A tradição mantém-se, mas a oferta não chega para a procura. A poucos dias da Páscoa, produtores de cordeiro e cabrito enfrentam um cenário de escassez, aumento de custos e dificuldades crescentes para responder às encomendas.
Em Cova de Lua, no concelho de Bragança, Alcino Reis, produtor de cordeiros há várias décadas, não esconde a preocupação. Aos 61 anos, diz que este ano há menos animais disponíveis e de menor tamanho. “Tenho 46, mas que sirvam são capazes de ser apenas uns 20”, explica. Ainda assim, as encomendas não param de chegar. “Há muitas encomendas e pouco produto”, resume.
O preço também sofreu um aumento. “Subiu um euro ou dois. Eu faço a 10 euros ao quilo, mas há quem faça a 12”, refere. A justificar esta subida estão despesas como vacinas, ração e, sobretudo, o combustível. “Esse acabou mesmo connosco. Subiu muito. Agora é tudo mecanizado e eu gasto cerca de 60 litros por dia”, acrescenta.
Apesar dos preços elevados, a tradição do cordeiro na mesa da Páscoa mantém-se. “As pessoas continuam a procura-lo, mas queixam-se que está muito caro. E nós também não conseguimos baixar”, admite. Um exemplo disso é um cordeiro de 12 quilos, que pode custar cerca de 120 euros.
Também no setor do cabrito o cenário é semelhante. João Silva, presidente da Associação Nacional de Caprinicultores de Raça Serrana (ANCRAS) e produtor, confirma que a oferta está longe de satisfazer a procura. “Os cabritos não chegam para as encomendas. Nós, pelo menos na ANCRAS, não temos cabritos que cheguem”, afirma.
A redução da produção é uma realidade que se tem vindo a acentuar nos últimos anos. “A criação tem vindo a decrescer e temos tido muitas dificuldades. A matéria-prima está mais cara: o gás, a comida, a ração… está tudo mais caro”, sublinha. Ainda assim, épocas festivas como a Páscoa e o Natal continuam a representar algum alívio financeiro. “Ainda vai dando algum dinheiro, mas não é suficiente para combater os custos de produção”, admite.
Do lado da procura, o interesse mantém-se elevado. João Silva dá como exemplo uma encomenda significativa: “Só o El Corte Inglés encomendou cerca de 150 cabritos.” No entanto, a escassez é tal que a associação nem sequer abriu este ano a sua plataforma de vendas online. “Não tínhamos cabritos para vender”, explica.
Também confirma a subida dos preços. “Estamos a pagar ao produtor 14 euros o quilo, preço de carcaça, e depois vendemos a 17 euros e qualquer coisa a particulares”, indica.
Apesar de tudo, a tradição pascal resiste. “Ter cabrito ou cordeiro à mesa não se perde”, garante. No entanto, há cada vez mais famílias para quem esta refeição se torna inacessível. “Muita gente não consegue tê-lo na mesa porque é muito caro”, lamenta.
A par das dificuldades económicas, há ainda uma preocupação estrutural: o futuro do setor. “Isto é uma vida muito difícil. Os jovens não se interessam”, alerta João Silva. Dos cerca de 150 associados da ANCRAS, estima que menos de 20 tenham menos de 40 anos. Um sinal de envelhecimento que levanta dúvidas sobre a continuidade da atividade.
