Sociedade

Vontade de enfrentar doença com tranquilidade motiva transmontana a regressar às origens

Vontade de enfrentar doença com tranquilidade motiva transmontana a regressar às origens
Imagem do avatar
  • 8 de Julho de 2026, 08:25

A viver em Lisboa, para Sofia Ruano, de 45 anos, natural de Mogadouro, o caminho de volta a Trás-os-Montes não é uma desistência. É a tentativa de reconstruir uma vida que recentemente mudou para sempre. Em abril de 2024 descobriu que tinha cancro da mama, mas o tempo acabaria por revelar uma realidade mais dura. A doença já tinha metastizado para o fígado e, mais tarde, também para os ossos.

Hoje, Sofia Ruano vive com uma doença oncológica, mas recusa-se a abandonar os sonhos, ao mesmo passo percebe que o tempo não é uma promessa garantida, mas sim um bem precioso. E é assim que está a preparar-se para voltar a Trás-os-Montes, onde o tempo viaja sem pressa.

Durante anos, Sofia construiu a sua vida, trabalhou, criou projetos e educou a filha na capital, mas a doença obrigou-a a abandonar o trabalho, a mudar a rotina familiar e ensinou-a que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Agora prepara as malas para regressar à terra onde nasceu. Não porque desistiu, mas porque acredita que é ali que pode continuar a lutar. “A cidade, neste momento, é muito stressante. Uma pessoa não tem tempo para viver o dia a dia com calma nem para ter prazer nas pequenas tarefas”, começou por contar.

É precisamente esse tempo que Sofia procura recuperar. Tempo para cuidar de si, para estar com a filha, para olhar, com calma, uma paisagem, tempo para respirar.

Sofia Ruano e a filha

Um regresso para recomeçar

Durante meses, Sofia Ruano percebeu que já não conseguia fazer aquilo que antes parecia automático. Preparar o jantar, limpar a casa, levar a filha à escola… tudo passou a exigir um esforço enorme. “Houve uma altura em que não me conseguia mexer”, esclareceu, explicando que foi aí que pediu “ajuda” à mãe, que há mais de três meses deixou Mogadouro para acompanhar a filha, em Lisboa.

Agora, terminado o ano letivo da filha, que tem sete anos, chegou o momento de inverter o percurso. Mãe, filha e avó regressam a Trás-os-Montes, onde Sofia acredita que poderá reconstruir a vida.

“Não quero depender dos meus pais para sempre”

O regresso não significa acomodação. Muito pelo contrário. Embora vá viver inicialmente em casa dos pais, Sofia Ruano quer ser independente e ter uma vida normal. “Não quero alterar completamente a vida deles nem quero perder a nossa privacidade”, contou, esclarecendo que o sonho passa por construir espaço para as duas. Nada de luxos, apenas um espaço onde possa viver com a filha, mantendo a proximidade dos pais sem abdicar da autonomia. “Gostava de conseguir construir uma casinha de madeira ou um anexo onde pudesse ter o meu cantinho e fazer as minhas coisas”, rematou ainda.

O sonho é simples, mas, neste momento, distante das possibilidades financeiras da família.

Quando a doença obriga a parar

Antes do diagnóstico, Sofia Ruano trabalhava. Hoje, isso deixou de ser possível.

Sem emprego e com uma filha para criar, passou a depender da ajuda dos familiares. Uma realidade difícil de aceitar. “Não quero depender a 100% dos meus familiares para poder dar alguma coisa à minha filha”, explicou.

A voz quebra ligeiramente quando fala da menina. Quer continuar a proporcionar-lhe uma infância feliz, a comprar-lhe aquilo de que precisa. É precisamente por isso que decidiu ultrapassar o receio de pedir ajuda.

Há poucos meses, amigas falaram-lhe da possibilidade de criar uma campanha de angariação de fundos através da plataforma GoFundMe e acabou por perceber que, naquele momento, era a única forma de continuar a fazer planos. Assim nasceu a campanha “Força para Continuar”.

Mais do que financiar tratamentos complementares que possam melhorar a sua qualidade de vida, a campanha pretende garantir condições para que Sofia consiga recuperar alguma independência.

O sonho de voltar a criar

Muito antes da doença ocupar os dias de Sofia, as mãos sabiam criar. Entre linhas, couro, pedras naturais e fios de macramé nasceram dezenas de peças artesanais.

A criatividade continua intacta. O corpo é que já não acompanha da mesma forma. Ainda assim, Sofia recusa desistir. “Tenho máquinas de costura industriais e gostava muito de continuar a costurar”, explicou, dizendo que imagina um pequeno espaço em Mogadouro, onde possa vender os seus trabalhos e, assim, voltar a ter rendimentos.

As peças podem ser conhecidas através das páginas Galáxia Espontânea, no Facebook e Instagram.

Comprar uma peça é, hoje, muito mais do que adquirir artesanato. É ajudar uma mulher a continuar a acreditar que ainda pode construir futuro.

Desespero que faz acreditar em tudo

Quando recebeu o diagnóstico, Sofia fez aquilo que tantas pessoas fazem perante uma doença grave, procurou todas as possibilidades que pudessem ajudá-la. Não queria substituir a medicina, mas sim encontrar algo que lhe desse mais qualidade de vida, que reforçasse o organismo. Foi assim que começou a procurar terapias complementares.

Visitou uma naturopata, recorreu a uma clínica de medicina integrativa, experimentou suplementos alimentares e até alterou profundamente a alimentação. O resultado foi precisamente o contrário daquele que esperava. “Não correu muito bem. Como tenho metastização hepática, o fígado já estava muito sensível e não suportou aquele tipo de suplementação”, contou, esclarecendo que, neste momento, tem o fígado “bastante intoxicado”.

Olhando para trás, acredita que o medo a levou a procurar soluções rápidas. “O desespero, o querer viver, faz-nos agarrar a tudo o que possa parecer uma solução”, vincou. É precisamente por isso que faz questão de deixar um alerta. Não um julgamento. Um alerta. “Nenhuma dieta extremista é correta. Hoje percebo que devemos comer um bocadinho de tudo e não acreditar em promessas milagrosas”, assinalou.

Ciente de que qualquer tratamento complementar deve ser sempre discutido com quem acompanha clinicamente o doente, hoje Sofia está certa de que a ajuda hospitalar é demasiado preciosa. “Sem ela não vamos conseguir travar a doença”, admitiu ainda.

A campanha “Força para Continuar”, disponível na plataforma GoFundMe, continua ativa e é uma das formas de apoiar este novo começo. Cada contributo ajudará Sofia a concretizar o sonho de recuperar alguma autonomia financeira, adaptar a nova vida em Mogadouro e continuar os cuidados de que necessita.

Outra forma de ajudar passa por conhecer e adquirir o seu trabalho artesanal. Através das páginas Galáxia Espontânea, no Facebook e Instagram, é possível encontrar bolsas em pele, peças em macramé e outras criações, bem como encomendar trabalhos personalizados.

Proponha um artigo de opinião:
info@pressnordeste.pt
Abrir
Imagem do avatar
Written By
Carina Alves