O Politécnico
Uma observação não para descobrir o oculto, sim no sentido de abrangência sensorial para depois poder compreender o objecto no sentido definido por Jungius na esteira de Escoto – “Objecto aquilo em volta do qual vertem as faculdades, os hábitos e o seus actos.” Uma recente e fugaz passagem por Bragança permitiu-me fazer uma marcha em redor do Politécnico, iniciada às sete da manhã, tendo terminado às oito e meia de uma manhã luminosa e aprazível. Antes de chegar ao edifício da Escola Superior de Tecnologia e Gestão topei claros indícios de campanha eleitoral destinada a eleger órgãos estudantis, a lista C impunha-se pela quantidade e qualidade da propaganda de toque profissional, o branco neutro do imóvel – princípio da vida e da morte – agradou-me, relva bem tratada, no chão embalagens de comida rápida, maços vazios de cigarros e copos de plástico entristeciam o espaço, segui em frente, fui olhando os diversos tons de verde, sem ser a Susan Sontag revi as imagens da Quinta de Santa Apolónia recolhidas na infância e adolescência, logo surgiu a dúvida: existirão em termos reais no Arquivo/Biblioteca do Instituto? As chuvas recentes ajudaram à engorda do Fervença assim o comprovei ao atravessar o passadiço que desemboca no edifício da Acção Social, que uma sinalética perfeita indica ao visitante as suas diversas valências, pena a não existência de sinalética do género, mais precisa, na entrada principal a sugerir ao passante percursos e temas de interesse a “observar”. Sigo com o olhar os renques de árvores, lavo os olhos com tantas cores, vou em direcção à Escola Agrária, não consigo perceber se o visto era um campo experimental – devia ser – a fileira de “videiras” trouxeram à memória o enforcado camiliano, estugo o passo, tomo mais uma anotação – não anotei o bilhete de identidade de nenhuma árvore. Distracção minha, concluo-o, ficando-me a curiosidade de averiguar se naquele território existe ou não algum monumento natural. Cirando e chego à Escola Superior de Educação, não leio a placa alusiva a um qualquer acto importante, circundo-a, espraio a vista, sigo a tentação de contornar o Instituto pelo lado de fora. Assim faço. Vou olhando, vou observando, cruzam-se comigo três mulheres fortes e também peripatéticas, gosto do que vejo, se estivesse ao meu lado o Jorge Cancela arquitecto especialista em “land-art” não hesitaria em bombardeá-lo com perguntas sobre a possibilidade de o Politécnico ter um, com horto, de modo a se transformarem em importantes fontes de receita, de maneira a aumentar a sua independência financeira e importância estratégica. O paciente e informado Jorge não estava comigo, mas mesmo assim vou importuná-lo. Como em próxima ida a Bragança irei importunar as autoridades do Politécnico, pois na medida do possível, quero perceber as suas “faculdades, os hábitos e actos” de uma instituição da qual muitos falam e, certamente, poucos sabem. Nada sei. Só observei. Não tenho dúvidas acerca da sua importância debaixo de todos os aspectos, mas devido à carestia de meninas e meninos muitos de nós interrogamo-nos sobre o futuro de os Politécnicos, a principiar por um dos seus elos – as Escolas Superiores de Educação. A crise afecta-nos e os contribuintes sentem-no seriamente, pois o fisco é a cada dia que passa mais omnipotente e omnipresente.
Armando Fernandes
A multímoda Susan Sontag publicou o estimulante Ensaios sobre Fotografia.

