O estreito da discórdia
A guerra que poucos queriam, mas que Israel quase exigiu, levou os EUA a entrarem num conflito no pressuposto de que seria breve e tudo se resolveria em quatro ou seis semanas. Erro de Trump. Depois de algumas semanas de guerra e de ter como consequências a subida vertiginosa do preço do petróleo, do gaz e dos fertilizantes, assim como de quase todos os bens que dependem destes produtos, a guerra alastrou-se aos países vizinhos.
A necessidade de acabar com a guerra, levou à intervenção da China e da Rússia, aliadas do Irão, no sentido de conseguir um cessar-fogo e uma solução para acabar com o conflito. A economia mundial ressentiu-se enormemente em vários aspetos. As negociações começaram e parece seguirem num caminho promissor. Mas o Irão tem um trunfo enorme que é o controlo do estreito de Ormuz de que não pretende abrir mão, indo mesmo ao ponto de querer cobrar taxas aos navios que por lá passem, o que é contra o Direito Internacional, mais concretamente da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar.
O cessar-fogo foi anunciado, mas não foi cumprido integralmente. Israel quer continuar a bombardear o sul do Líbano e as posições do Hezbollah e, aparentemente, não quer o cessar-fogo nesta parte da guerra. Contudo, há já marcação para um encontro entre os Presidentes do Líbano e de Israel no sentido de chegar a um acordo. Vamos esperar para ver o que sai dali.
Uma faixa de apenas 34Km de largura entre o Irão e Omã proporciona a passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico de um quinto do fornecimento mundial de petróleo e outros bens vitais, incluindo fertilizantes necessários à agricultura em todo o mundo. A fome paira no ar se o conflito não parar. O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas não oferece total segurança marítima, segundo a Maersk, a segunda maior empresa de transporte marítimo do mundo. Até agora nenhum petroleiro fez a travessia do estreito. Mais de 230 petroleiros e outros navios estão retidos pela guerra. Antes do conflito passavam 91 navios, o que representa 20 milhões de barris de petróleo. Se o Irão continuar a dizer que só podem passar 15 navios, isto significa apenas 5 ou 6 milhões de barris, o que é uma gota no oceano. As consequências são desastrosas. As companhias de aviação, por exemplo, já estão a reduzir algumas rotas para poupar as reservas de gasolina. Este racionamento vem no seguimento da falta enorme de petróleo e isto sente-se mais nas companhias asiáticas que já acabaram com algumas ligações aéreas. Tudo se está a complicar.
Ao Irão não interessa a guerra, mas agora que tem o controlo do Estreito, não o quer perder e é uma das premissas das negociações que Trump tem de enfrentar. Desta vez é ele que não tem as cartas na mão! As ameaças parecem não intimidar o Irão, um país imenso e difícil de dominar. No entanto, permitir que continue a controlar esta importante via navegável será provavelmente algo inaceitável para os países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos, como também o não é aos países europeus que dependem muito do fornecimento petrolífero.
Os EUA sempre se interessaram em manter os estreitos naturais abertos a toda a navegação. Foi o que aconteceu durante a guerra entre o Irão e o Iraque. Agora, mesmo que os americanos se desinteressem do que se passa no Estreito, os países da região certamente vão recorrer à força para garantir a sua reabertura. Caso não seja possível garantir a segurança dos navios, as companhias de navegação internacionais e especialmente as seguradoras, não arriscam passar com toda a certeza.
Para Trump, este passo foi um tiro no pé. Além de não ter conseguido terminar com a guerra no tempo previsto, viu-se envolvido numa guerra que pode ser longa, o que ele não pretende, mas também num conjunto de ameaças que não caíram nada bem ao povo americano e ao mundo. Não se acaba com uma civilização assim de ânimo leve. Nem ele conseguiria.
Resta um trunfo: a ilha de Kharg como moeda de troca, mas para isso seria necessário conquistá-la. E qual o preço disso? E que consequências isso traria para a região e para a América? Claro que sem a ilha o Irão não conseguiria escoar o petróleo e o gaz e, em última análise teria de negociar com os EUA. Vamos esperar.
As cartas estão em cima da mesa. As negociações irão continuar. O Estreito de Ormuz continuará a marcar o ritmo da economia mundial, mesmo que os EUA não precisem do que por lá passa.
