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O tamanho conta?

O tamanho conta?
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  • 24 de Junho de 2008, 10:30

Não, caro leitor, isto não é ficção. Nem muito menos magia. Apenas um relato assolapadamente apaixonado do entontecedor jogo da Selecção Portuguesa com a República Checa, esplanchado nas páginas babadas do diário “O Jogo”. Quando, pelo visto, os deuses do futebol deviam estar um bocadinho loucos para quererem gozar com a gente, fazendo-nos “os primeiros do grupo”, com duas vitórias seguidas e fresquinhas capazes de já garantir o bilhete para a final e confirmando-nos como “os grandes”, “os melhores”, “os mágicos”, “os imortais”.
E foi então, que os deuses torceram o nariz, porque sentiram que alguma coisa não estava a cheirar-lhes bem. E perceberam que se tinham enganado na Selecção. É que nós estávamos com o equipamento alternativo, percebem? E até os deuses, a esta distância, se podem permitir pequenos enganos, confusões aparentemente inócuas que acabam por se revelar perigosas porque provocam euforias, subidas de tensão e, finalmente, ansiedades, angústias e depressões. Se não no momento, dali a uns dias, pelo menos. Como se viu no domingo seguinte quando, com a Suiça, a coisa virou. Claro que, cá em baixo, a questão foi desvalorizada. Porque aquilo era a feijões. Porque os jogadores que enfrentaram os suíços não eram os “de certo”. Porque os rapazes tinham ficado abananados com a notícia da partida do Mister Scolari para os relvados do Chelsea. E por isso escorregaram nas cascas uns dos outros, aos pés do suíço Hakan Yakin que pôs Ricardo a cacarejar duas vezes.
E já na véspera do jogo contra a Alemanha, nos quartos de final – ou porque sabia daquele seu saber “dji sempri”, ou porque nasceu num país abençoado pelos deuses (que lhe terão segredado algo suspeito) – Scolari deu início a uma actividade bem portuguesa, de seu nome “pré-justificação”. Não fosse o diabo ou o deus do futebol tecê-las, o Mister encontrou o bode expiatório para um eventual “desaire” dos quinas: a altura dos jogadores adversários. “Mertesacker tem 1,89 m; Klose mede 1,82; Metzelder tem 1,94 m (…). Tenho de me preocupar com todos, superar isso com a qualidade dos meus jogadores, que são menores”, esclareceu afoito. Scolari esqueceu-se de lembrar que Cristiano Ronaldo é menino para 1,88; Ricardo Carvalho mede 1,83; o central Pepe vê do alto dos seus 1,87; e Fernando Meira chega aos 1,90 m.
E isto é giro, é quase inteligente. Porque qualquer seleccionador que se preze e que se queira conhecedor da psicologia dos adeptos e bom técnico de marketing tem de saber adoptar tácticas que permitam criar um campo de defesas perante a desgraça que – tratando-se da selecção portuguesa – mais tarde ou mais cedo acabará por acontecer. Especialmente nos lances de bola parada, quando se está em frente a um adversário que fala alemão e que papou muito iogurte quando era rapazinho, verdade? O que sugerirá Scolari ao seu sucessor? Que seleccione os rapazes pela largura dos ombros e pelo metro e noventa? A altura não se inventa, mas o talento pode ser trabalhado, não?
Não há nada de novo, portanto, na nação portuguesa. Nem tão pouco na sua selecção. Como dizem os “especialistas”, fechou-se um ciclo com a eliminação dos portugueses do Euro 2008 e agora abre-se um outro, a caminho do Mundial de 2010. Que a bola nunca pára de girar. E, ao que dizem, o mundo é mesmo uma bola.
A esta hora, e certamente já a caminho de Londres – após umas merecidíssimas férias para desenfastiar da pasmada Suíça, Scolari diz que sai de Portugal “mais do que tranquilo”. E acrescenta: “Fiz sempre o meu melhor esperando que os jogadores também fizessem, e fizeram”. Estamos entendidos. Ninguém duvidará da sua tranquilidade como funcionário de luxo de Abramovich, entre as quatro linhas do azul londrino. Quanto ao “melhor” que terá feito, estamos conversados.
Foram-se as palpitações, a crise segue dentro de momentos.

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Redação