O chi-coração de Trump e Xi Jinping
Confesso que de política, de relações internacionais melhor dizendo, apenas sei o que leio, ouço ou vejo nos órgãos de comunicação social e que não tomo a sério tudo que me é apresentado, ainda que dê mais crédito a uns que a outros, como normal será.
Porque, é público e notório, nos ditos órgãos de comunicação proliferam analistas e especialistas de todos os quadrantes e tendências políticas que aparentam saber tudo de tudo, sem que digam de onde lhes vem tanto conhecimento, por que meios e com que fins.
De que resulta o gigantesco fenómeno de desinformação, com a consequente perturbação universal dos espíritos a que se assiste. E que não se aplica apenas a matérias políticas, devo acrescentar.
Pela minha parte, limito-me a emitir a minha opinião pessoal, livre e desinteressada, ainda que sem abdicar de valores em que acredito.
Posto isto, posso dizer sem mais rodeios, que considero a recente visita do presidente americano à China um acontecimento da maior relevância no actual contexto internacional, porque a Humanidade está carente de sinais positivos de paz e cooperação, por mais delicados que possam parecer.
Igual importância não teve o encontro, imediato, dos compadres Putin e Xi Jinping, prática rotineira que já conta mais de 40 reuniões, de carácter mais regionalista e em que o dirigente chinês, é por demais óbvio, terá posto o russo ao corrente da sua conversa com o americano.
Algum reflexo poderá ter, ainda assim, no conflito do Médio Oriente e não só, para lá do mútuo acerto de procedimentos de resposta a Trump.
Ora, na minha modesta opinião, que expresso com delicado toque humorístico, o mundo assistiu, em Pequim, a um ternurento chi-coração de Trump e Xi Jinping, que indicia louváveis propósitos de entendimento e cooperação e que serão sinceros de parte a parte.
Cooperação e entendimento que, como é óbvio, não vão por fim à fome no mundo, ao drama da emigração ou a tantos outros flagelos que presentemente afligem a Humanidade, mas que abrem caminhos a um relacionamento pacífico e construtivo entre a duas maiores potencias da actualidade, presentemente empenhadas numa concorrência desenfreada nos domínios comercial, científico e tecnológico, que já se se estende ao espaço exterior.
Ainda que o senhor Xi Jinping, até ver, esteja mais interessado em continuar a desenvolver a sua imensa teia comercial e dela usufruir pacificamente, sem afrontar a planetária malha militar americana, dela beneficiando, pelo contrário.
A guerra da Ucrânia não vai terminar de imediato só porque o senhor Trump e o senhor Xi Jinping se cumprimentaram cordialmente em Pequim, mas Putin também não ganhou acrescidos motivos para prosseguir a desastrosa aventura ucraniana, de que poderá mesmo ser forçado a retirar sem proveito nem glória, contrariamente ao que aconteceu em situações análogas.
Pela mesma razão, a loucura dos aiatolas iranianos transformarem o Golfo Pérsico num mar interior privativo e de se municiarem com ogivas nucleares continua a ser altamente problemática, e o mais provável até será que tais loucuras apenas cessem com a retoma de operações militares demolidoras, que poderão igualmente resultar no fim, tão almejado por americanos e israelitas, do regime teocrático de Teerão.
Aiatolas que, é opinião generalizada, são os maiores patrocinadores do terrorismo mundial e na Europa em particular, e que não se coibiriam de lançar uma bomba atómica sobre Israel, ou qualquer outro Estado da região, se acaso a possuíssem, por meros imperativos religiosos e geopolíticos que só eles entendem. De tais famas não se livram.
Para lá de que, quer o senhor Trump, quer o senhor Xi Jinping e muito boa gente, signatária ou não do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, não estarão interessados em permitir que o clube nuclear se alargue, dê lá por onde der.
Maior incógnita, ainda assim, será, quanto a mim, Taiwan, oficialmente República da China, agora confrontada, por ironia da História, com a ameaça de outra república chinesa, a República Popular da China, um país aparentemente socialista, de partido único, que é o mais populoso do mundo e que se tem aproveitado das vantagens do famigerado capitalismo para se converter na segunda maior economia global.
Diferendo que, a menos que Trump e Xi Jinping se concertem em negócios geopolíticos que só eles podem concertar, consumando uma clara traição americana a Taiwan, poderá redundar num confronto militar da maior violência e de consequências imprevisíveis. Não é por acaso que Xi Jinping tem vindo a tratar o assunto com extrema cautela.
Resta-me augurar, depois de tudo que atrás fica escrito, que o ternurento chi-coração de Trump e Xi Jinping, não redunde num esmagador abraço de ursos.
Sempre se deve ter em conta que Donald Trump, ainda que na perspectiva ocidental tenha coisas positivas, não é personalidade confiável. E que alguns líderes da Europa vão continuar a primar pela pusilanimidade e pela traição aos valores europeus.
