Abril não é museu. É compromisso com o futuro
Como diz a canção, tudo são recordações. E, como recordar é viver, no 52.º aniversário do 25 de Abril apetece-me revisitar a “minha” revolução de 1974. Lembro bem aquela manhã. A juventude florescia. A comunicação era um velho rádio Grundig, sem FM, que ainda guardo no meio rural. Tem magia e memória. Estranhei que o Programa da Manhã da Renascença não entrasse no ar como sempre. Mas cumpri a rotina e fui para o Liceu Nacional de Bragança.
Nada parecia anormal entre os estudantes. Bragança ficava e fica longe de Lisboa, e a informação não corria como hoje. As aulas começaram às 08h30. Sala n.º 2, rés-do-chão, Português com o Dr. Luís Cangueiro, ilustre mirandês hoje ligado ao seu singular museu de música mecânica. A aula seguia normal. Até entrar o Dr. Eduardo de Carvalho. Com semblante grave, anunciou: Portugal vivia uma revolução. Tinha chegado a liberdade. Ali, deu-nos a primeira lição de democracia. Nunca a esqueci.
Para mim e para quase toda a rapaziada do liceu, foi surpresa que virou euforia. Nada ficaria igual. O grito de liberdade ganhava força. A democracia dava passos todos os dias. O 25 de Abril tornou-se data maior de Portugal. Do resto já muito se disse. Das manifestações em Bragança e noutras terras, do progresso sonhado, da liberdade vivida, por vezes com excessos de rebeldia.
Recordar esse passado é sublinhar a importância de Abril. Só quem o viveu mede o seu significado. Sobretudo jovens como eu, vindos do meio rural esquecido, onde tudo faltava. Muitas aldeias não tinham telefone. Faltava estrada, água canalizada, saneamento e luz elétrica. O analfabetismo travava o desenvolvimento. O trabalho agrícola era duro e pouco produtivo. Mandar um filho estudar na cidade exigia sacrifício. Ensino superior era privilégio.
Na minha aldeia não havia “nada”. Ruas de terra batida, água só nas fontes e na ribeira. Estrada, luz e saneamento chegaram depois. São conquistas de Abril, sim.
Comparando esses tempos com hoje, a evolução foi imensa. A modernidade atual não se parece com aquele passado que ainda soa próximo. Mas a memória não basta.
Abril deu-nos direitos, mas também deveres. Deu-nos voto, escola, saúde, estradas. Deu-nos a hipótese de sair da terra batida. Hoje o risco é outro: transformar Abril em feriado bonito e esvaziar-lhe o conteúdo. A democracia não vive de nostalgia. Vive de participação, de exigência, de combate à desigualdade que teima em mudar de rosto.
Fica o passado, saboreia-se o presente. Mas Abril exige futuro. Um país onde a justiça impere, o mérito se reconheça e a liberdade não seja só palavra de cartaz. Se falharmos isso, traímos o Dr. Eduardo de Carvalho e aquela manhã na sala n.º 2.
Abril não é museu. É trabalho por fazer.
