Desigualdade territorial até à última gota
Não faz manchetes, não ocupa minutos nos telejornais, mas até o simples ato de atestar o depósito revela a desigualdade profunda entre interior e litoral. Apesar de cerca de 80% do território do país ser interior, este espaço só ganha atenção quando arde, quando inunda ou quando o abandono produz tragédias. E mesmo nesses momentos, vemos o impacto acumulado de décadas de despovoamento, envelhecimento e desinvestimento.
Se o país fosse menos desequilibrado, se a população não estivesse esmagadoramente concentrada no litoral, provavelmente muitos incêndios seriam prevenidos com maior eficácia e, por consequência, os solos seriam mais resilientes às cheias. Pode parecer cliché, mas está realmente tudo ligado. O desaparecimento dos mais velhos, o desinteresse dos mais novos pela agricultura, a migração interna, a falta de emprego e de serviços, tudo contribuiu para um território cada vez mais abandonado, e as consequências estão à vista.
O interior é fértil, produz grande parte do que encontramos nos supermercados, mas apoia-se num setor de baixo valor acrescentado, a agricultura, que tem pouco peso político e, por isso, reduzida capacidade de influenciar políticas que corrijam as assimetrias.
Mas o que é que isto tem que ver com o preço dos combustíveis? Tudo. É verdade que encher o depósito custa o mesmo em qualquer parte do país, mas as desigualdades começam logo a seguir. Quando ouvimos o argumento, válido na teoria, de que o aumento dos combustíveis deve incentivar o uso do transporte público, percebemos a dimensão da bolha mediática. Que transportes públicos? Quem defende esta ideia já tentou fazer deslocações regulares entre concelhos do interior? Já tentou ir de Freixo de Espada à Cinta a Bragança e voltar no mesmo dia? Ou entre Salto, em Montalegre, e Vila Real? É então que percebemos que não vivemos todos no mesmo país.
Para quem vive no interior, a inflação pesa duas vezes, pesa como pesa a todos e pesa ainda mais porque o carro não é uma escolha, é uma necessidade. A sustentabilidade, tão promovida em conferências e colunas de opinião, é um luxo quando o Estado não garante alternativas. É fácil defender teorias ecológicas num gabinete climatizado em Lisboa, é difícil aceitar taxas e moralismos quando o frio dentro de casa é rotina e quando o salário mal cobre o essencial. A sustentabilidade é essencial e o combate às alterações climáticas também, mas não se pode exigir responsabilidade individual por “culpa” coletiva.
Querem educar para reciclar, reduzir plástico, mudar comportamentos? Ótimo. Mas então expliquem aos decisores políticos que até para ser sustentável é preciso ter condições mínimas. Ninguém adota comportamentos “superiores” quando luta diariamente para satisfazer necessidades básicas. E, como sempre, estas crises atingem primeiro, e com mais força, quem menos tem.
Falem da pobreza energética que afeta centenas de milhares de pessoas no interior.
Falem dos preços miseráveis pagos aos agricultores pelas grandes superfícies, que tantas vezes desmotivam até a colheita. Falem do abandono, do envelhecimento, da desertificação, da dificuldade de acesso à saúde, à educação e aos serviços públicos.
