Um País imaginário
Pretendido por todos, este país era tido como local ideal para retemperar forças, para gozar férias merecidas, para saborear o Sol cálido e a neve fresca da mais alta serra no centro do seu território. Era um país a cujas belezas se não podia resistir.
Podemos dizer que seria o país ideal para servir de palco à mais interessante história de amor ou à tragédia mais rocambolesca. Era um país real. Nada seria preciso inventar. Tinha todos os condimentos necessários ao mais belo conto. Até o drama mais cruel teria aqui a arena perfeita. No entanto, se o local era realidade e fazia parte da história, faltavam os personagens e todo o enredo. A realidade aqui podia pregar uma partida. Podia soar a falso. Os personagens deveriam ou não ser tão reais como o país? Mas um país tem personagens. É obrigatório. População. Pessoas que constituem um todo a que conjuntamente com o país se chama nação. Pessoas reais. Pessoas com consciência da sua própria existência num espaço limitado. Nação. Só este tipo de consciência permite falar em Nação. Teríamos então, um país lindíssimo e cobiçado, com população própria, com consciência da sua condição natural, teríamos afinal uma Nação.
Mas para a história ser completa faltam mais ingredientes. A Nação necessita de ser governada. As pessoas precisam de regras para se movimentarem livremente. As regras necessitam de ser impostas a todos. As regras precisam de ser aceites por todos e todos devem agir de acordo com elas. Assim teríamos uma Nação, com população autóctone, com governo e leis aceites por todos e onde todos se movimentavam livremente. Era um país supostamente democrático. Um país invejado, cobiçado, procurado…
Como qualquer história que se preza, também aqui os personagens marcam a diferença. Não poderíamos fazer história sem personagens. Seria, no mínimo, ridículo. Então restava-nos identificar os personagens e dividi-los em principais e secundários. Sim, porque nem toda a população poderia ter um principal ou um secundário. Aliás, a população poderia ter um papel principal se fosse tomada em toda a sua plenitude, livremente, em consciência plena do seu papel ou poderia ser toda ela simplesmente secundária. Aqui poderia estar a diferença entre um tipo de enredo e outro completamente diverso.
O outro aspecto da história e do país, seria o papel que caberia ao governo. Poderia ter um papel primordial em toda a história. Mas poderia ser secundário do mesmo modo. Tudo dependeria do papel individual de cada membro do governo. Aqui tudo parecia complicar-se. Os personagens começavam a não aceitar as imposições do governo. Democraticamente. E democraticamente o governo impunha as suas leis e já nem todos as queriam cumprir. Os personagens assumiam então papéis diferentes e diversos numa amálgama de interesses descomunal. A história começava a complicar-se. Mas afinal porque é que o governo deveria complicar a história? Tudo estava bem. Afinal o governo não deveria estar de acordo com toda a população? Não deveria governar para todos e com todos da mesma forma? Democraticamente? Algo estava mal. Que sentido fazia a história se o governo impusesse as suas regras a todos sem consultar os personagens da história? Afinal baralhou os papéis! Já ninguém se entendia! No fim de contas, que papel caberia agora aos personagens? Poderiam eles ter um papel principal? Na história tudo é possível. Se toda a população resolvesse ter um papel principal, então o governo seria secundário e desempenharia uma tarefa de menor importância na história. Talvez a história se tornasse mais apelativa, menos dramática. A revolta dos personagens! Quase uma tragédia grega!
Ah, mas… e o país imaginário? Onde está esse país? Ah, esqueci-me que lhe tínhamos posto um nome. O país continua a ser belo, de Sol brilhante, bonitas praias, serras alterosas, mas já não é tão procurado, já não tem tantos pomares de fruta fresca e saborosa, as praias são classificadas, os rios estão poluídos, as florestas desapareceram e os personagens estão descontentes. Como pode uma história de amor, acontecer num país assim?
Mas eu sou um personagem dessa história e desse país. Eu quero o meu país de volta. Eu quero fazer parte dessa história de amor. Eu quero que esse país não seja imaginário! Eu quero ser um personagem principal de uma história verdadeira num país real. É uma relação de amor! P’ra sempre.

