Treze mulheres, doze mães e uma lição de vida
Abril despediu-se com chuva e trovoada, veio forte, veio certa, e deixou nos campos o sinal de que a vida continua. E assim entrámos em maio, com a tradição das Cantarinhas a dar cor a Bragança e com o Dia da Mãe a tocar fundo no coração de todos. Mas hoje, mais do que o calendário, importa falar de pessoas. De coragem. De alma. E é aqui que entram as mulheres da aldeia de Baçal concelho de Bragança.
Treze mulheres. Doze mães. Um caminho. Uma história que merece ser contada devagar, como quem saboreia cada passo.
Este grupo, maioritariamente de, Baçal decidiu fazer o Caminho de Santiago. Algumas repetiram a experiência do ano passado. Outras foram pela primeira vez. Mas todas partiram com o mesmo propósito: viver, sentir, superar.
A organização esteve nas mãos da Sónia Afonso, mãe da nossa gaiteirinha Leonor, mulher de garra, mãe de três filhos, que conseguiu unir este grupo com espírito de entreajuda e determinação. Ao seu lado, a Cristina Tomé, mãe de dois filhos, companheira nesta aventura e já parte desta grande família.
Das que voltaram, encontramos a Sónia Maris, mãe de dois filhos adultos; a Cílvia Pires, mãe de dois filhos; a Marisa Maris, mãe de um filho; e a Inês Maris, filha de Olga Maris e mãe de dois meninos, que ao longo do caminho foi também uma das vozes que nos trouxe notícias desta jornada.
E depois, as que se estrearam, e que nunca mais serão as mesmas depois desta experiência. Verónica Maris, mãe de três filhos; Pamela Rio, sua cunhada, mãe de dois; Tânia Gonçalves, a mais nova do grupo, com 33 anos, a única que ainda não é mãe, mas que ali encontrou também o seu caminho; Julieta Gonçalves, mãe da Sónia Afonso, avó da gaiteirinha, com dois filhos e três netos; Luísa Baptista, mãe de dois filhos e já com um neto; Elizabeth Rodrigues, que veio de França com a Luísa e a Julieta, mãe de três filhos e avó de quatro netos; e Andreia José Moreira, mãe de um filho. Treze histórias diferentes. Um só coração.
Foram seis etapas. Começaram em Valença, seguiram até Tui, depois Pontevedra, Armentera, Vilanova de Arousa, Padrón e, finalmente, Santiago. No total, 124 quilómetros. Mas quem olha apenas para os números não entende o verdadeiro significado deste percurso. Porque este caminho não se faz só com os pés.
Faz-se com dores antigas que vêm ao de cima. Com lágrimas que se soltam sem aviso. Com risos que nascem do nada. Faz-se a cantar, a dançar, a conversar… e às vezes em silêncio, aquele silêncio que diz tudo.
Todos os dias, houve ligações em direto para a rádio. A Inês Maris foi uma das vozes presentes, mas não esteve sozinha. Outras mulheres também falaram, partilharam o que sentiam, deixaram palavras para quem as ouvia em casa. E quem escutava, sentia-se ali. Como se caminhasse lado a lado com elas.
E no meio de tudo isto, há uma grande lição: a mochila.
Cada uma aprendeu a pesar o que levava, a contar gramas, a escolher bem o que era mesmo necessário. E isso diz-nos tanto sobre a vida… Quantas vezes carregamos o que não precisamos? Mágoas, preocupações, culpas, coisas que só nos atrasam o passo?
Ali, naquele caminho, perceberam que o essencial é leve. E que o que pesa a mais, fica pelo caminho.
Houve cansaço, claro. Houve momentos difíceis. Mas houve sempre entreajuda. Sempre uma palavra. Sempre uma mão.
E no fim, Santiago. O abraço. O sentimento de missão cumprida. O diploma, com os 124 quilómetros e os carimbos todos no lugar. Mas mais importante do que esse papel, foi aquilo que cada uma trouxe dentro de si.
Porque caminho sem dor não tem valor.
Estas mulheres de Baçal provaram isso. Que ser mãe é também ser exemplo. Que a força nasce muitas vezes da fragilidade. E que, juntas, são capazes de ir mais longe do que alguma vez imaginaram.
E nós, que as ouvimos, que as acompanhámos à distância, também fizemos um pouco desse caminho. Porque há histórias que não se contam apenas… sentem-se.
Estiveram de parabéns: André Júlio (94) Bragança; Nelson Trindade (91) Bragança; Luísa Fernandes (87) Bragança; Artur Morais (85) e sua esposa Isabel (76) Mirandela; Evangelista Romão (81) Caravela (Bragança); Aldina Rodrigues (77) Corujas (Macedo de Cavaleiros); Odete Garcia (75) Jou (Murça); Arminda Machado (73) Quintas da Seara (Bragança); Susana Muga (67) Vilariça (Mogadouro); José Monteiro (65) Quintas Novas (Pinhel); Marina Neto (45) Limãos (Macedo de Cavaleiros);; Diogo Alves (24) São Martinho (Miranda do Douro); Rúben Manuel (24) Bragança; Rodrigo Macieira (20) Vilarandelo (Valpaços); Bruna Fernandes (16) Bragança; João Pedro Nogueiró (16) Valverde (Valpaços); Diana Silva (14), de Cabeça Boa (Bragança); Fany Moreira (12) Estorãos (Valpaços); Maria Francisca (9) Grijó (Bragança).
Para todos, muitas felicidades nesta data querida e muitos anos de vida!

