Progresso!
Durante anos a mesma silhueta, o mesmo recorte, o mesmo horizonte. Durante anos a mesma vista, as mesmas cores. Depois, progresso.
A superfície do solo é quebrada, seu repouso interrompido e incomodado pelos pneus e lagartas que o marcam. Em breve se verá a pedra, arranhada pelo ferro e aço que a acordaram de um sono profundo.
Lá ao lado, uma treliça de aço impõe-se. Será o primeiro vestígio na linha da horizonte, até agora estática. Se tivermos sorte, se a época for propícia, não será única a sua silhueta ao pôr do sol. Juntar-se-à a outras que como ela giram e içam, giram e içam: tanques de batalha desta causa.
O esqueleto ergue-se ao longo dos próximos meses. Nu e transparente, cresce um pedaço de cada vez e vai-se impondo sobre o horizonte, sobre as montanhas ao longe, sobre a paisagem urbana.
Depois do esqueleto virão tijolos e vidro completar a obra. A treliça desce, et voilà: progresso.
Há quem neste mundo preferiria viver num museu. Num mundo congelado, estático. Quem fique horrorizado, qual homicídio, quando as antigas paredes decrépitas vão abaixo. Quando as gruas se erguem e ocupam o horizonte.
Que triste destino é o nosso se soubermos com absoluta certeza que vamos morrer a ver o mesmo da janela que quando nascemos. A acontecer, não é menos que uma tragédia. Quer dizer que ninguém mudou de casa, que ninguém veio ou voltou, que ninguém quis partilhar as suas ideias com todos nós, que ninguém quis fazer nada do mundo… A mudança não é só parte da vida, é a vida em si mesmo.
Quando ando pelas ruas de Bragança e vejo as colinas no horizonte ser progressivamente engolidas por novas construções, fico feliz que há aqui quem queira ficar. Quando vejo gruas na Praça da Sé, fico aliviado que alguém ainda quer apostar na nossa cidade, na nossa região.
A minha geração cresceu e ganhou consciência do mundo numa crise profunda do setor da construção. Cresceu a ver obras abandonadas, a ver um mundo parado. Começou a vida adulta numa altura em que as pessoas não podiam ir à rua e assim toda a paisagem foi completamente petrificada.
Mas o mundo não precisa de ser um museu a céu aberto. Precisa de mudança, muita, e rápido, o suficiente para não sucumbir, para não sucumbirmos.
A sociedade tem que se alinhar para a mudança. Se hoje lidamos com os problemas providos da ânsia por progresso das gerações mais velhas, não podem ser essas mesmas gerações a bloquear o nosso progresso e a solução ao progresso que elas geraram.
A política não deve dar mais importância, ou ferramentas, àqueles que querem viver num museu.
Temos pressa, queremos soluções, queremos mudança, queremos progresso.

