Entre promessas e abandono
O tema que vos trago este mês daria para um filme de Marco Martins ou por António Pedro-Vasconcelos. Mas não é de filmes que vos quero falar, mas sim de feridas territoriais que o tempo ainda não sarou.
Tudo começou a 15 de Dezembro de 1991 com um descarrilamento em Sortes, no troço da linha ferroviária que ligava Mirandela a Bragança, devido à falta de manutenção da Linha do Tua, forçando o fecho desta linha durante o Governo de Aníbal Cavaco Silva.
Durante quase um ano, a população desta região foi vítima de falsas promessas ou, se preferirem, mentiras de apaziguamento, garantindo que seria apenas uma suspensão temporária e que os comboios estariam apenas para reparação. Meses depois, na madrugada de 14 de Outubro, os operários ferroviários, sem saberem para o que iam, foram chamados ao serviço sem qualquer tipo de explicações para descobrirem qua a sua missão era retirar as últimas automotoras à socapa a meio da noite sob escolta policial. Cortando as ligações telefónicas e as emissões de rádio, garantindo assim que os contactos locais e os movimentos de cidadãos não fossem avisados, impedindo o povo de se mobilizar, mas o esquema montado não impediu que a informação se espalhasse por toda a cidade e a população se mobilizasse para aquele local, ficando esta noite conhecida como “A noite do Roubo”, que confirmou o definitivo fim da ligação ferroviária.
Este desmantelamento da linha do tua não foi apenas a perda de um meio de transporte, mas um golpe na realidade demográfica, económica e social da região. Levou ao isolamento de pequenas povoações que dependiam deste meio de transporte para aceder aos centros urbanos, nomeadamente Bragança e Mirandela, acelerando o despovoamento. A. nível económico, fez com que as empresas ficassem totalmente dependentes do transporte rodoviário, o que levou a um aumento dos custos logísticos e teve um peso negativo na atração de grandes investimentos industriais, criando uma barreira económica e um monopólio rodoviário.
Os transmontanos ficaram dependentes de transporte privado para qualquer deslocação básica, com o custo de vida a aumentar. Enquanto isso, o litoral beneficiou de investimento em transportes e de medidas como o PART, em vigor desde 2019, que permite a redução dos preços dos transportes públicos e que foi aplicado de forma incipiente na nossa região.
Depois temos também as ecopistas, que a meu ver vieram disfarçadas de projetos ecológicos, de lazer e turísticos para confirmar a certidão de óbito da ferrovia, retirando o comboio para depois asfaltar a ideia de voltar, continuando Bragança a ser uma das poucas capitais de distrito Europeia sem uma ligação ferroviária.
Falamos muito da reabilitação da velha estrada que liga Bragança à Puebla de Sanabria. É verdade que fazendo a reabilitação desta estrada o tempo de viagem será encurtado, no entanto, este foco tão grande só reforça a dependência externa com que ficaremos do transporte e da estação da Sanabria, quando o essencial seria a estruturação de uma rede nacional interna que ligue o nosso distrito diretamente ao Porto e ao resto do país.
Apesar do PFN e de estudos recentes para a viabilidade do Alta Velocidade, impulsionados em 2025, trazerem alguma esperança com a ligação Porto-Vila Real-Bragança-Zamora, vemos um “efeito túnel” ao virar da esquina. Precisamos de uma rede regional intermodal que sirva e una Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança e não que estes fiquem apenas a ver passar o comboio.
A coesão territorial não se faz apenas com grandes obras mediáticas, mas sim garantindo igualdade de direitos no interior e no litoral. Exigindo a recuperação de linhas ferroviárias encerradas, reforçando a CP enquanto empresa pública estratégica, voltando a produzir material circulante no país e garantido serviços regulares para as populações, investindo no interior, não como favor, mas como obrigação do Estado. Não se trata de falta de alternativas, mas de falta de vontade política para garantir o direito à mobilidade no interior.

