Psicólogo percorreu 260 quilómetros pela EN103 para sensibilizar para a violência doméstica
Psicólogo clínico e técnico de apoio à vítima do município de Alcobaça, é a ocupação de João Mota, que decidiu percorrer a Estrada Nacional 103 numa caminhada solidária de cerca de 260 quilómetros, entre Viana do Castelo e Bragança, com o objetivo de sensibilizar a população para a violência doméstica.
João Mota, que trabalha diariamente com vítimas no Gabinete de Apoio à Vítima de Violência Doméstica (GAVVD), decidiu transformar o seu período de férias numa iniciativa de sensibilização pública, intitulada #CaminharContraAViolênciaDoméstica.
Uma iniciativa pessoal nascida do trabalho com vítimas
A caminhada, realizada de forma individual e ao longo de oito dias, surgiu diretamente da experiência profissional do psicólogo. “Faço isto no meu período de férias, é uma iniciativa pessoal. Já fiz a Nacional 2 em 2021 e o ano passado também uma caminhada para angariar fundos para crianças com deficiência. Este ano resolvi fazer a Rota Norte”, referiu.
Mais do que o desafio físico, João Mota sublinha a dimensão simbólica do percurso. “Não faz sentido fazê-los sem ser por uma causa”, afirmou.
Sensibilizar no terreno e fora dos gabinetes
Ao longo do percurso, o psicólogo optou por uma abordagem informal, apostando no contacto direto com as populações.
“Gosto de fazer sozinho, porque tenho os meus timings e não dependo de mais ninguém”, explicou. “Não há formalidades. As formalidades são nos gabinetes. Aqui a ideia é sair um pouco dessa onda”, acrescentou.
A iniciativa inclui também a utilização de t-shirts com mensagens de sensibilização, que acabam por gerar conversa espontânea com quem cruza no caminho.
“Quando me sento, as pessoas vêm ter comigo e perguntam que tipo de caminhada é esta. É um pouco assim, não há nada formal”, disse.
O principal objetivo da caminhada é alertar para uma realidade que, segundo o psicólogo, exige atenção contínua. “É chamar a atenção para a violência doméstica, para uma situação que não para. Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar um bocadinho o que está à nossa volta”, afirmou.
“A cada quilómetro que faço, a cada passo que dou e cada pessoa que vem ter comigo, tentamos conversar”, acrescentou.
260 quilómetros entre Viana do Castelo e Bragança
A iniciativa decorreu ao longo de cerca de 260 quilómetros da EN103, num percurso dividido em oito etapas. “Parti de Viana no domingo e este domingo em Bragança. São cerca de 260 quilómetros”, explicou. “Esta caminhada demorar oito dias”, referiu.
O regresso a casa foi feito de autocarro, esta segunda-feira.
Apoios logísticos e solidariedade ao longo do percurso
Apesar de se tratar de uma iniciativa individual, João Mota contou com vários apoios logísticos ao longo do trajeto.
“Houve alguns apoios, nomeadamente aqui do hotel em Vinhais, e também outras pessoas e entidades que se foram associando”, referiu, explicando, “enviei e-mails, fui contactando pessoas, e muitas quiseram associar-se à causa. Isso ajuda-me a ficar mais tranquilo”, afirmou.
Violência doméstica: “um crime público que todos podem denunciar”
Ao longo do seu trabalho, João Mota destaca a importância das estruturas de apoio às vítimas e da denúncia e recorda que, sendo a violência doméstica um crime público “toda a gente pode e deve denunciar”, sublinhou.
O psicólogo reforça que o trabalho das equipas especializadas passa por um acompanhamento próximo e multidisciplinar.
“Fazemos acompanhamento de proximidade, percebemos o que a vítima quer, acompanhamos aos tribunais, às vezes às casas de abrigo, e garantimos apoio psicológico, social e jurídico”, explicou.
Questionado sobre o impacto da violência nas vítimas, João Mota não tem dúvidas quanto à gravidade das consequências.
“Uma pessoa exposta à violência durante muito tempo tem danos irreversíveis, isso está mais do que provado” disse, sublinhando que é uma situação que tem impacto direto nas crianças.
“As crianças não são vítimas secundárias, são vítimas diretas. Devem ser acompanhadas para prevenir danos futuros”, sublinhou.
João Mota reforça também que os profissionais têm responsabilidade ativa na proteção das vítimas. Sendo ele psicólogo e técnico municipal admite que têm feito e devem continuar a fazer denúncias, “sempre que necessário e após avaliação de risco.” No entanto, destacou quefazem questão de ter o acordo das vítimas sendo elas as principais partes envolvidas que, posteriormente, deverão confirmar a situação.
Gabinetes de apoio e importância da intervenção precoce
Para o técnico, o recurso às estruturas de apoio é essencial para garantir proteção e encaminhamento adequado. “É importante que as vítimas procurem estas estruturas. Há avaliação de risco, acompanhamento e proteção”, explicou.
Entre as respostas disponíveis estão o acompanhamento psicológico, jurídico e social, bem como o encaminhamento para casas de abrigo quando necessário.
A caminhada solidária de João Mota terminou, domingo, em Bragança, encerrando oito dias de percurso e sensibilização ao longo de uma das principais estradas do Norte do país, num apelo direto à consciencialização pública para a violência doméstica.