Incêndios Rurais no Nordeste Transmontano: Estamos Realmente Preparados?
Todos os anos, com a chegada do calor, regressa a mesma preocupação: estaremos verdadeiramente preparados para enfrentar mais uma época de incêndios rurais? No Nordeste Transmontano, uma região marcada pelo envelhecimento da população, pela baixa densidade demográfica e pelo crescente abandono dos terrenos agrícolas, esta questão assume uma importância ainda maior.
Sempre que se aproxima o verão, o debate público centra-se na limpeza dos terrenos. Trata-se de uma medida importante e necessária, mas está longe de ser a solução milagrosa que, por vezes, se pretende apresentar. Continuamos a insistir numa abordagem que atua sobre as consequências, sem resolver as causas do problema. Limpar um terreno uma vez por ano pode reduzir temporariamente o risco, mas não resolve o abandono estrutural que afeta grande parte do território.
A gestão da paisagem não pode ser uma ação sazonal.Tem de ser permanente. Um terreno limpo hoje pode voltar a estar coberto de mato dentro de poucos meses se não existir uma utilização regular ou um acompanhamento contínuo. A prevenção dos incêndios não se faz apenas na primavera ou nos dias que antecedem o verão. Faz-se durante todo o ano, através de uma estratégia consistente de ocupação, valorização e gestão do território.
E é precisamente aqui que importa abrir um debate sério. Em muitas aldeias do Nordeste Transmontano existem centenas de parcelas abandonadas, cujos proprietários são desconhecidos, vivem longe ou simplesmente já não têm condições para as gerir. Perante esta realidade, não faria sentido atribuir às autarquias um papel mais ativo?
Sem colocar em causa o direito de propriedade, poderia ser criado um modelo que permitisse aos municípios assumir a gestão administrativa temporária de terrenos comprovadamente abandonados. O objetivo não seria expropriar, mas sim garantir a sua manutenção, limpeza e aproveitamento. Essas parcelas poderiam ser integradas em bolsas de arrendamento rural e disponibilizadas a agricultores, cooperativas, associações ou jovens empreendedores interessados em desenvolver projetos agrícolas ou pecuários.
Um terreno cultivado é, regra geral, um terreno cuidado. Um terreno onde existe atividade agrícola ou pastorícia dificilmente acumula a quantidade de vegetação que serve de combustível aos grandes incêndios. A melhor prevenção não passa apenas pela limpeza; passa pela utilização e pela valorização do território.
Sempre que ocorre um incêndio de grandes dimensões, regressam também as dúvidas sobre a capacidade de coordenação das entidades responsáveis. Apesar da evolução registada ao longo dos últimos anos, continuam a existir questões legítimas, sobretudo nos territórios do interior. Quando os centros de decisão estão afastados das zonas mais vulneráveis, é inevitável perguntar se o conhecimento local está a ser devidamente valorizado.
No Nordeste Transmontano, quem conhece os caminhos rurais, os acessos florestais, os pontos de água e as características de cada aldeia são os bombeiros, os sapadores florestais, os autarcas e as populações locais. Esse conhecimento não pode ser ignorado. O poder local não deve limitar-se a executar orientações definidas à distância; deve participar ativamente na construção das estratégias de prevenção e de gestão do território.
Talvez a questão não seja apenas saber se estamos preparados para combater os incêndios quando eles surgem. Talvez a verdadeira pergunta seja outra: estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar que eles aconteçam?
Enquanto continuarmos a discutir apenas a limpeza dos terrenos e o combate às chamas, estaremos a ignorar a raiz do problema. O grande desafio do Nordeste Transmontano não é apenas apagar fogos. É combater o abandono, criar condições para fixar pessoas, promover a atividade económica e devolver utilidade a milhares de hectares que hoje se encontram sem qualquer gestão.
Porque a melhor forma de combater um incêndio continua a ser impedir que ele encontre terreno fértil para se propagar.
