Qual humanidade?
Uma sociedade mede-se também por aquilo que faz aos mais vulneráveis quando ninguém está a olhar. E os animais, dependentes, silenciosos, incapazes de denúncia, são muitas vezes o espelho mais honesto dessa medida. Não pedem linguagem. Não pedem explicações. Pedem apenas o mínimo. Cuidado.
Escrevo isto depois de ter visto um caso recente no Porto, em que três cães foram encontrados fechados numa varanda, em condições de negligência extrema, sem comida, sem água, reduzidos a um estado de sofrimento difícil de compreender. Sofrimento, puro e duro… praticado porque sim.
E um cenário destes não é apenas chocante. É revelador. Se há pessoas capazes de infligir isto a um ser vivo que depende inteiramente delas, que, à partida o têm a seu cuidado porque querem… então há gente capaz de tudo.
E é aqui que a sociedade começa a ser posta em causa.
Porque a pergunta central não é apenas ‘como é possível isto acontecer’. A pergunta mais dura é ‘que tipo de pessoa é capaz disto?’.
Quem é capaz de transformar um animal dependente num objeto descartável, condenado ao abandono dentro do próprio espaço onde deveria estar protegido? Quem é capaz de conviver com a fome, a sede e a degradação como se fossem parte aceitável da rotina? Quem é capaz de olhar para um ser vivo indefeso e escolher a negligência?
Isto não é um deslize. Não é um acidente. Não é um momento de fraqueza. É uma decisão. E é aí que está a falência.
Uma sociedade que permite que existam pessoas com esta capacidade de crueldade e que não as trava, não as impede, não as identifica, é uma sociedade que precisa de se confrontar com a sua própria estrutura ética.
Não se trata apenas do ato individual. Trata-se do que esse ato revela sobre o humano quando não há limite interior suficiente para o impedir. Trata-se da falha profunda entre o que sabemos que é errado e o que, ainda assim, alguém consegue fazer.
E é impossível fugir à pergunta. O que se quebra dentro de uma pessoa para que isto seja possível?
Não há resposta confortável. Há, sim, um retrato duro. A banalização da vulnerabilidade alheia. A ausência de empatia como travão. A capacidade de desligar o outro da categoria de “ser vivo” e reduzi-lo a algo que pode ser ignorado, esquecido ou deixado a definhar.
E é aqui que a sociedade também falha, não por não ver, mas por ter de reconhecer que isto existe dentro dela. Que há pessoas assim. Que não são exceções mitológicas, mas possibilidades reais dentro do mesmo tecido social.
Que gente é esta?
E mais incómodo ainda, como é que uma sociedade convive com a existência deste tipo de comportamento sem se reorganizar para o impedir com mais firmeza, mais vigilância, mais consequência?
Porque quando o sofrimento de um ser indefeso pode ser produzido por alguém sem que isso choque os fundamentos da comunidade onde acontece, então não estamos apenas perante um caso isolado de crueldade.
Estamos perante uma falha de humanidade.
