Entrevista

Rui Borges recupera mística alvinegra e inicia uma nova era no S.C. Mirandela

Aos 36 anos, Rui Borges estreou-se no comando técnico do S.C. Mirandela e escreve uma página na história do clube. O treinador conseguiu o maior número de pontos em nacionais, 57, batendo os 53 de Vítor Maçãs, na temporada 2012/2013, e a melhor prestação de sempre no São Sebastião, apenas com uma de

24 abr. 2018, 08:59

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Aos 36 anos, Rui Borges estreou-se no comando técnico do S.C. Mirandela e escreve uma página na história do clube. O treinador conseguiu o maior número de pontos em nacionais, 57, batendo os 53 de Vítor Maçãs, na temporada 2012/2013, e a melhor prestação de sempre no São Sebastião, apenas com uma derrota. Em entrevista ao Nordeste, o “maestro”, alcunha que ganhou enquanto jogador, não poupou elogios aos jogadores.

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- Foi a tua época de estreia a treinar um plantel sénior correspondeu às expectativas que tinhas?

Para ser sincero penso que superou um pouco as expectativas. No início houve algum receio, que faz parte. Era o meu primeiro ano, sou um treinador jovem e a particularidade de treinar uma equipa muito jovem. A maioria era miúdos que vinham dos juniores, outros iam para o segundo ano de seniores e no primeiro jogaram no distrital. Confesso que tive algum receio que o trabalho demorasse a dar frutos. Mas, eu também sabia que os jogadores mais velhos e experientes, que têm muita qualidade, iam ajudar no crescimento deles. No entanto, eu tive a sorte de ter jogadores que estiveram sempre muito focados no que queriam e sempre disponíveis para trabalhar e aprender. Os miúdos acreditaram naquilo que pretendíamos e tentaram sempre cumprir ao máximo. O facto de eles serem muito competitivos, mesmo nos treinos, ajudou-me muito porque ao domingo deu os seus frutos.

– O facto de a equipa ter jogadores muito jovens fez com que demorasse a haver o entrosamento entre eles numa fase inicial da época?

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Agora é muito fácil dizer que temos grandes jogadores porque fizemos uma segunda volta espectacular. Mas se olharmos para o campeonato no seu todo podemos dizer que fizemos um grande campeonato. Porquê? Porque o objectivo era a manutenção, apesar de ao longo da época termos estabelecido objectivos internos. O objectivo pontual era 40 pontos e terminamos a primeira volta com 21 pontos, claro que os adeptos esperam sempre mais. Em casa fomos muito fortes, penso que uma equipa para garantir a manutenção tem que ser muito forte em casa e nós fomos, mesmo na primeira volta. Já fora não estávamos a ser tão competitivos.

No fim disto penso que fizemos um grande campeonato, não só uma grande segunda volta, que foi melhor que a primeira, mas no geral fizemos um campeonato excelente.

Depois, em relação aos jogadores mais novos dizer que o campeonato de juniores não é igual ao campeonato de seniores, mesmo vindo do Benfica, do Braga ou do Guimarães. Cada campeonato tem as suas particularidades e este campeonato também tem as suas.

– Os mais novos demoraram a adaptar-se ao Campeonato de Portugal?

Sim. Eles demoraram a adaptar-se e sentiram dificuldades em perceber esta competição. Nós com bola jogávamos bem mas estávamos a ser pouco objectivos e muito macios, por assim dizer. Demoraram a entender que tinham que ser mais equipa pois qualidade individual não faltava.

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– A equipa começou a funcionar a partir do momento em que o Mirandela manteve praticamente o mesmo 11 até ao final da temporada?

Não vou muito por aí. No início era muito questionado por algumas mudanças que fazia, ou por lesão ou por opção, mas não foi por ai. Todos sabiam o que tinham que fazer. Os jogos não são todos iguais, cada um tem as suas características e há jogadores também com características diferentes. A partir de uma certa altura realmente mantivemos o 11 base porque achei que estávamos numa boa fase e os jogadores que estavam a jogar estavam acima da média tem termos de qualidade individual e colectiva.

Penso que mudamos a partir do momento em que eles mudaram o chip. Houve momentos, já na segunda volta, que tivemos lesões mudamos o 11 base e continuamos a ganhar mantendo a qualidade colectiva. Mudámos sim a mentalidade. Não bastava dizer que queriam ser jogadores de futebol, tinham que se adaptar rapidamente aquilo que era o nosso campeonato e os nossos jogos, ao compromisso que tinham que ter com a equipa. A partir do momento em que todos perceberam isso a qualidade veio ao de cima.

“O compromisso deles com a equipa foi importante para o sucesso da nossa equipa”

– Estamos a falar de um plantel com várias soluções para as várias posições, com excepção no ataque que só contou com o Grinood a ponta de lança, foi uma dor de cabeça positiva teres várias soluções?

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Sim. Desde o início sabia que tinha soluções e estava tranquilo pois se não tivesse um jogador tinha outro que ia entrar e cumprir da mesma forma. Era uma questão de oportunidade. Até em relação aos mais velhos e dou como exemplo o Corunha, que teve a infelicidade de se lesionar e parar um mês e meio voltando o Vítor Pereira até ao final da época, fazendo um final de época acima da média. Estas são boas dores de cabeça. Claro que para o jogador é mau pois só podem jogar 11. Mas mesmo os que não jogavam perceberam que era uma questão de oportunidade e que todos eram solução. Temos bons exemplos disso de jogadores que jogassem 30 ou 5 minutos estavam sempre disponíveis. O compromisso deles com a equipa foi importante para o sucesso da nossa equipa.

