Reconhecer o valor de quem dá vida
Opinião

Reconhecer o valor de quem dá vida

  • 6 de Maio de 2026, 08:36

 O Dia da Mãe é, por tradição, um momento de celebração e gratidão. Mas pode — e deve — ser também um convite à reflexão sobre o lugar da mulher e do homem na sociedade atual, para lá dos discursos simplistas que tantas vezes confundem igualdade com uniformidade.

É inegável o caminho percorrido nas últimas décadas. A igualdade de direitos entre homens e mulheres é hoje um princípio amplamente reconhecido e, felizmente, pouco contestado. Ambos são titulares dos mesmos direitos fundamentais: à educação, à saúde, ao trabalho, à liberdade de expressão e à participação cívica. Este é um avanço civilizacional que importa não apenas celebrar, mas consolidar.

No entanto, ao afirmarmos esta igualdade essencial, parece crescer uma certa dificuldade em reconhecer o que também é evidente: homens e mulheres não são iguais em tudo. Diferem no plano biológico, mas também — com todas as variações individuais — na forma como vivem, sentem e organizam prioridades. E reconhecer estas diferenças não diminui ninguém; antes enriquece a forma como nos organizamos enquanto sociedade.

O problema surge quando, em nome de uma ideia mal compreendida de progresso, se tenta impor um modelo único de realização. Durante muito tempo, a mulher foi limitada a um papel estreito. Hoje, corre-se o risco inverso: sugerir, ainda que de forma subtil, que o sucesso feminino passa necessariamente pela reprodução de um modelo tradicionalmente masculino — centrado numa carreira altamente exigente, numa disponibilidade quase total para o trabalho e numa lógica de constante afirmação profissional.

Mas será esse o único caminho válido? Será justo medir todas as formas de realização pela mesma régua?
Neste Dia da Mãe, importa recentrar o debate. Ser mãe não é um desvio de percurso nem um obstáculo a ultrapassar. É uma dimensão exigente, transformadora e profundamente relevante da vida humana. E uma sociedade equilibrada deve ser capaz de reconhecer valor tanto na realização profissional como na dedicação à família — sem hierarquias artificiais.

Ao mesmo tempo, é justo reconhecer uma evolução muitas vezes ignorada: os homens têm vindo a assumir um papel cada vez mais presente e ativo na vida familiar. Participam mais, cuidam mais, envolvem-se mais. Ainda há caminho a fazer, certamente, mas esta mudança revela que o equilíbrio não se constrói colocando uns contra os outros, mas caminhando lado a lado.

Persistem, é verdade, formas subtis de condescendência. Ainda há quem, consciente ou inconscientemente, desvalorize a competência feminina ou a reduza a estereótipos ultrapassados. Mas também há um risco novo: o de desvalorizar escolhas legítimas de muitas mulheres, sobretudo quando estas não se alinham com os modelos dominantes de sucesso.

O verdadeiro desafio do nosso tempo não é eliminar diferenças, mas saber integrá-las com inteligência e respeito. Promover uma cultura onde homens e mulheres possam fazer escolhas livres — na carreira, na família, na vida — sem pressões ideológicas nem julgamentos apressados.

Celebrar o Dia da Mãe é, no fundo, reconhecer o valor insubstituível de quem dá vida, cuida e forma gerações. Mas é também afirmar que esse papel ganha ainda mais força numa sociedade que valoriza o equilíbrio, a complementaridade e a liberdade de cada um ser, plenamente, aquilo que é.

Porque igualdade não é tornar tudo igual. É reconhecer o valor das diferenças — e saber fazer delas um ponto de encontro, não de divisão.


Ouça a Bruna no A Torto e a Direito todas as Quintas às 21:00 na Rádio Brigantia

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