Mentiras e Ilusões sobre Imigração
O debate sobre a imigração e os seus efeitos na economia e no mercado de trabalho estão amplamente contaminados por uma realidade que não é a nossa, a Estadunidense. Não só é essa comparação pouco genuína graças ao nosso Estado Social muito mais abrangente, como ainda nos deixamos contaminar por mentiras que são trocadas no debate político do outro lado do Atlântico.
A maior mentira económica que se conta sobre a imigração é sobre o mercado de trabalho. Diz essa mentira que os imigrantes vêm roubar os empregos dos que já cá estão. Os estudos relevantes na matéria desmentem. Na verdade, quando olhamos para o efeito que a chegada de imigrantes tem na Europa observamos uma queda de 1% que combinada com o facto de os mesmos estudos revelarem um aumento de 1% do emprego nos EUA, nos leva à conclusão de que o efeito é largamente nulo e os valores apenas erros estatísticos.
Confrontados com a mentira da Extrema-Direita, a Esquerda adotou o discurso de que na verdade, a imigração não só não é má economicamente como é a nossa Salvação.
Para combater uma mentira, não me parece necessário criar mentiras de sinal inverso. Mas assim é o caminho escolhido por este campo político, talvez assim se comece a explicar a sua crescente insignificância eleitoral. Desmontemos então o porquê de a imigração não vir salvar-nos coisa nenhuma.
Primeiro, a alegação de que os Imigrantes vêm salvar a Segurança Social.
O sistema de Segurança Social Redistributivo baseia-se num princípio simples: aqueles que mais ganham contribuem mais e aqueles que ganham menos contribuem menos. Um princípio de Justiça Social que culmina no segundo princípio: todos temos os mesmos direitos a receber da Segurança Social mediante a nossa condição socioeconómica atual.
Pensemos então qual é o resultado prático quando aumentamos o número de imigrantes. Como é evidente, se temos mais trabalhadores, temos mais contribuições no que toca ao sistema de pensões. Mas como a maioria dos imigrantes são empregados com baixas remunerações, aumentamos também a nossa dívida futura, porque também eles terão direito a reformar-se, mas sendo maioritariamente trabalhadores de baixos rendimentos contribuem em proporção inferior.
Outro problema se apresenta quando olhamos para a sociedade como um todo. Com este aumento populacional aumentamos também a proporção de população com baixo rendimento. Este fator só não é mais aflitivo porque, por falta de informação sobretudo, os imigrantes desconhecem frequentemente os apoios a que podem recorrer. Mas a longo prazo a procura a estes apoios tenderá a aumentar, aí haverá uma escolha a fazer. Poder-se-á aumentar ainda mais os impostos para cobrir uma despesa maior ou então rever os critérios de acesso, desalojando os que estão no topo dos beneficiados a favor de uma nova massa populacional que é injetada no fundo da tabela de rendimentos.
Aqui podemos ver talvez uma das razões porque a Extrema-Direita e sentimentos anti-imigração crescem tanto em populações mais economicamente desfavorecidas por toda a Europa.
O efeito da imigração tem ainda um outro efeito nefasto na ótica Socialista.
A imigração é apontada como um comprimido mágico para o crescimento económico. Obviamente que se temos mais pessoas a produzir e a consumir a economia cresce, mas não é garantido que o crescimento económico per capita acompanhe esta lógica. E de facto há vários exemplos de não acompanhar: Reino Unido, Alemanha, França tiveram nos últimos anos um grande número de imigrantes, mas têm simultaneamente economias engripadas que oscilam entre o minúsculo crescimento e decrescimento económico.
Há ainda um problema no que toca à distribuição do pouco crescimento económico que há. Se uma empresa pretende crescer ela tem normalmente duas opções óbvias. Ou cresce o fator de produção trabalho que é o mesmo que dizer, contrata mais pessoas, ou cresce o fator capital, que significa investir dinheiro para automatizar processos ou tornar os trabalhadores existentes mais produtivos. Num ambiente de abundância de mão de obra barata, presente numa política de imigração ativa, os empresários são encorajados a aproveitarem essa mão de obra barata em vez de investirem na automatização. Sendo assim, ficam com mais dinheiro para a emissão de dividendos aumentando os seus rendimentos pessoais e promovendo o crescimento da desigualdade salarial.
Existiram tempos (que parecem hoje longínquos), em que se alguém sugerisse que era necessário importar mão de obra para livrar empresários de investir mais em automação, a Esquerda insurgiria-se dizendo que é intolerável aumentar a desigualdade salarial. Existiram tempos em que se alguém sugerisse que a imigração é essencial para que alguém entregue a nossa comida a casa, a Esquerda insurgiria-se dizendo que é intolerável aumentar a competição por recursos atribuídos aos mais fracos da nossa sociedade para satisfazer um tal luxo da bourgeoisie capitalista. Mas hoje, é a Esquerda que faz estas sugestões ou até argumentos convictos.
Estes pontos não são para “malhar” na Esquerda como poderá estar a pensar. São sim um grito de saudade por uma Esquerda que tinha claro quais eram as suas prioridades, cabeça fria para perceber como atingir os seus objetivos, e que representava muitos daqueles que hoje escolhem ser representados pela Extrema-Direita.
O que me leva ao ponto final. Muitos são os que olhando para estes argumentos me acusariam de atacar o direito de migração. Disputo desde logo esse direito por razões que levavam todo um outro artigo a explicar. Mas se de facto queremos preservá-lo então não devemos fechar os olhos e os ouvidos e cantarolar a união dos povos do mundo até que ela se torne realidade. Isto tem sido a estratégia da Esquerda dos últimos anos. Uma estratégia que tem levado os partidos de Extrema-Direita a ganhar terreno por toda a Europa e a Esquerda a perder assento atrás de assento no Concelho Europeu.
Se queremos preservar esse “direito” de migração então temos que garantir que ela é equilibrada nas nossas contas e no nosso sentido de justiça social, não só no presente mas também no futuro das próximas gerações. Só assim se pode eliminar tensões que possam derramar para rimas da história que certamente nenhum moderado e muito menos esquerdista, quer ouvir.