Em relação ao Grinood tivemos que arriscar. É verdade que pretendíamos outro ponta de lança até para aumentar a competitividade interna, mas desde logo dissemos que não íamos contratar por contratar e tivemos a felicidade de o Grinood ser um profissional a mil por cento. É um rapaz que, mesmo sabendo que era o único ponta de lança, treinou sempre todos os dias no seu máximo, nunca facilitou, treinou como se tivesse concorrência no plantel.

– Olhando para os números deste campeonato já há algumas épocas que o Mirandela não se mostrava tão dominador no São Sebastião. O factor casa foi a chave para o sucesso desta equipa?

Voltar a ter um Mirandela dominador, ser o Mirandela antigo com as equipas a sentirem que no nosso campo iam passar dificuldades era um dos nossos objectivos. Para uma equipa como a nossa com o objectivo da manutenção a coisa mais importante é ser forte em casa. Conseguimos. Penso que também foi um dos factores que contribuiu para a nossa segunda volta tão boa pois as equipas vinham aqui já com o sentimento de que iam ter um jogo difícil. Na segunda volta só tivemos vitórias em casa.

- A única derrota em casa foi com o Vizela. Foi um resultado difícil de digerir se olharmos para aquilo que foi o jogo com uma excelente exibição do Mirandela?

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Sim porque estivemos a vencer e perdemos nos últimos dez minutos com lances duvidosos contra nós. Depois há o empate com o Pedras Salgadas em casa que também deixou alguma amargura porque tivemos a vencer e também houve alguns casos, acabámos o jogo com dez e são as contrariedades que há no futebol.

Mas tenho que realçar que superamos duas estatísticas, a marca pontual, que pertencia ao professor Vítor Maçãs que ficou em terceiro lugar na 2ª Divisão com 53 pontos e nós fizemos 57, depois este foi o ano mais forte do clube em casa, batendo a temporada em que fomos campeões da 3ª divisão com o treinador Luís Guerreiro. Nessa temporada perdemos nove pontos em casa e esta deixámos escapar apenas sete pontos. Esta equipa vai ficar na história do clube e isso deixa-me feliz.

- O facto de seres da terra e uma das referências contribuiu para devolveres a mística ao clube?

Penso que não. Há o ditado que diz que santos da terra não fazem milagres e por vezes as pessoas criticam por ter e por não ter. Por ser de Mirandela e sentir o clube como poucos sentem era algo que estava habituado. Nos últimos anos perdeu-se um pouco essa mística, apesar de agora não haver tanta gente no estádio por questões financeiras e até pelo facto de muita gente ter emigrado.

Pelo facto de ser de Mirandela queria voltar a sentir o que já tinha sentido como jogador aqui, no São Sebastião.

“Esta equipa vai ficar para sempre na minha memória”

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– Quanto ao futuro? É verdade que o clube vai a votos mas Carlos Correia já referiu que se for reeleito vais continuar a ser a aposta dele. Pergunto-te se a tua vontade é continuar ou se há outras abordagens?

Abordagens para já não há. Mas não adianta estar agora a falar em futuro pois o clube vai a votos e não se sabe se vai haver ou não mais listas. Sei desse interesse do presidente em querer continuar com a equipa técnica, médica e a maioria dos jogadores. Tenho que agradecer ao presidente, Carlos Correia, o facto de ter apostado em mim, pois foi a minha estreia como treinador principal de um plantel sénior, a ele o meu muito obrigado pelo voto de confiança e por todo o apoio. Agradecer também o facto de ele manifestar a vontade de contar comigo caso seja reeleito.

Quanto aos jogadores depois do campeonato que fizeram será difícil segurá-los e a maioria tem contrato com o Aves. Penso que todos, sem excepção, saíram valorizados.

A equipa técnica é como os jogadores, também tem ambição. Mas eu estou no início da minha carreira e sei que não vai correr sempre bem. Tenho que estar preparado para todas as situações.

– Mas a colocar o cenário da renovação não será fácil manter todos estes jogadores, apesar de ter o protocolo com o Aves …

Sim. A continuar no comando técnico sei que vai ser difícil ficar com muitos jogadores, mas vamos esperar. Este ano o campeonato acabou mais cedo e temos tempo para pensar.

– Foi um campeonato com um modelo competitivo novo. Foi benéfico ou nem por isso?

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Em termos de competitividade estava melhor com equipas com muita qualidade e com o mercado muito inflacionado com jogadores fora do alcance do orçamento do clube, por isso a parceria com o Aves foi muito importante. Depois, a parte mais complicada desde modelo foi o facto de descerem seis equipas. Sabíamos que ia ser uma grande luta mas tivemos a sorte de ter um grupo muito bom e com um grande compromisso. Acabámos por fazer uma época tranquila, não há palavras para descrever os jogadores, o mérito é todo deles. Esta equipa vai ficar para sempre na minha memória pois ficámos na história do clube e no meu ano de estreia como treinador. Todos os jogadores me deixaram muito orgulhoso.

– Como reagiste à descida do GDB ao distrital, um clube que já representaste e onde deixaste marca?

Acima de tudo não sou ingrato, sou transmontano e o facto de o Bragança descer é mau para o distrito e para a região. Não sou ingrato porque no Bragança passei três fases diferentes da minha carreia. Foi o meu primeiro clube como sénior, sempre me trataram nas três vezes que representei o clube como um filho, com todo o respeito e carinho desde directores, colegas, treinadores e adeptos. Fico triste por ter descido mas acredito que no futuro o Bragança vai voltar mais forte. A seguir ao Mirandela o Bragança é um clube especial para mim onde fui muito acarinhado e ainda sou.

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