O Santo
Volto a trazê-lo à ribalta porque no próximo domingo ele vai percorrer a notável aldeia de Lagarelhos e contrariando o prometido não posso estar junto à casa Buiça a recebê-lo. Antes de explicar os motivos do incumprimento da promessa afianço aos leitores não ser prosápia minha qualificar de notável a aldeia dos três deputados. Não é por isso, é por muito mais. Sendo terra de gente simples, maioritariamente pobre, os jesuítas concederam-lhe atenção, lá possuíam terras e esta aldeia para além do contingente de imigrantes, polícias, guardas-republicanos, criadas de servir, governantas, amamentadoras, também de lá saíram o cónego Francisco Teixeira de Araújo Roda e o Padre José Joaquim Fernandes Freire. Em 1751, o Papa Bento XIV, concedia indulgências à Confraria de Nossa Senhora da Conceição de Lagarelhos, coisa sabida por ti querido Santo, mas que alguns pandorgos e pandorgas não sabem, mas ficam a saber. Aqui há um taleigo de anos pela mão do meu amigo e emérito historiador – ele não vai gostar do qualificativo – Victor Serrão, hoje catedrático, topei e estudei documentos onde Lagarelhos vinha à baila por causa da Igreja e dos jesuítas seus patronos. Depois o Dr. Calado Rodrigues facultou-me outros e eis o segredo das revelações. Devo ao Victor esse abrir de olhos e por agora nada mais adianto, pois importa explicar os motivos da ausência. Caro Santo: como sabes tenho em mãos muitos cuidados – entenda-se trabalhos, além das viagens ali e acolá – hei-de contar-Te a minha estada em Moçambique e adjacências – mais algumas obrigações, sendo uma delas participar na sardinhada oferecida pelo meu amigo de há quarenta e três anos, o António José Ganhão estrénuo ribatejano e presidente da Câmara de Benavente quase desde a implantação da democracia. Ora, este ano a festa da sardinha calha no dia 28, véspera da festa em Tua honra. A sardinhada é escornada, roncada e grasnada como o caldo do Tio Suor, ou seja: além das sardinhas podem os participantes limar os dentes em carnes e enchidos variados, pão de qualidade e vinho a preceito – muito e bom. Antes do pós-prandial e da festa brava, tenho de honrar as sobremesas e os digestivos, para a seguir conceder tempo ao tempo de modo a não ganhar suores frios devido a uma possível ida ao balão. Como excelso e garboso Santo que és, dono de vistosa cabeleira e barbas encanecidas a significarem sageza e compreensão, percebes quão difícil seria arriscar-me a rumar até aí em más condições físicas. Naquela madrugada em que o galo cantou três vezes também Estavas indisposto. Lembras-te? No próximo ano não faltarei. Prometo. Mais prometo: numa próxima ida ao reino feliz – maravilhoso é exclusivo do poeta Torga – de Lagarelhos vou visitar-Te e falar algum tempo de modo a fazer-Te sorrir. Vai ser uma conversa animada e afiada, assim o penso, porque após tantos anos sem o fazer, tenho de abordar andanças, aventuras, triunfos e derrotas, agruras e júbilos, amores e desamores, paixões e saudades por um ror de coisas, algumas delas tolas e despropositadas fruto da verdura dos anos, naquele tempo em que colocava as ginjas roubadas à avó do Tó e do Lucas, nas orelhas do paciente Santo Estêvão. Boa festa preclaro São Pedro e faz-me um favor: caso os hinos sejam mal cantados faz o céu chover a bom chover. Pela falta, aceita as minhas desculpas, que são sinceras como sabes.

