Euro e milhões
Hoje, em 2008, a crise é económica e muito, muito social. Certamente atafulhado das melhores intenções, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol afirma que “a imagem de Portugal é a imagem da selecção”. O que é uma forma, talvez, quem sabe, inteligente de baralhar as coisas, considerando que ou o bom português apoia a sua (dele, nossa ou de quem a apanhar) selecção, dando o corpo, a voz e o que mais for preciso ao manifesto, esperando eternamente por melhores lances ou melhores dias; ou então não merece o país que tem, merecendo pelo contrário a crise que nele se instalou.
Percebeu, caro leitor? Não? Pois então já compreende por que não são compreensíveis as palavras de Gilberto Madaíl. Embora nestes assuntos de campeonatos internacionais (europeus ou mundiais) de futebol, as estratégias sejam sempre previsivelmente improvisadas. Porque, na dúvida, recorre-se sempre ao bom português. Pondo-o a sonhar com uns dias gloriosos que, entre as quatro linhas, a Nação Valente guiaria à sua própria imortalidade, a ver se o esplendor ainda se anima.
O pior é que o ego português parece funcionar pelo sistema de um balão de encher: quanto maior, mais frágil. O que quer dizer que quando os ânimos estão enrubescidos e o coração palpitante se adivinha que vem aí azar. Porque por cá não se aguenta o que é muito bom durante muito tempo. Faz-nos impressão. Causa-nos azia. Parece que sentimos que não merecemos, que a coisa está ali por empréstimo e que a fatalidade de sermos o que somos, mais cedo do que mais tarde nos há-de bater à porta. E é então que o balão rebenta…
Por isso é que os portugueses são o único povo, de entre os que estão representados no Euro, que está dividido nos olhares com que vê a chegada da sua selecção à final. Porque seria demais, não natural, como acreditar que um dia possamos ser totalistas do euro milhões. E o português é supersticioso, acredita sempre no pior para se desiludir comedidamente. É que, ainda por cima, esta é a 13ª edição do Euro, e não vá o diabo de algum árbitro tecê-las…
E quando, neste sábado passado, Pepe marcou o desejado golo na baliza turca, meio povo se benzeu e outro meio fez figas. É que é sempre difícil gerir a confusão que se gera na cabeça dos torcedores quando, perante a expectativa de Portugal conseguir um “grande” resultado com uma das piores equipas do Euro, se chega ao segundo tempo do jogo sem outras novidades para além de um golo bem anulado. Por isso, um remate “ponteiro” aos sessenta minutos provoca sempre uma sensação de vitória antecipada, roubada aos azares próprios de uma equipa sujeita à grande pressão de se saber boa.
E enquanto a UEFA vai pagando a cada selecção participante a pouco despicienda quantia de 7,5 milhões de euros, o povo nacional, esplanchado em frente aos ecrãs, começa a cantar e a rir com mais alguma vontade. Pelo menos até ao jogo com a República Checa, quando for preciso dar de caras e de pés com o gigante guarda-redes Cech. Mas depois logo se verá, porque quem ri melhor é quem percebeu o final da anedota.
Algures em certa parte de Lisboa, o Governo também está muito contente. A manifestação de mais de duzentas mil pessoas na passada quinta-feira contra Sócrates e o seu plantel foi cilindrada pelas belas palavras de ânimo de Scolari e pelos estonteantes carros do Cristiano Ronaldo.
Vitória, vitória, ainda não acabou a história…

