À Luz de Stonewall
No passado dia 28 de junho, celebrámos o Dia Internacional do Orgulho LGBT+ e, como feminista e defensora dos direitos humanos, não poderia deixar de refletir sobre esta temática. Sendo este um assunto que ainda gera alguma controvérsia e polarização na sociedade civil, considerei importante expressar o porquê da celebração deste marco histórico.
Nos anos 60, a homossexualidade era considerada crime em quase todos os estados dos EUA. Era proibido dar a mão em público a uma pessoa do mesmo sexo ou usar roupas que não correspondessem ao género imposto pela sociedade. Devido a esta perseguição, a comunidade LGBT+ socializava em bares clandestinos. Um deles era o Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan — um refúgio para drag queens, jovens sem-abrigo, pessoas trans e homossexuais.
As rusgas policiais a estes locais eram constantes. Mas, na madrugada de 28 de junho de 1969, a comunidade decidiu que não iria permanecer calada perante a injustiça. Em vez de fugirem ou cederem à humilhação, optaram por enfrentar a opressão policial. Juntos, iniciaram o maior protesto até então visto, numa luta corajosa pela sua dignidade e aceitação.
Este assunto, para a maioria dos leitores do Jornal Nordeste, pode soar distante, banal ou até de pouca relevância. Alguns poderão comparar-se e argumentar que as suas vidas também são repletas de injustiças e que não se sentem representados nem escutados. É precisamente aqui que reside o ponto central: uma injustiça social nunca apagará outra. A luta pelos direitos LGBT+ não é maior nem menor do que a luta por salários dignos, por habitação acessível ou por serviços públicos de qualidade. Pelo contrário: no dia em que os direitos humanos estiverem plenamente acessíveis a TODOS, toda a sociedade beneficiará.
Vejamos o exemplo da saúde mental. Portugal tem uma taxa de mortalidade por lesões autoprovocadas intencionalmente (suicídio) de 9,2 por cada 100 mil habitantes. Se analisarmos por género, a taxa é muito superior nos homens (14,6) em comparação com as mulheres (4,3). Além disso, a probabilidade de um jovem LGBT+ tentar o suicídio é 2 a 5 vezes superior à de jovens heterossexuais cisgénero. Se aumentarmos a presença de profissionais de saúde mental no SNS e, consequentemente, o número de consultas, estaremos todos a beneficiar de um serviço crucial para a população em geral — e que salvará vidas nesta comunidade em particular.
Coloquemos a questão noutra perspetiva. Em vez de nos incomodarmos com o hastear da bandeira LGBT+ em edifícios públicos — afinal, qual é o problema de, num dia específico do ano, se hastear um símbolo de celebração e promoção da aceitação de uma comunidade historicamente marginalizada? — ou com a autodeterminação de género dos nossos jovens (que diz respeito ao foro íntimo e à identidade de cada um), porque não falamos verdadeiramente dos grandes flagelos? Porque não falamos do bullying homofóbico e transfóbico nas escolas? Porque não ensinamos o respeito e a empatia pelo próximo?
Ninguém pode nem deve ditar quem o outro deve amar. Enquanto sociedade, devemos sim garantir ferramentas para que todos os cidadãos possam aceder às mesmas oportunidades, independentemente da sua identidade de género ou orientação sexual. É isto que está em causa.
Sejamos nós a dar este passo em frente na aceitação destes seres humanos tal como eles são, sem imposição de ideologias ou crenças, respeitando a liberdade individual de cada um. A comunidade LGBT+ não pede que todos pertençam a ela; pede apenas que aceitem a sua existência e que o preconceito dê lugar ao respeito.
Ouça a Caroline no Parlamento Jovem todas as sextas às 21:00 na Rádio Brigantia
