falta de pagamentos dos respetivos serviços, relativos aos meses de março, abril e maio daquele ano. “Logo aí os postos de trabalho aí começaram a diminuir”, contou Adriano Menino, que lembrou ainda que foi nessa altura que começou a “alertar para o não cumprimento da expetativa”, relativamente à própria autarquia, já que esta, no contrato de concessão, tinha direito a uma percentagem da faturação de todo o produto que saía da boca da mina, após pesagem. Segundo Adriano Menino, a câmara “tinha a obrigação contratual de acompanhar essas pesagens”, para depois ser ressarcida, mas, aparentemente, isso não aconteceu. “O que me foi dito, na altura, pelo presidente é que isso seria um assunto a resolver pela Direção-Geral de Energia e Geologia e estariam à espera do apuramento das pesagens. O que é certo é que a câmara nada fez. Recebeu em 2024 umas centenas de euros, apenas, mas não tenho ideia de quanto teria, na verdade, a receber”, esclareceu. Adriano Menino olha para trás e lamenta que o que tenha ficado tenha sido apenas a “desfiguração completa” do cabeço da Mua, de onde foram retirados os inertes, sendo que “uma das medidas compensatórias previstas era repor a paisagem”, mas isso também está por cumprir.

Empresa e expresidente em silêncio

Tentámos contactar a Aethel Mining. Os números de telefone da empresa, disponíveis no site da mesma, não estão atribuídos. Enviámos email, com algumas questões, mas a mensagem não foi entregue a nenhum dos endereços disponibilizados no site porque estes não são encontrados ou não podem receber mensagens. Contactámos o ex-presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Nuno Gonçalves, que se mostrou prontamente disponível para responder a algumas questões sobre o tema mas não o podia fazer naquele momento. Apesar de tudo, até agora, não conseguimos voltar a chegar à fala com o deputado social democrata.

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