Facciosismo, pois então.
Opinião

Facciosismo, pois então.

  • 24 de Março de 2026, 14:37

Um dos maiores males deste nosso conturbado mundo, talvez o pior, é, quanto a mim, o facciosismo, que não devemos confundir com o fascismo, seja este na versão comunista ou nazista, ainda assim.

Facciosismo que se manifesta em muitos sectores da vida pública, como melhor se vê nas sociedades democráticas, com destaque para a política, a comunicação social e o desporto, futebol em especial.
Facciosismo que, convém lembrar, é a qualidade, o defeito, melhor dizendo, do faccioso, do sectário que, por tudo e por nada e de todas as formas e feitios, tenta impor e fazer valer a sua paixão ideológica, partidária ou clubista, numa palavra, a sua vontade.

Faccioso que, por regra, pensa e reage com o coração e não com a razão, denotando uma, ou todas, das características que assinalo: ignorância, incompetência, educação deficiente, mau perder e mesmo mau carácter.

Qualificativos que, como é óbvio, se revestem de especial gravidade se se aplicarem às denominadas figuras públicas, trate-se de políticos, de intelectuais, de profissionais da comunicação social ou mesmo de dirigentes desportivos.

Facciosismo que, em casos extremos, se transfigura no radicalismo e no fanatismo que mobilizam as legiões que sustentam guerras destruidoras, genocídios e crimes sem conta contra a humanidade como as que, lamentavelmente, se verificam presentemente no Médio Oriente, na Ucrânia ou na Nigéria. Fanatismo que, como é público e notório, assume inexcedível desumanidade e barbaridade no regime teocrático iraniano.

Facciosismo que entre nós, felizmente, não alcança expressão assim tão trágica, o que esperamos nunca venha a acontecer, mas que não deixa de ser o principal vício do regime político vigente, porque é cúmplice e dinamizador da corrupção generalizada, da incompetência demonstrada por muitos governantes e do funcionamento deficiente de sectores fundamentais da administração pública, com os prejuízos, injustiças e dramas que daí advêm, como melhor se vê no Serviço Nacional de Saúde. Sendo por demais evidente que, porque se faz sentir em organismos e cargos políticos, afecta gravosamente o interesse público.

Facciosismo que, como não poderia deixar de ser, tem uma versão regional, marcadamente provinciana, que vegeta, sobretudo, nas autarquias do chamado interior, como é por demais evidente, também porque é nestas que a subserviência dos eleitos locais ao partido respectivo é mais escandalosamente acentuada, constituindo um decisivo contributo para o subdesenvolvimento, o ermamento e as desigualdades regionais.

Facciosismo que motiva e orienta a despudorada partilha de cargos e de troca de favores, condenável a todos os títulos e, mais do que isso, promove o permanente esforço de branqueamento faccioso dos erros e fracassos governamentais, grandes ou pequenos.

Como não poderia deixar de ser, Trás-os-Montes em geral e o distrito de Bragança em particular, também têm muitos facciosos de estimação que, por sistema, se mostram mais empenhados e atentos aos cargos e mordomias de nomeação partidária, do que aos projectos e medidas que possam ter positivo impacto no desenvolvimento local e regional.

Como ainda recentemente se viu com nomeação dos cinco vice-presidentes da CCDRN, que mereceu vozes acaloradas de oposicionistas, só porque nenhum dos nomeados pertence ao distrito, quando os mesmos, ou todos eles, da oposição ou do governo, melhor dizendo, permanecem mudos e quedos perante o congelamento escandaloso das componentes do genericamente denominado projecto Vale do Tua, que é suposto produzirem impactos decisivos no desenvolvimento regional.

Triste é reconhecer que, embora correndo o risco de ser injusto, que será muito difícil encontrar políticos cuja intervenção pessoal tenha tido real efeito no desenvolvimento regional, sem recuar aos tempos da ditadura.

Direi mesmo que a região transmontana tem sido vítima privilegiada do facciosismo político-partidário, que está intimamente ligado ao servilismo de autarcas e deputados às facções partidárias que lhe alimentam as ambições, sediadas, claro está, nos partidos que entre si têm repartido os privilégios do poder.

Lamentavelmente, um regime político que privilegia facciosos e sectários, faz lembrar o país de brandos costumes de tempos que já lá vão.

Facciosismo, pois então. Não confundir com fascismo, seja este na versão comunista ou nazista, ainda assim, convém repetir.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.


Proponha um artigo de opinião:
info@pressnordeste.pt
Abrir
Imagem do avatar
Written By
Redação